Morte de Mandela: uma perda que comoveu a África do Sul e o mundo
Internacional|Do R7
Marcel Gascón. Johanesburgo, 23 dez (EFE).- Depois de quase seis meses em estado grave por problemas respiratórios, o ex-presidente Nelson Mandela morreu em 5 de dezembro, aos 95 anos, em sua casa de Johanesburgo, uma perda que fez a África do Sul e o resto do mundo mergulharem na tristeza. A África do Sul deu início, então, a dez dias de luto oficial que terminaram em 15 de dezembro com o funeral de Estado, realizado na pequena aldeia de Qunu, no sudeste do país, onde Mandela cresceu e pediu para ser enterrado. Após imensas manifestações populares de luto e a celebração de seu legado perante seu antigo domicílio em Soweto (antigo gueto negro de Johanesburgo) na casa onde morreu, milhares de sul-africanos e líderes de todo o mundo deram o último adeus em 10 de dezembro no estádio FNB (antigo Soccer City) de Soweto. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, agradeceu ao povo sul-africano, em seu discurso na cerimônia religiosa oficial no FNB, de ter "partilhado Nelson Mandela conosco", e qualificou o ex-presidente de "o último libertador do século XX". Os atos de adeus a Mandela continuaram no dia seguinte na sede do governo sul-africano em Pretória, onde ocorreu o funeral, e por onde passaram 100 mil pessoas, durante três dias. Depois do grande adeus em Johanesburgo, Pretória e outras cidades do país, Mandela foi enterrado com honras de Estado em Qunu, em uma emotiva cerimônia da qual participaram vários líderes internacionais, familiares e amigos do ex-presidente. Em 8 de junho, Madiba deu entrada no Mediclinic Heart Hospital de Pretória em estado grave, com uma infecção pulmonar. Essa já era a sua quarta internação do ano. O mundo temeu por sua vida nos dias posteriores a 23 de junho, quando sua condição passou de "grave" a "crítica", e sua própria filha, Makaziwe Mandela, reconheceu que o antigo estadista podia morrer "sem demora". Enquanto aconteciam as peregrinações para homenageá-lo na frente do hospital, Mandela chegou, contrariando as previsões de muitos, a 18 de julho, dia de seu aniversário de 95 anos. Consciente que este podia ser seu último aniversário, o mundo se transformou em celebrações, e mensagens de encorajamento e reconhecimento chegaram à África do Sul de todos os cantos do mundo. Apesar das notícias de melhoria transmitidas pela Presidência e pela família, o diagnóstico de Mandela não melhorava. A última grande novidade sobre sua situação foi em 1º de dezembro, quando foi transferido, sem sair do estado crítico, para sua casa em Johanesburgo, onde continuou recebendo o mesmo tratamento. Aquele que tinha sido o preso político mais famoso da História não sairia mais de casa até sua morte. O local se transformou em uma unidade de terapia intensiva, e seus parentes mais próximos o visitavam diante do olhar atento de jornalistas acampados na rua. A longa agonia do velho estadista também foi marcada por uma polêmica familiar. A iminência da morte obrigava, já no mês de junho, a pensar nos detalhes do enterro. Liderada por Makaziwe, a família iniciou com urgência um processo judicial para conseguir que os ossos dos três filhos mortos de Madiba voltassem a ser sepultados em Qunu. O processo revelou um escândalo macabro: três anos antes, o neto mais velho de Madiba, Mandla Mandela, desenterrou secretamente de Qunu os restos mortais dos três filhos do ex-líder. Sem ter a autorização do resto da família, sepultou os ossos em Mvezo, uma cidade próxima, onde nasceu o avô, e na qual Mandla é o chefe do clã. O juiz deu a razão ao grupo liderado por Makaziwe, e os restos mortais retornaram, em 4 de julho, a Qunu para que Mandela pudesse descansar. O processo acarretou uma polêmica pública enfrentada por Mandla com outros integrantes do clã, e que levou o antigo ativista contra o apartheid e amigo de Mandela, Desmond Tutu, a pedir que deixassem de "cuspir na cara de Madiba". A morte de Mandela em 5 de dezembro às 20h50 (hora local) iniciou uma das despedidas mais emocionantes, globais e grandiosas da História feitas para um chefe de Estado. Ainda que marcados pela tristeza, os sul-africanos saíram às ruas para comemorar, com cantos e danças festivas, a vida do homem que mais fez mudanças na sua história e na história do país; Ninguém, nem na África do Sul nem no exterior, esquece os sacrifícios de Madiba para acabar com as humilhações sistemáticas contras os negros em um país que representa a dominação da minoria de origem europeia. Ninguém esquece também da sua liderança junto ao último presidente do apartheid, Frederik de Klerk, para facilitar uma improvável transição pacífica em uma África do Sul à beira da guerra civil. Essa conquista valeu para ambos o prêmio Nobel da Paz em 1993, e tornou possível que todos os sul-africanos possam viver hoje em paz e democracia independentemente de sua origem. EFE mg/cdr/ma











