O dilema entre defender a estabilidade ou corrigir a precariedade
Internacional|Do R7
Gemma Casadevall. Berlim, 19 set (EFE).- A chanceler Angela Merkel e seu rival social-democrata, Peer Steinbrück, têm fórmulas bem diferentes para dirigir a Alemanha, uma potência europeia que a líder conservadora defende como um oásis de estabilidade e que o candidato a assumir o cargo da premiê vê imersa em uma espiral de precariedade. A defesa da austeridade de Merkel versus o que Steinbrück classifica de "retorno à justiça social". Estes são os termos mais repetidos ao longo da campanha eleitoral e a síntese de seus programas. A chanceler e seu rival parecem querer ignorar que compartilharam o governo no primeiro mandato de Merkel - de 2005 a 2009, que teve Steinbrück como ministro das Finanças - e que alguns dos fatores que blindaram a Alemanha frente à crise foram construídos pelas duas grandes formações. De aliados eles se tornaram rivais, dinâmica que na política nunca é simples, principalmente quando não se pode descartar que, na aritmética eleitoral, seja possível vê-los juntos de novo. Steinbrück centra seu discurso na existência, por trás dessa aparente força econômica, de oito milhões de cidadãos trabalhando com salários mínimos, que a brecha social disparou e que, se não se remediar, a Alemanha do futuro condenará o trabalhador de hoje a aposentadorias miseráveis. Mas o candidato pisa em ovos nesse tema, já que parte dessa mudança é fruto da reforma trabalhista, batizada como Agenda 2010, iniciada na última fase do governo social-democrata-verde de Gerhard Schröder (1998/2005). Merkel também se esquiva da estabilidade que agora exibe diante de parceiros e compatriotas, porque o trabalho sujo de aplicar duros cortes no sistema social e trabalhista alemão foi feito por seu antecessor social-democrata. A chanceler chegou ao poder em 2005 diante de um Schröder que não foi perdoado pelo eleitorado pela "traição" ao ideário social-democrata. É de Steinbrück a árdua tarefa de resgatar o termo justiça social. O grande carro chefe do programa social-democrata é a implantação de um salário mínimo e o aumento dos impostos para altas rendas, além do reforço nos chamados quatro pilares do investimento: educação, infraestrutura, municípios e redução da dívida. Steinbrück transformou em cruzada pessoal a questão do salário mínimo, com o argumento de que a Alemanha está entre os poucos países da União Europeia onde não existe esta fórmula, para ele inadiável diante da crescente precarização das relações de trabalho. O candidato critica Merkel por condenar membros da zona do euro a um círculo vicioso de cortes enquanto pune o cidadão comum, que só olha pelo lado de fora a prosperidade, desfrutada só pela grande economia. O discurso da maior força da oposição se dividiu nessas direções, o suposto 'euroegoismo' de Merkel e os efeitos de sua política no cidadão, enquanto a União Democrata-Cristã (CDU) se voltou para a figura da chanceler. O programa de Merkel, qualificado "de governo", tem forte acento conservador, com melhora na ajuda à família. A CDU e sua aliada União Social-Cristã da Baviera (CSU) se definem como "âncora da estabilidade e motor do crescimento" e pressionam a UE para uma maior competitividade, ou seja, austeridade. O SPD de Steinbrück quer por fim ao "frio rumo da austeridade", ao mesmo tempo em que se posiciona a favor da incorporação da Turquia à UE como membro pleno, proposta completamente rejeitada por Merkel. As diferenças entre eles são bem maiores que as programáticas. Pessoalmente ela, a discrição absoluta; ele, certo afã provocador. E também na relação com seus partidos. Merkel, na Presidência da CDU desde 2000, a moldou até que se transformasse em uma legenda devotada à sua liderança. Nesse período, o SPD teve oito presidências, reflexo da crise não superada após a dupla renúncia, em 1999, de Oskar Lafontaine como líder e como ministro das Finanças, por causa da falta de acordo com a linha centrista recém-iniciada por Schröder. EFE gc/cd/id











