O domínio implacável escorado no sangue frio
Internacional|Do R7
Gemma Casadevall. Berlim, 19 set (EFE).- A chanceler Angela Merkel almeja sua reeleição para um terceiro mandato oito anos após chegar ao poder como uma líder atípica e transformada agora em arquétipo do sangue frio e do domínio absoluto, em escala alemã e internacional. Muitos de seus compatriotas ainda lembram de Merkel com o rosto impávido na noite de 18 de setembro de 2005, na qual seu partido, a União Democrata-Cristã (CDU), se impôs por uma vantagem mínima ao Partido Social-Democrata (SPD) do então chanceler Gerhard Schröder. Enquanto ela admitia sua decepção por essa magra vantagem, um Schröder eufórico como um boxeador sobre o ringue reivindicava para si o triunfo - reação que depois ele mesmo qualificou de "pouco ótima". Nessa Merkel já estava o selo da "chanceler de ferro" ou "chanceler teflon", como foi apelidada porque nada gruda contra ela, que em tempo recorde passou de novata à grande protagonista nas cúpulas da União Europeia e do G8. O início de seu "reinado" - uma recente capa da revista "Der Spiegel" a tachou como "Angela, a Grande" - foi atípico, como muitos aspectos biográficos de uma cientista que chegou à política de modo acidental. Um mês depois daquela noite amarga para Schröder, Merkel fez história duas vezes: se transformou na primeira mulher e na primeira política crescida na Alemanha comunista a jurar o cargo de chanceler da potência europeia. De repente a Alemanha ficou representada por alguém a quem Helmut Kohl descobriu entre os jovens talentos surgidos do outro lado do Muro de Berlim e a quem chamava de "moça do leste". Entre seu descobrimento pelo então chanceler e sua chegada ao poder há uma data fundamental: 22 de dezembro de 1999, quando convocou a CDU a "se emancipar" da sombra de Kohl, seu mentor. Merkel era então secretária-geral da CDU, formação que estava afundada em um escândalo de financiamento irregular na chamada "era Kohl". Com essa ânsia de virar a página, Merkel se tornou pouco depois presidente da CDU, aproveitando que nenhum dos barões parecia interessado em assumir suas rédeas em horas complicadas. Foi o momento-chave para a "moça do leste", que veio ao mundo em Hamburgo em 1954 como Angela Dorothea Kassner, filha de um pastor protestante que foi trabalhar em uma paróquia da República Democrática Alemã (RDA). Sua infância não foi comum na RDA, onde não eram bem-vistos os religiosos, e a construção do Muro, em 13 de agosto de 1961, pôs fim às visitas familiares ao oeste. Os biógrafos retratam Merkel como uma estudante aplicada e pouco dotada para a ginástica. Angela cursou Física, o que lhe deu a autonomia necessária para estudar em Leipzig e Berlim. Aos 23 anos, se casou com Ulrich Merkel, um companheiro de estudos de quem se divorciou depois de cinco anos, mas de quem ainda conserva o sobrenome. Sua segunda aposta sentimental foi seu "conselheiro" em seu doutorado em Física, Joachim Sauer, então casado e pai de dois filhos, com quem conviveu um longo período e que agora é seu atual marido. Merkel não esteve entre as centenas de milhares de germânico-orientais que no dia 9 de novembro de 1989 comemoraram com lágrimas a noite mais emblemática da história recente alemã, a queda do Muro de Berlim. Ela soube da notícia ao sair de sua sauna semanal, ligou de uma cabine telefônica para uma tia em Hamburgo e depois foi para casa "porque tinha que madrugar", contou ela mesma. Merkel foi secretária de propaganda das juventudes comunistas da RDA, mas, na revolução pacífica, pouco antes da queda do Muro, se integrou à dissidência. Em fevereiro de 1990, ingressou na CDU, e a partir daí tudo se precipitou: Kohl fez dela sua ministra da Mulher e da Juventude, em 1991, e lhe deu uma das vice-presidências do partido. Kohl também a tornou secretária-geral da CDU, mas os que acreditaram que ficaria estacionada nesse posto se equivocaram. Teve que suportar o balde de água fria que representou a designação do bávaro Edmund Stoiber como candidato a arrebatar a chancelaria de Schröder, mas três anos depois teve sua revanche. Foi ela quem derrotou Schröder e demonstrou então sua capacidade de se impor a todos que erroneamente a consideraram uma rival fácil. EFE gc/rsd/id











