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'Para ajudar minha família, deixei 4 filhos no Congo', conta refugiada

Julia Kinkela atravessou um oceano carregando a responsabilidade de sustentar sua família, de quem agora sente muita saudade

Internacional|Beatriz Sanz, do R7

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Julia vive no Brasil com seu filho
Julia vive no Brasil com seu filho

Em diversos lugares do mundo, as mulheres carregam nas costas desde muito jovens a responsabilidade de assumirem sozinhas a posição de chefes de família. Julia Kinkela, 28 anos, refugiada no Brasil vinda do Congo, atravessou fronteiras e um oceano carregando esta responsabilidade.

Nascida em Angola, mas criada no Congo, Julia é a mais velha entre sete irmãos e teve que ajudar seus pais em casa, na criação dos irmãos mais novos. Essa responsabilidade, que já não é fácil para qualquer adolescente, fica ainda mais difícil de ser cumprida em um país que foi palco do confronto mais sangrento desde o fim da Segunda Guerra Mundial — a Guerra do Congo.


— Lá [no Congo] não tinha condições. Eu tive que sair para ajudar a minha família. Eu via que a minha mãe estava sofrendo, o meu pai estava sofrendo. A gente morava em uma casa de madeira e se chovia, a gente ficava por cima da água.

Fuga para Angola


Pensando em ajudar a família e se livrar dos vestígios da guerra, Julia saiu do país, em direção a Angola, onde havia nascido. Cruzou a fronteira ainda aos 16 anos.

Como não tinha permissão para viajar, ela alterou a idade nos seus documentos. 


Ficou no país por 11 anos, mas a vida em Angola não foi mais fácil. Lá, ela engravidou e teve quatro filhos, dos quais precisou cuidar sozinha. Quando percebeu que a situação não ficaria melhor, entregou as crianças aos cuidados dos pais, no Congo.

Pouco tempo depois, Julia colocou em ação um plano ainda mais arriscado: atravessaria o Atlântico em busca de realizar seus sonhos em solo brasileiro.


Longe dos filhos

Para cumprir com suas responsabilidades e ajudar sua família, Julia precisou abrir mão de muita coisa. Mas quando perguntada sobre o que sente mais falta, nem hesita: “Meus filhos que ficaram no Congo.”

Já são quase seis anos sem ver suas crianças ou seus pais, o que faz com que ela se sinta muito sozinha por não ter família no Brasil.

Apesar da saudade, ela tem seu filho mais novo por perto. Concebido em Angola, nasceu no Brasil e é o único que vive com a mãe.

Julia explica que ao lado do filho sofreu grandes dificuldades quando chegou no país.

— Cheguei aqui e não conhecia ninguém, estava grávida de oito meses e só conseguia pensar “onde vou parar?”. Eu fiquei na casa de uma amiga minha também africana por um tempo. Eu ia até a Igreja Católica pedir roupa de criança e ajuda para a comida do bebê.

Vida difícil no Brasil

Atualmente, Julia está desempregada. Ela lembra que na sua chegada no país, há dois anos, teve alguns subempregos. Mesmo empregada, Julia ainda precisava pedir ajuda para sustentar seu filho pequeno.

Depois que perdeu o emprego, sofreu ainda mais. Não tinha com quem deixar seu filho pequeno para que pudesse trabalhar. A criança que tem dois anos começou a frequentar a creche recentemente.

Julia se queixa bastante da situação em que vive no Brasil.

— A vida tá muito mal, desabafa.

Ainda assim, Julia mantém a fé. Durante toda a conversa com o R7, as risadas são constantes. Apesar da pouca idade, sua voz revela uma grande sabedoria.

Ela deseja voltar aos estudos, interrompidos pelas tantas adversidades, e garante que gosta muito de estudar.

Seu outro sonho é conseguir um emprego que a permita ajudar as outras partes de seu coração que ficaram no continente africano — seus pais e filhos no Congo.

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