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Paramilitares egípcios agem contra violência a mulheres

Durante os feriados, os ataques se multiplicam

Internacional|Do R7

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Pelo menos três grupos de cidadãos patrulhavam trechos movimentados do centro do Cairo durante o último feriado
Pelo menos três grupos de cidadãos patrulhavam trechos movimentados do centro do Cairo durante o último feriado TARA TODRAS-WHITEHILL/NYT

Os jovens ativistas se demoravam nas ruas ao redor da Praça Tahrir, examinando a multidão que saíra para festejar. De repente, eles atacaram, afastando pessoas e perseguindo um rapaz. Enquanto o capturado tentava fugir, os ativistas agarraram seus ombros, o viraram e pintaram uma mensagem com tinta spray nas costas: "Eu sou um molestador".

Há tempos as ruas do Egito são um lugar perigoso para mulheres, que costumam serem incomodadas com perguntas, agarradas, ameaçadas e estupradas quando a polícia não está vendo. Agora, durante a tumultuada transição de um governo autoritário, mais e mais grupos estão surgindo para fazer da proteção às mulheres — e envergonhar a polícia inerte — uma causa.


"Agora eles estão fazendo o impossível?", um jovem policial brincou enquanto observava os paramilitares perseguirem o moço. Rapidamente, o policial voltou a bebericar seu chá.

Os ataques às mulheres, problema que o Egito enfrenta há muito tempo, não diminuíram após o levante. Na verdade, se tornaram mais visíveis, pois até militares foram implicados nas agressões, desnudando manifestantes mulheres, ameaçando outras com violência e submetendo ativistas a testes de virgindade. Durante os feriados, quando os cairotas tomam as ruas para passear e socializar, os ataques se multiplicam.


Porém, durante o recente feriado de Eid al-Adha, o Festival do Sacrifício, alguns homens ficaram surpresos ao descobrir que não tinham mais o poder de molestar com impunidade, uma modificação levado a cabo não apenas pelas preocupações ligadas aos direitos femininos, mas, também, pela frustração com o fato de o governo pós-revolucionário, a exemplo do anterior, ainda fazer pouco para proteger os cidadãos.

Pelo menos três grupos de cidadãos patrulhavam trechos movimentados do centro do Cairo durante o último feriado. Os membros dos grupos, compostos por homens e mulheres, dividiam a convicção de que as autoridades não agiriam contra o molestamento enquanto o problema não fosse levado ao debate público. Suas táticas eram diferentes, com parte dos ativistas criticando outros por recorrem com muita facilidade à violência contra os suspeitos e por encorajar essa espécie de atividade paramilitar. Um dos líderes de grupo comparou os ativistas à ONG Guardian Angels, formada por patrulheiros desarmados, nos Estados Unidos.


"O molestador acha que não será responsabilizado por ninguém", disse Omar Talaat, 16 anos, integrante de uma dessas patrulhas. O governo do presidente Hosni Mubarak foi marcado pela apatia oficial, conivência nas agressões às mulheres ou respostas vazias aos ataques, incluindo batidas policiais para pegar adolescentes em lan houses por olharem pornografia.

"A polícia não levava o assédio a sério", disse Madiha el-Safty, professora de sociologia da Universidade Americana, no Cairo. "As pessoas não prestavam queixa. A maioria dos casos não era relatada." A esposa de Mubarak, Suzanne, que se apresentava como defensora dos direitos das mulheres, fingia que o problema praticamente não existia. Quando os casos de assédio cresceram em 2008, ela afirmou que os "homens egípcios sempre respeitaram as mulheres egípcias".


O novo presidente do Egito, Mohammed Morsi, já está no comando há dois feriados e muitos ativistas dizem inexistirem sinais de que o governo esteja prestando atenção ao problema. Porém, o trabalho dos grupos de cidadãos pode ter produzido um efeito. Depois do recente feriado de Eid al-Adha, o porta-voz de Morsi anunciou que o governo recebeu mais de mil relatos de assédio, afirmando que o presidente determinara a investigação dos casos pelo Ministério do Interior.

Segundo o porta-voz, o presidente teria dito que "a revolução egípcia não pode tolerar esses atos violentos".

Ao longo do feriado, os grupos ocuparam diferentes áreas do centro do Cairo. Um evitava qualquer tipo de violência, formando correntes humanas entre as mulheres e seus agressores. O outro grupo confrontava vigorosamente homens e garotos suspeitos de assédio, agrupando-se de forma violenta ao redor dos suspeitos antes de levá-los a uma delegacia de polícia.

Uma das fundadoras desse grupo, Sherine Badr el-Din, 30 anos, começou o trabalho como ativista contra o assédio pedindo para os homens deixarem os vagões exclusivos para mulheres no metrô do Cairo, visto como uma zona segura. Quando eles se recusavam, ela os filmava e publicava seus retratos na internet.

No verão passado, um dos homens a atacou. "Eu queria prestar queixa, mas o policial se recusou, alegando só estar ali para monitorar o horário dos trens." De acordo com ela, o grupo aumentou as táticas por frustração, depois que a polícia passou a soltar suspeitos pegos pelo grupo.

"A violência não é o nosso método", ela declarou. "Porém, a pressão era tremenda." Na semana passada, enquanto o grupo se reunia nas proximidades da Praça Tahrir, um membro parecia ter uma arma de choque e outro agitava uma lata de tinta spray. A maioria dos participantes era de homens e alguns trajavam roupas num tom verde fluorescente, com as palavras "combatendo o assédio" escritas nas costas.

Eles ponderam sobre os motivos para a frequência dos ataques a suas irmãs, mães e amigas, sem encontrar resposta na culpa comumente atribuída à pobreza ou religião, indiferença da sociedade ou o chauvinismo contagioso do Estado.

Os integrantes pareciam ter mais certeza da solução, enquanto mergulhavam nas multidões do feriado depois de várias noites. Alguns observadores davam apoio, vendo as patrulhas como uma curiosidade bem-vinda.

Contudo, quando a violência estourou, o apoio foi reduzido.

"Vou denunciar você ao governo", um homem gritou quando os ativistas lutavam com um suspeito.

Às vezes, a patrulha agia depois de ver uma mulher ser apalpada. Outras vezes, justificava os ataques como preventivos.

No fim do feriado, um dos líderes do grupo, Muhammad Taimoor, 22 anos, foi preso depois de brigar com um suspeito no metrô. Mesmo assim, ele qualificou o fim de semana como um sucesso. "Nós pegamos alguns molestadores, os pintamos com spray e publicamos suas fotos em todo lugar", afirmou Taimoor. "O Ministério do Interior não colaborou conosco. Eles não protegiam as mulheres nas ruas."

Enquanto Taimoor e seus colegas patrulhavam, outro grupo, chamado Estampa, estava numa praça próxima. Nihal Saad Zaghloul, ativista de 27 anos do grupo, declarou que seu grupo deteve mais de 30 homens que tentavam molestar mulheres. Quando o grupo acredita que alguém está sendo molestado, os membros formam uma parede entre o agressor e a vítima, enquanto outros integrantes removem a mulher em segurança. "Não revidamos nem brigamos", disse Zaghloul. "Independentemente da desculpa dada, nós reagimos."

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