Renúncia de Morales completa 10 dias e Bolívia segue fragmentada

Em entrevista ao R7, especialista aponta perspectivas para crise política no país e comenta futuro de ex-presidente. Veja retrospectiva 

Evo Morales renunciou à presidência da Bolívia em 10 de novembro

Evo Morales renunciou à presidência da Bolívia em 10 de novembro

José Méndez/EFE - 17.11.2019

Dez dias após a renúncia de Evo Morales como presidente da Bolívia, o país continua “extremamente fragmentado”, conforme explica ao R7 o professor José Maria de Souza, doutor em Ciência Política e especialista em América Latina das Faculdades Integradas Rio Branco, de São Paulo.

“A situação na Bolívia se deteriorou muito rápido. Há apoiadores de Morales bloqueando as rodovias de acesso para La Paz e isso já provoca uma escassez de alimentos, produtos e combustíveis na região da capital. Quando as circunstâncias são essas, há chances de convulsão social”, aponta.

Articulação política

Para o especialista, qualquer perspectiva de apaziguamento passa necessariamente por uma articulação mais ampla, liderada pela presidência interina, dos diferentes setores da política e da sociedade: “Mas essa articulação deve ser feita sem caráter violento — e não com um decreto eximindo os integrantes das Forças Armadas de responsabilidade em caso de excessos cometidos contra a população”.

Souza lembra que Jeanine Añez se autodeclarou presidente, mas não conta com uma maioria na Casa legislativa da Bolívia. “Ainda que ela tenha o apoio das Forças Armadas, ela precisa tentar fazer um acordo político em um Congresso cuja maioria é ainda de apoiadores de Evo e, além disso, anunciar as eleições”, aponta.

Evo continua influente

Independentemente das medidas que serão anunciadas pela presidente em exercício nos próximos dias, as manifestações nas ruas comprovam que Evo Morales, em asilo no México, continua bastante influente em seu país.

“Ele não conseguiu preparar um sucessor, mas tem ainda uma gama de apoiadores ativos e importantes e deve usar seu capital político para alguma manobra: concorrendo novamente — mas acredito que haja certo desgaste nesse sentido — ou se articulando com outros correligionários”, finaliza o professor.

Confira, a seguir, uma retrospectiva dos dez dias desde a renúncia de Evo Morales.

Indícios de fraude e renúncia

O domingo de 10 de novembro começou tenso para Evo Morales: após semanas de protestos contra e a favor de seu governo, uma auditoria eleitoral feita pela OEA (Organização dos Estados Americanos) apontou indícios de fraude na eleição que garantiria ao então presidente seu quarto mandato consecutivo.

Evo renunciou após pressão das Forças Armadas

Evo renunciou após pressão das Forças Armadas

TV do Governo da Bolívia via REUTERS/11.11.2019

De imediato, ele foi à TV para anunciar que aceitava o resultado da auditoria e convocaria um novo pleito. Os ânimos no país, entretanto, não se arrefeceram: diante da pressão das Forças Armadas, Evo acabou por renunciar ao cargo de presidente naquela noite, pedindo para que seus opositores parassem com a violência contra seus apoiadores.

Além de Morales, deixaram suas funções o vice-presidente, Álvaro Garcia; a presidente do Senado, Adriana Salvatierra; o vice-presidente do Senado, Rubén Medinacelli; e o presidente da Câmara dos Deputados, Víctor Borda — renúncia coletiva que criou um vácuo de poder jamais previsto na Constituição.

Seguro em Cochabamba

Na segunda-feira seguinte (11), Evo Morales divulgou uma foto em suas redes informando que estava refugiado na região de Cochabamba, no centro da Bolívia, onde afirmou ter recebido "segurança e cuidado" de seus apoiadores. Morales declarou também ter pedido asilo político ao governo do México — solicitação formalmente aceita pelo chanceler mexicano, Marcelo Ebrard.

Asilo no México e presidência interina

Já na madrugada de terça-feira (12), o ex-presidente partiu rumo ao México em meio a negociações com vários países da América do Sul - Brasil, Paraguai, Peru e Equador - para que a aeronave mexicana que o transportava pudesse sobrevoar os diversos territórios. Morales desembarcou na Cidade do México pouco depois das 11h do horário local (14h do horário de Brasília).

Jeanine Añez se autodeclarou presidente

Jeanine Añez se autodeclarou presidente

Rodrigo Sura / EFE - 13.11.2019

Enquanto isso, na Bolívia, o ministro da Defesa Javier Eduardo Zavaleta López também renunciou ao cargo, afirmando que nunca havia ordenado que seus “soldados e marinheiros manejassem uma arma contra seu povo”.

A senadora de oposição Jeanine Añez, por sua vez, assumiu a presidência interina do país. Em discurso para um Parlamento sem quórum e apenas com opositores de Evo, ela anunciou que convocaria novas eleições presidenciais, sem especificar uma data.

‘Golpe nefasto’

Em 13 de novembro, os confrontos entre opositores e apoiadores de Evo Morales continuavam nas ruas da Bolívia. Como resultado da forte repressão policial, as entidades da sociedade civil já confirmavam sete mortos em decorrência dos protestos. Congressistas do MAS (Movimento ao Socialismo), partido de Evo, foram até impedidos pela polícia de entrar na Assembleia Nacional.

Em entrevista concedida no asilo, o ex-presidente denunciou que seu país presenciou "o golpe mais ardiloso e nefasto da história" e declarou que a OEA — que apontou fraude nas eleições — age “a serviço do império norte-americano”.

Nomeação de ministros e presidência da Câmara

A quinta-feira de 14 de novembro foi o dia em que a presidente em exercício Jeanine Áñez nomeou um gabinete de emergência com apenas 12 ministros de 20 possíveis — alguns de seu próprio partido, Unidade Democrata, que faz oposição à maioria representada pelo MAS.

Pouco depois, o MAS elegeu Sergio Choque como o novo presidente da Câmara dos Deputados em sessão que não teve a presença de representantes do bloco que se opunha ao ex-presidente.

Debate acalorado

O 15 de novembro foi marcado pelo tom severo de Evo Morales e da presidente interina, Jeanine Añez, em declarações feitas à imprensa.

Protestos se intensificaram nas ruas da Bolívia

Protestos se intensificaram nas ruas da Bolívia

David Mercado / Reuters - 18.11.2019

Em entrevista, Morales reiterou que sofreu um golpe de Estado e revelou estar analisando um retorno ao seu país ou uma viagem para a Argentina. Do outro lado, Jeanine apontou que o ex-presidente fugiu da Bolívia “de maneira covarde” e “não respeita seu status de asilo” no México ao fazer política abertamente.

Na medida em que os confrontos nas ruas se intensificavam, o governo autodeclarado anunciou um decreto para eximir de responsabilidade penal os militares e policiais que cometam excessos durante as manifestações, sob a alegação de legítima defesa — iniciativa que, depois, foi condenada pela CIDH (Comissão Interamericana de Direitos Humanos), ligada à OEA.

Violência sem controle

No dia 16 de novembro, já haviam sido registrados oito mortos e mais de 130 feridos em decorrência dos protestos na Bolívia. A ONU (Organização das Nações Unidas) alertou que a violência no país poderia "sair do controle" após uma noite de conflitos entre forças de segurança e produtores de coca leais ao ex-presidente Morales.

Temor de guerra civil

O domingo (17) que marcou uma semana após a renúncia de Evo foi tumultuado por longas filas nas ruas de La Paz, com a população em busca de frango, ovos e combustível. As rodovias de acesso à capital permaneciam bloqueadas por apoiadores do ex-presidente — que, em entrevista, disse temer uma guerra civil em seu país.

A CIDH, por sua vez, atualizou o número de vítimas dos confrontos: segundo a entidade, foram contabilizados pelo menos 23 mortos e 715 pessoas feridas desde o início da crise política.

Viagem cancelada

Na segunda-feira (18) a presidente interina Jeanine Áñez cancelou uma viagem que faria dentro do país por temer um atentado, segundo informações do governo em exercício. O gabinete de Jeanine, entretanto, não deu detalhes sobre o episódio, ainda à espera do desenrolar das operações contra um suposto grupo criminoso.

Diante da falta de alimentos e combustível registrada em vários pontos de La Paz, autoridades bolivianas também anunciaram um plano de emergência que inclui a importação de gasolina do Peru e do Chile e a distribuição de frango a preços subsidiados.

Tanques militares

Já na terça-feira (18), com os protestos ainda tomando as ruas da capital boliviana, Evo Morales denunciou, em seu Twitter, a presença de tanques militares nos arredores da Praça Murillo: "O governo golpista de Mesa, Camacho e Áñez tem um plano para fechar a Assembleia Legislativa", afirmou. 

Evo denunciou a presença de tanques militares em La Paz

Evo denunciou a presença de tanques militares em La Paz

REUTERS/Manuel Claure/19.11.2019