Rompimento entre premiê e magnata se transforma em "guerra total" na Hungria
Internacional|Do R7
Marcelo Nagy. Budapeste, 11 fev (EFE).- Uma disputa pelo poder rompeu 25 anos de aliança e amizade entre as duas pessoas mais poderosas da Hungria, o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, e o magnata Lajos Simicska, trazendo à tona vínculos escusos entre política e economia no país. Simicska, proprietário de jornais e emissoras de rádio e televisão, acaba de declarar uma "guerra midiática global" contra o primeiro-ministro, seu antigo parceiro e amigo. O "casus belli" se deu na semana passada, diante do aumento do imposto sobre publicidade nos veículos de comunicação. As propriedades de Simicska também receberam taxação, apesar de inicialmente terem sido isentadas, pelo fato de o volume de seus negócios ter ficado abaixo do mínimo. Ao instituir o imposto a um número maior de meios de comunicação e reduzir a quantidade (do máximo inicial de 50%), Budapeste beneficiou principalmente à filial húngara do canal alemão "RTL". Especialistas identificam dois objetivos com esta medida: apaziguar a emissora alemã, que havia feito duras críticas a Orbán, e causar um prejuízo financeiro a Simicska. O anúncio do governo tirou Simicska do sério, que chegou a chamar Orbán de "idiota" em declarações ao portal de notícias "hir24", e prometeu fazer uma limpeza, retirando todos os "orbanistas" de seus meios. "Por motivos de consciência", diretores de uma rede de televisão, de uma rádio e de um jornal, liderados pelo empresário, anunciaram seus pedidos de demissão, por não estarem dispostos a criticar o governo de Orbán. Em um ataque de ira, Simicska disse que nesta guerra contra Orbán, um dos dois irá cair, insinuando que sua vida esteja em perigo. A implantação do imposto foi apenas a gota d'água que pôs fim à amizade, que vinha sendo comprometida há quase um ano, quando Orbán começou a ir contra os interesses de Simicska, ao compreender que seu poder econômico chegou ao ponto de ser uma ameaça. Orbán e Simicska eram amigos desde antes da transição política, juntos militaram contra a ditadura comunista e colaboraram para o nascimento e crescimento do Fidesz, Aliança dos Jovens Democratas - atualmente presidida por Orbán-, que constitui maioria absoluta no parlamento de Budapeste desde 2012. Simicska proveu fundos ao partido, com seus negócios nos anos sombrios das privatizações das estatais e, em 1998, quando Orbán chegou ao poder pela primeira vez, colocou seu amigo como chefe do Escritório Nacional de Impostos. Sob a administração de Orbán, as empresas de Simicska se beneficiaram das licitações para obras de infraestrutura, financiadas pela União Europeia, tornando o empresário um dos homens mais ricos do país, apesar de não existirem registros confiáveis de sua fortuna. A relação entre o político e o empresário começou a definhar após a reeleição de Orbán, em 2014, quando o pessoal de Simicska perdeu cargos nos ministérios e suas empresas deixaram de ganhar concursos públicos. A imprensa local recorda que o empresário criticou com "raiva" a progressiva aproximação de Orbán com Moscou, que foi consolidada em acordos, como a construção de dois reatores nucleares, com um empréstimo russo de 10 bilhões de euros - projeto que as companhias de Simicska ficaram de fora. Simicska justificou sua antipatia dizendo que em sua juventude a União Soviética ainda estava muito presente na Hungria e que a Rússia lhe traz "lembranças ruins". Em 27 de fevereiro, o presidente russo, Vladimir Putin, se encontrará com Orbán, em Budapeste. O primeiro-ministro foi um dos poucos líderes europeus que criticou as sanções de Bruxelas contra Moscou pelo conflito com a Ucrânia. O diretor do Political Capital Institute, Peter Krekó, acredita que este conflito se transformará em uma "guerra relâmpago", na qual Orbán ganhará de Simicska. "Orbán tem uma estratégia, enquanto Simicska é muito menos prudente", opinou o diretor à Agência Efe. Mesmo Simicska sabendo tudo sobre o Fidesz, pois foi um dos homens de confiança de Orbán por quase três décadas, caso exponha as práticas ilícitas do partido, tais revelações trariam consequências negativas para ambas as partes, acrescentou Krekó. Por outro lado, o governo de Orbán está se arriscando a perder o apoio de três importantes veículos de comunicação, que até o momento apoiavam suas políticas. "Orbán também tem algo a perder", afirmou Krekó, ressaltando que poucos cidadãos confiam nos meios de comunicação que dão "apoio veemente" ao primeiro-ministro. EFE mn/lvp/rsd











