Shopping fecha portas e "rolezinho" vira manifestação pacífica no Rio
Internacional|Do R7
Táia Rocha. Rio de Janeiro, 19 jan (EFE).- De forma pacífica e com humor, um grupo de 300 a 400 pessoas, de acordo com um policial militar no local, se reuniu em frente ao Shopping Leblon, na Zona Sul do Rio de Janeiro, e protestou contra o fechamento do prédio na tarde deste domingo, quando faria um "rolezinho". Marcado em uma página do Facebook como "Rolezinho no Shopping Leblon", que teve mais de 9 mil apoiadores confirmados, o evento planejava ser de "apoio à galera de São Paulo, contra toda forma de opressão e discriminação aos pobres e negros", de acordo com a descrição do grupo "Porque eu Quis", idealizador do ato. Fechado com tapumes, o Shopping Leblon exibia cartazes, em português e inglês, que diziam que o objetivo da medida visava a "garantir a segurança e o bem estar de clientes, lojistas e colaboradores". Mais cedo, em nota à imprensa, a assessoria do shopping havia divulgado nota mais direta: "Tendo tomado conhecimento da mobilização de evento para milhares de pessoas marcado para este domingo, (...) o Shopping Leblon decidiu suspender suas atividades neste dia". O evento, que até as 19h20, quando a equipe da Agência Efe esteve presente, foi pacífico, teve cenas divertidas e inusitadas. Já de início, o já famoso "Batman" das manifestações cariocas - na realidade Eron Moraes, um protético de Marechal Hermes, na Zona Norte - chegou atraindo a atenção de curiosos e jornalistas, ao lado de um "Coringa". Cercado por câmeras e máquinas, o "Batman" rasgou um cartaz com os dizeres "Bem-vindos, somos todos iguais" e explicou: "Nossa luta não é contra os moradores do Leblon - bairro de elite do Rio - mas contra o Estado, que continua não dando as mesmas condições para as pessoas". E, batendo nos tapumes, repetia: "Essa barreira é símbolo do preconceito". A poucas quadras da praia, na avenida Afrânio de Melo Franco, um dos endereços mais caros da cidade, a Guarda Municipal (15 guardas segundo um subinspetor no local) e a Polícia Militar (cerca de 200 agentes, de acordo com um PM presente) acompanhavam a manifestação à distância com efetivos reforçados. Entre os poucos manifestantes negros desde o início presentes no ato estava o professor de pré-vestibular comunitário Alexandre do Nascimento, de 45 anos. À Efe, Alexandre defendeu as ações no shopping: "Os 'rolezinhos' revelaram o quanto as elites brasileiras são racistas, revelaram um medo injustificável. É o medo racista que fez o shopping fechar", criticou. A cada hora, no entanto, a presença de negros e negras aumentava no ato. Uma delas, que se identificou como Tristan Aline, de 23 anos, estudante de Ciências Sociais na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), comparou o evento carioca ao original de sua cidade, São Paulo. "É diferente. Lá o movimento surgiu entre jovens da periferia que não tinham muitas opções de lazer. Começou na rua, mas a Polícia do (prefeito Fernando) Haddad reprimia e eles passaram a fazer no shopping. Aqui é de classe média, em apoio o de lá, é mais político", analisou. Questionada se o fato de ser feito por uma classe diferente da que criou o movimento desvalorizaria o ato, Aline negou: "Não, é bem-vindo, claro. Aliás, justamente por não sofrer preconceito e estar na mira de um fuzil, a classe média tem a obrigação de vir apoiar". Entre as performances que atraíam olhares e lentes, um grupo passou a tocar funk de protesto carioca e, em uma pequena churrasqueira, improvisou um churrasco. "É churrasco porque é 'perifa'... churrasco, funk... é a periferia dominando", brincou o "DJ" da festa, um jovem ruivo de olhos claros, que não quis se identificar e trabalha "na mídia". Ao lado, um grupo de jovens dançava alguns "passinhos" de funk, enquanto outros levavam linguiças assadas na hora para a fila que se formava na entrada do Teatro Casa Grande gritando: "Ei, burguês, a culpa é de vocês!". Presente no local, o advogado Mário Miranda Neto, do grupo independente Habeas Corpus, que obteve o salvo-conduto permitindo a manifestação, esclareceu: "Não somos advogados do movimento ("Porque eu Quis"), estamos aqui para garantir o direito de ir e vir das pessoas". Em um breve momento de tensão, por volta das 19h, a multidão gritou várias vezes "Fora P2!" (como são chamados os policiais à paisana infiltrados em manifestações) e três homens usando a mesma cor de camisa correram para o prédio de uma rede de televisão em frente ao shopping, que abriu as portas para o trio, que saiu logo em seguida. Ali ao lado, o Shopping Rio Design Center, que foi cogitado na página do Facebook como possível alternativa, também manteve as portas fechadas, com cartazes praticamente idênticos aos do Shopping Leblon. EFE tr/ma (foto) (vídeo)












