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Sistema de castas agrava discriminação na Mauritânia

Internacional|Do R7

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Maarouf uld Daa. Nouakchott, 13 abr (EFE).- A Mauritânia, que lidera o ranking mundial de países escravagistas, possui ainda outro sistema de discriminação: a sociedade é dividida por um sistema de castas, que categoriza abertamente a população. Apesar de este sequer ser um tema de discussão no país do ocidente árabe, em 25 dezembro de 2014 um jovem da cidade de Nouadhibou foi condenado à morte por ter dito que a discriminação de castas permanece vigente e que era praticada pelo próprio profeta Maomé. O jovem pertencia à casta dos "emaalem" (artesãos: ferreiros e carpinteiros), que junto aos "znaga" (pastores) e os "iguiw" (músicos) formam as castas mais baixas, desprezadas pelo resto da sociedade. Este sistema perdura em pleno século XXI em sociedades desenvolvidas e que há muito tempo perderam o caráter feudal. Na mentalidade mauritana, se entende por "emaalem" todos os que trabalham o ferro ou a madeira; são artesãos, que fabricam utensílios de uso comum. Os "emaleem" são considerados "medrosos, gananciosos e portadores de mau agouro". As castas e todas as suas características são hereditárias e podem ser passadas também através do casamento. No entanto, a casta que predomina é a mais baixa. "São apenas adjetivos inventados pela sociedade, especialmente pelos "nobres", para se referir aos operários", explicou à Agência Efe o sociólogo El Hadi uld Sidiya. Por nobres, Sidiya, assim como qualquer mauritano, compreende que sejam os "hassana" (guerreiros) e os "zouaya" (eruditos) e toda a sua descendência. O sociólogo atribui aos eruditos a principal responsabilidade pela estigmatização dos artesãos, pelo fato de, por exemplo, corroborarem o valor e por considerarem islâmica a tradição que afirma que os que pertencem a esta casta não são sequer merecedores de uma zakat, a esmola muçulmana. Estas tradições foram diretamente censuradas quando Mohamed Cheikh uld M'jaitir, da cidade de Nouadhibou, fez críticas ao profeta Maomé em uma rede social por "escravização". Esta acusação rendeu uma enorme reprovação social e, mais tarde, o rapaz foi condenação à morte sem que ninguém levantasse a voz dentro do país para defendê-lo. Quanto aos músicos e cantores, eram os que em outros tempos acompanhavam aos emires - grandes guerreiros -, os que animavam nos tempos de combate e mais tarde exaltavam suas vitórias, atos de bravura e coragem nas grandes cerimônias e banquetes. A tradição diz que alguns emires exigiam o canto de um músico para que acordassem, todas as manhãs. Os músicos não tinham salário e viviam exclusivamente da generosidade de seu "amo", que estava condicionada ao seu desempenho artístico. Atualmente, sem as guerras, os músicos e seus descendentes estão condicionados à mendicância - tanto, que na linguagem mauritana, chamar alguém de "iguiw" é compará-lo a um mendigo. Por último há os "znagas", os pastores em geral, cujo ofício ainda vive e é passado de pai para filho. Não estão tão denegridos como os anteriores, mas são considerados brutos e carentes de qualquer educação. Sidiya acredita que o conceito de castas desaparecerá com o tempo e recorda que foi necessário haver uma revolução industrial na Europa, além de várias gerações para acabar com os estamentos sociais. Atualmente todos sabem à qual casta pertencem, e farão o possível para evitar um relacionamento que o arraste para uma casta inferior. O sociólogo destaca que o Estado mauritano ainda é muito jovem, conquistou sua independência em 1960 e precisa de tempo para se desvencilhar dos estigmas do racismo, do sectarismo, do tribalismo e do provincianismo. Faz somente 60 anos desde que o país se tornou independente. Até então, a Mauritânia era um vasto território habitado por tribos independentes umas das outras, onde a escravidão vigorava e os colonizadores franceses haviam restringido apenas as formas mais brutais deste sistema: os mercados públicos de escravos. Com uma população negra muito consciente, o tema da escravidão é constantemente debatido. No entanto, quando o assunto são as castas, todos olham para o lado. EFE mo-fjo/lvp/id (foto)

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