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Sob toque de recolher e forte presença militar, Baltimore exige justiça

Internacional|Do R7

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Jairo Mejía. Baltimore (EUA), 29 abr (EFE).- Baltimore despertou nesta quarta-feira, após sua primeira noite sob o toque de recolher e com a cidade tomada pelos militares da Guarda Nacional, reivindicando que os problemas sociais e a desigualdade sejam levados a sério pelas autoridades. O cruzamento da Avenida W. North e Pensilvânia mostrava hoje um ar diferente ao da segunda-feira passada, quando após o funeral de Freddie Gray, um jovem negro morto sob custódia policial, uma multidão de adolescentes enfrentou a polícia, saqueou lojas e provocou incêndios em toda essa cidade dos Estados Unidos. O epicentro dos distúrbios de Baltimore seguia contando hoje com forte presença policial, caminhonetes blindadas e a vigilância ininterrupta de helicópteros, mas o circo midiático se instalou e os moradores saíram para bisbilhotar e despertar a atenção sobre Sandtown-Winchester, um bairro pobre de maioria negra. Até o governador republicano de Maryland, Larry Hogan, pôde caminhar hoje por Sandtown-Winchester para assegurar que "isto é o dia e a noite", em comparação com os distúrbios da segunda-feira. Hogan disse que a ajuda dos líderes comunitários, a imposição do toque de recolher de 22h até 5h e o desdobramento de 2.000 membros da Guarda Nacional e mil policiais contribuiu para uma primeira noite sem grandes distúrbios. Segundo o porta-voz da polícia da cidade, Eric Kowalcyzk, 35 pessoas foram detidas por descumprir o toque de recolher, longe dos mais de 200 detidos na noite da segunda-feira. Alguns dos moradores do lugar, que não quiseram revelar sua identidade, explicaram à Agência Efe que querem tirar algo positivo dos distúrbios, especialmente lembrar que a brutalidade policial não vai ser solucionada com uma demonstração de força desnecessária. "A violência não é desculpável, mas o que aconteceu aqui serve para que o país veja que já é hora de atuar, de pôr fim à repressão policial, à exclusão, e começar a fornecer melhor educação e trabalhos", afirmou um deles, enquanto distribuía panfletos com informação sobre como obter seguro de saúde. Essa reivindicação também ressoou hoje no centro de Baltimore, onde o reverendo Donte Hickman, pastor de uma igreja que se salvou por pouco das chamas, desvinculou a violência das reivindicações "largamente desatendidas" da comunidade negra na cidade, em um ato com várias dezenas de pessoas. "Nesta cidade há muitos Freddie Gray, não necessitamos de mais polícia. Precisamos de educação, trabalhos, dignidade e justiça", assegurou Hickman, um dos líderes religiosos que pediram a sua comunidade que proteste de maneira pacífica. Sandtown-Winchester, o bairro onde Gray cresceu, é um dos mais pobres da cidade, muitas casas são inabitáveis, a porcentagem de pessoas que passou pela prisão é a maior de todo o estado de Maryland e o desemprego é endêmico. "O estopim de tudo isto foi a frustração. Durante anos se esqueceu destes bairros e de uma grande parte da população de Baltimore. A maioria pediu melhoras de maneira pacífica, mas todos estão sendo criminalizados", declarou à Efe Lisa Lucas, organizadora comunitária em Baltimore. Lucas se uniu nesta terça-feira aos moradores que decidiram pegar a vassoura e limpar as ruas diante da passividade das autoridades. Sua irmã, contou, saiu para trabalhar hoje antes que acabasse o toque de recolher imposto pela Guarda Nacional e teve que voltar por estar descumprindo as normas impostas pelo estado de emergência no qual se encontra a cidade. Enquanto isso, na zona do porto, conhecida como Inner Harbor, onde se concentram lojas que poucos em Sandtown-Winchester visitam frequentemente, a Guarda Nacional vigia com seus veículos blindados sem muito o que fazer. "Protetores da 'junk food'", brincou um dos agentes postados diante das lojas de luxo e dos restaurantes de fast-food da área turística de Baltimore, que, junto com a delegacia de polícia, é onde se concentram os militares. Por enquanto, a cidade prende a respiração à espera que nesta sexta-feira o Departamento de Polícia apresente um relatório à procuradoria sobre a morte de Freddie Gray, que continua sem ter sido esclarecida. A procuradoria analisará as conclusões e decidirá se formula acusações, embora não haja um calendário para esse processo. Normalmente nos Estados Unidos a volta à normalidade é marcada pela retomada dos eventos esportivos da cidade. No entanto, o time local, o Baltimore Orioles venceu o Chicago White Sox hoje por 8 a 2 em casa no primeiro jogo da história de 112 anos da Major League Baseball com portões fechados. Sobre os uniformes laranjas dos Orioles se destacava uma mensagem: "Não esqueçamos de Freddie Gray". EFE jmr/rsd (foto)

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