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Solidão e desamparo explicam por que foto de cadáver de menino refugiado gera tamanha comoção

Fotógrafos analisam imagem e atribuem sentimento ao cenário e também à etnia de Aylan

Internacional|Marcella Franco, do R7

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Publicada na capa de quase todos os jornais e portais de notícias, a foto de Aylan tem potencial para se tornar a imagem do ano
Publicada na capa de quase todos os jornais e portais de notícias, a foto de Aylan tem potencial para se tornar a imagem do ano

Em meio a tantas imagens chocantes de refugiados lutando para sobreviver e morrendo ao redor do mundo, por que apenas uma delas vira motivo de comoção internacional, inflamando o debate sobre o colapso humanitário que o planeta enfrenta atualmente?

Debruçado na areia de uma praia, com o rosto escondido e as mãos para trás, o pequeno Aylan morreu afogado, ainda vestindo as roupas que seus pais escolheram para o dia em que tentariam a sorte no mar. O naufrágio matou, além do menino de três anos, seu irmão mais velho e sua mãe, na última quarta-feira (2).


Publicada na capa de quase todos os jornais e portais de notícias, e compartilhada à exaustão em redes sociais, a foto de Aylan tem potencial para se tornar a imagem do ano, justamente pelo grau de emoção que as pessoas enxergam nela.

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A ausência de elementos indicativos de uma cena de guerra é, na opinião da fotógrafa independente Adriana Zehbrasukas, um dos fatores que influenciam os espectadores a ficarem tão tocados pela imagem.


— Em zonas de conflito, imagens como esta são mais comuns, e as pessoas já estão meio preparadas para o que vão ver. Neste caso, é bem diferente.

Adriana chama a atenção também para a posição incomum do menino, transmitindo solidão e desamparo.


Heni Ozi Cukier, cientista político e especialista em resolução de conflitos internacionais, acredita que as pessoas tenham dificuldades para lidar com a realidade, e que, com fotografias assim, sofrem um forte abalo.

— Embora não se possa ver o rosto da criança, aquela foto é chocante, com apelo visual emocional muito pesado. Ela retrata uma crise da sua forma mais agressiva, mas mais simples também. Coloca a realidade sem filtro, preto no branco.

Fotógrafo e documentarista, João Wainer enxerga outro aspecto de mobilização universal na imagem de Aylan.

— É uma criança branca. Quando as pessoas veem uma criança branca vestida com roupinha bonitinha, elas têm um peso diferente, uma empatia que não têm quando veem uma criança com características físicas diferentes das de um europeu branco de olhos azuis. Aquele menino poderia ser filho de qualquer um, de um americano, de um europeu. Isso tem um peso.

Wainer acredita que a questão racial é tão relevante no estímulo de comoção que chega ao ponto de passar por cima de elementos como, por exemplo, a classe social do menino morto.

— Por mais que ele fosse um pobre, era branco e estava em uma praia. A morte de um negro pobre e favelado tem um peso infinitamente menor, infelizmente.

Cukier, no entanto, avalia que a comoção seja temporária. Embora em outras ocasiões semelhantes, envolvendo conflitos e guerras, imagens tenham se tornado emblemáticas — como é o caso da foto da garotinha correndo nua no Vietnã —, elas podem acabar, com o tempo, caindo no esquecimento.

— Naquela época, a velocidade das coisas eram outras. Aquela foto marcou o inconsciente por mais tempo. Esta vai ser esquecida porque outras vão surgir. Várias outras foram esquecidas, e ninguém conseguiu resolver o problema que elas retrataram.

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