Venezuelanos usam as mãos e tochas na busca por milhares de desaparecidos em terremoto
Com a chegada de equipes de resgate estrangeiras, cidadãos angustiados vasculhavam prédios destruídos
Internacional|Do R7, com Reuters
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Equipes de resgate trabalharam durante toda a noite de quinta-feira (25) para esta sexta-feira (26) para salvar centenas de venezuelanos presos sob os escombros e localizar outros milhares de desaparecidos, depois que dois dos maiores terremotos da história moderna da América Latina devastaram áreas na capital Caracas e arredores.
O governo informou que 235 mortos foram levados a centros médicos, mas não forneceu uma estimativa total do número de vítimas dos tremores de magnitude 7,2 e 7,5 que ocorreram cerca de 160 quilômetros a oeste de Caracas na quarta-feira (24).
Um site criado para rastrear pessoas desaparecidas e divulgado por líderes da oposição do país politicamente polarizado listou mais de 49.600 pessoas como desaparecidas, enquanto o Serviço Geológico dos Estados Unidos previu mais de 10 mil mortes.
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O Ministério das Relações Exteriores da Espanha informou que três de seus cidadãos morreram, quatro ficaram presos sob os escombros e outros 99 continuavam desaparecidos.
Famílias buscam desaparecidos
Com a chegada de equipes de resgate estrangeiras, bombeiros, soldados e cidadãos angustiados vasculhavam prédios destruídos, alguns usando as próprias mãos e tochas em locais onde faltava energia elétrica.
“Ele está sob as lajes e não há maquinário para resgatá-lo”, disse Yamileth Jimenez sobre seu filho de 19 anos, preso nos escombros do prédio de apartamentos de sete andares onde moravam, na cidade de La Guaira, no litoral nos arredores de Caracas.
Milhares estão desabrigados em um país já enfraquecido por décadas de turbulência econômica e política que empobreceu a população, provocou um êxodo de milhões de pessoas e deteriorou a infraestrutura e os serviços básicos.
Muitos vivem em favelas precárias nas encostas, chamadas de “barrios”.
“Meu prédio está inabitável e agora não tenho mais nada. Somos só eu e meu filho, e não tenho família no país”, declarou Suhayl Sarquiz, de 50 anos, que perdeu o emprego há alguns meses.
“É uma tragédia”, disse Beatriz Rodríguez, de 60 anos, cujo sobrinho teve as pernas amputadas depois de ser esmagado pelos terremotos. Outro sobrinho morreu.
Dormindo nas ruas
O governo confirmou 250 prédios danificados ou destruídos. Pelo menos oito hospitais, a Cruz Vermelha Venezuelana e a embaixada da França estavam entre os prédios que, segundo relatos, ficaram gravemente danificados.
Quase 7 milhões de pessoas podem ter sido afetadas, informou o órgão de migração da ONU, que estava fornecendo abrigo de emergência e outros suprimentos de socorro.
La Guaira, o Estado litorâneo vizinho a Caracas e onde fica o principal aeroporto do país, estava entre as áreas mais atingidas.
A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, pediu que empresas disponibilizem equipamentos para as operações de busca na região, que foi classificada como “zona de desastre”. Um fluxo de voluntários seguiu pela rodovia Caracas-La Guaira levando água, alimentos e medicamentos.
“Perdemos tudo”, disse Pedro Pérez, 64, dono de uma oficina de estofamento, que contou ter perdido tanto sua casa quanto seu negócio e está dormindo na rua com a esposa e os filhos. “Esperamos que a ajuda chegue logo.”
Outros moradores de La Guaira procuravam comida e água. A Reuters testemunhou saques em duas lojas da cidade.
Famílias estavam em casa no momento do terremoto
Muitos venezuelanos estavam em casa quando os terremotos atingiram a região durante um feriado. Moradores fugiram de prédios que tremiam e correram para as ruas enquanto estruturas desabavam em Caracas e nas áreas costeiras próximas.
“Quando descemos as escadas, a cena era como um filme de terror”, disse Maria Alejandra, moradora de Caracas, que não revelou seu sobrenome.
“Tivemos que escalar os escombros e tudo mais. O zelador do prédio com o bebê e todos os vizinhos descendo. Mas daquele prédio, eu só vi uma família sair.”
Casas desabaram perto do epicentro do terremoto em Morón, uma pequena cidade litorânea no Estado de Carabobo, onde não havia água nem eletricidade. Três crianças estavam entre os pelo menos oito mortos na região, disse a prefeita municipal Emily Riera à Reuters.
O terremoto de magnitude 7,5 foi o mais forte da Venezuela desde 1900. O país fica na fronteira entre as placas tectônicas do Caribe e da América do Sul e sofreu terremotos devastadores, incluindo um que matou cerca de 30.000 pessoas em 1812.
Solidariedade internacional
Líderes de todo o espectro político expressaram solidariedade à Venezuela, uma mudança notável em relação à polarização internacional que cercou o país nos últimos anos.
Rodríguez disse que equipes de resgate internacionais devem chegar em breve e agradeceu aos líderes, incluindo o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o presidente russo, Vladimir Putin.
Grupos de expatriados representando a diáspora venezuelana, que chega a milhões de pessoas após anos de migração em massa, começaram a organizar campanhas de arrecadação de ajuda no exterior, enquanto familiares se esforçavam para entrar em contato com seus parentes no país.
Rodríguez apelou à união na Venezuela, onde protestos antigovernamentais motivados por uma inflação anual superior a 500% tornaram-se mais frequentes desde que Trump ordenou a captura do presidente Nicolás Maduro em uma violenta operação policial em janeiro.
Trump disse que os EUA estão “prontos, dispostos e aptos a ajudar” e que os EUA “estariam presentes para nossos novos e grandes amigos”.
Enquanto isso, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, afirmou que equipes de resgate estavam sendo mobilizadas e que o Pentágono deve enviar recursos para o aeroporto de Caracas, gravemente danificado.
A missão de direitos humanos da ONU na Venezuela instou o governo a suspender restrições sobre algumas redes sociais, argumentando ser uma “questão de vida ou morte”. O acesso foi disponibilizado em algumas áreas do país onde os serviços de telefonia celular são instáveis.
No Hospital de Clínicas de Caracas, a equipe dobrou o número de funcionários no turno da noite para tratar os feridos, disse um trabalhador.
As aulas escolares foram canceladas pelo resto da semana. A bolsa de valores da cidade foi fechada e será utilizada para resgate e esforços.
A Cruz Vermelha venezuelana informou que sua sede sofreu danos críticos, mas enviou equipes de resgate para as áreas mais afetadas. A embaixada francesa também foi gravemente atingida.
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