Entenda os riscos da lipoenxertia após morte de jovem em clínica de Belo Horizonte
Especialista reforça importância de verificar a formação e o credenciamento do profissional antes de procedimento
Minas Gerais|Maria Luiza Reis, do R7 e Camila Cambraia, da RECORD Minas
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A morte de Bárbara Laura Souza Félix, de 27 anos, após passar por uma lipoenxertia em uma clínica da região Centro-Sul de Belo Horizonte, levanta dúvidas sobre os riscos desse tipo de procedimento estético e ajuda a explicar por que, apesar de ser cada vez mais comum, ele ainda exige cuidados rigorosos antes, durante e depois da cirurgia.
O caso, investigado pela Polícia Civil e acompanhado pelo Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais (CRM-MG), acontece em um cenário em que o Brasil ocupa posição de destaque mundial no setor de cirurgias plásticas. O país realiza cerca de 2,3 milhões de procedimentos estéticos por ano, segundo dados do setor, e lidera rankings internacionais de cirurgias como lipoaspiração e enxerto de gordura.
Para entender os riscos envolvidos nesse tipo de procedimento e os critérios de segurança recomendados, a reportagem conversou com a cirurgiã plástica Raquel Virgínia, secretária da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica Regional Minas Gerais (SBCP-MG), que atua na área há 25 anos.
Alto volume de cirurgias aumenta visibilidade de casos graves
Segundo a especialista, o grande número de procedimentos realizados no país faz com que casos de complicações graves tenham forte repercussão pública.
“O Brasil é um país que realmente tem um volume muito elevado de cirurgias plásticas, principalmente estéticas. Quando acontece um caso com essa repercussão, o holofote acaba sendo muito grande”, afirma.
Ela ressalta, porém, que toda cirurgia envolve riscos, inclusive quando realizada dentro dos protocolos médicos recomendados. “Qualquer procedimento cirúrgico pode apresentar intercorrências. Isso não é exclusivo da cirurgia plástica”, explica.
O que é embolia gordurosa?
A principal hipótese levantada no caso de Bárbara é a de embolia gordurosa, uma complicação rara, mas grave, que pode ocorrer em procedimentos que manipulam gordura corporal, como lipoaspiração e lipoenxertia.
Nesses casos, pequenas partículas de gordura podem atingir a corrente sanguínea e comprometer órgãos vitais, principalmente os pulmões.
“Ela é mais comum justamente em procedimentos em que há manipulação da gordura. É um evento raro, mas com mortalidade muito alta. E, infelizmente, não é algo totalmente previsível”, explica Raquel Virgínia.
Segundo a médica, esse tipo de risco costuma constar nos termos de consentimento assinados pelos pacientes antes da cirurgia.
Investigação envolve histórico da clínica
O caso ganhou ainda mais repercussão após surgirem informações de que a clínica e o médico responsável já teriam sido citados em outras ocorrências envolvendo complicações graves em anos anteriores.
Enquanto as investigações avançam, especialistas reforçam a importância de verificar a formação e o credenciamento do profissional responsável antes de qualquer procedimento estético.
“Nós temos no site da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica uma ferramenta em que o paciente pode pesquisar o nome do médico e verificar se ele é credenciado. Isso significa que ele cumpriu toda a formação necessária em cirurgia geral e cirurgia plástica”, orienta a secretária da SBCP-MG.
Ela também destaca que o ambiente cirúrgico deve possuir estrutura adequada para lidar com emergências médicas.
Quando o médico precisa dizer “não”
Outro ponto considerado fundamental para a segurança do paciente é a avaliação pré-operatória.
Segundo a especialista, o processo deve incluir exames, avaliação cardiológica, consulta anestésica e análise individual das condições de saúde do paciente.
“Fazer um pré-operatório bem feito e, às vezes, até contraindicar a cirurgia é extremamente importante”, afirma.
Ela explica que o desejo estético não pode se sobrepor às condições clínicas e aos riscos envolvidos.
Intercorrência médica ou negligência?
A principal dúvida agora é se a morte de Bárbara ocorreu em decorrência de uma complicação médica imprevisível ou se houve falha no atendimento.
“Às vezes a intercorrência faz parte do próprio ato cirúrgico, mesmo quando tudo foi feito corretamente”, pondera a médica.
O laudo do Instituto Médico-Legal (IML) deve ajudar a esclarecer a causa da morte e apontar se houve negligência, imprudência ou imperícia durante o procedimento ou no atendimento posterior.
Enquanto isso, o caso reforça um alerta importante: embora popularizados e cada vez mais comuns, procedimentos estéticos continuam sendo cirurgias e exigem rigor técnico, avaliação cuidadosa e estrutura adequada para garantir a segurança dos pacientes.
Confira a nota do médico responsável pelo procedimento na íntegra:
“Lamentamos profundamente o falecimento da paciente Bárbara Laura Souza Félix, ocorrido nesta terça-feira. Bárbara foi submetida à cirurgia após a realização das avaliações e dos exames pré-operatórios indicados, que apontavam condições adequadas para o procedimento, conforme os protocolos médicos vigentes.
Durante o procedimento, prestamos toda a assistência necessária. Apesar dos esforços e da adoção de todas as medidas clínicas e cirúrgicas disponíveis, lamentavelmente Bárbara não resistiu. Diante da situação, as autoridades competentes e o Instituto Médico Legal foram prontamente acionados por nossa equipe. Neste momento, aguardamos a conclusão do laudo pericial, que contribuirá para o esclarecimento dos fatos.
Os familiares acompanharam a evolução do quadro desde os primeiros momentos e foram devidamente informados ainda no ambiente hospitalar, e nossa equipe segue à disposição para quaisquer esclarecimentos necessários. Reiteramos nossa solidariedade aos familiares e amigos de Bárbara diante desta perda profundamente dolorosa."
Confira a nota do hospital na íntegra:
“O Hospital manifesta seu mais profundo pesar pelo falecimento da paciente ocorrido após procedimento cirúrgico. Neste momento de imensa dor, nossa prioridade é oferecer acolhimento, respeito e todo o suporte necessário à família. Desde o primeiro momento, o hospital tem mantido postura de transparência, disponibilizando prontamente à família apoio psicológico e as documentações solicitadas, incluindo exames préoperatórios, registros assistenciais e termos de consentimento devidamente assinados.
Todos os protocolos pré-operatórios, intraoperatórios e assistenciais foram observados com rigor pela equipe envolvida e todos os recursos necessários para atendimento da urgência estavam presentes e foram devidamente utilizados.
A avaliação preliminar da Comissão de Óbito do hospital levantou a hipótese de embolia gordurosa, uma complicação grave e descrita na literatura médica, que pode ocorrer em procedimentos que envolvem manipulação e enxertia de tecido adiposo, como a lipoescultura. Trata-se de uma condição que, embora incomum, é reconhecida como risco inerente a esse tipo de cirurgia, inclusive prevista no termo de consentimento informado assinado pela paciente.
De forma simplificada, a embolia gordurosa pode ocorrer quando pequenas partículas de gordura alcançam a circulação sanguínea e comprometem a circulação pulmonar, prejudicando a oxigenação do organismo. Em alguns casos, sua evolução pode ser súbita, grave e irreversível, mesmo diante da adoção de medidas preventivas e assistenciais adequadas. É importante ressaltar, contudo, que até o momento se trata de uma hipótese diagnóstica preliminar, ainda dependente da confirmação pelo laudo oficial do Instituto Médico Legal.
O Hospital IMO lamenta profundamente a perda de uma vida e se solidariza com os familiares e amigos da paciente. Também reforça sua confiança na seriedade, competência e compromisso ético dos profissionais envolvidos, incluindo o Dr. Pablo Meneghetti, que já loca salas de cirurgia no hospital a mais de 15 anos, é membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, é referência em estética corporal, e possui plena competência e qualificação técnica para a realização do procedimento, sendo reconhecido por seu elevado padrão técnico, zelo e dedicação aos seus pacientes.
Neste momento, o hospital entende que a dor da família deve ser tratada com máximo respeito, serenidade e responsabilidade, evitando conclusões precipitadas antes da conclusão das apurações oficiais.”
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