“Não acho que a Justiça tenha sido injusta”, diz Cabo Júlio em carta
Deputado estadual foi preso na semana passada após o TRF mandar executar a pena de quatro anos; ele conta que pensou em tirar a própria vida
Minas Gerais|Pablo Nascimento, do R7

Preso desde a última quinta-feira (7), o deputado estadual Cabo Júlio (MDB), escreveu uma carta em que ele afirma não considerar a decisão da Justiça “injusta, mas talvez, desproporcional, devido ao momento que vivemos”. O documento de duas páginas foi lido no plenário da Assembleia, nessa terça-feira (12).
Em 2015, o parlamentar foi condenado a quatro anos de prisão por envolvimento no esquema conhecido como Máfia das Sanguessugas. Segundo as investigações, houve superfaturamento na compra de ambulâncias e equipamentos hospitalares e deputados teriam feito emendas orçamentárias para favorecer empresas.
Apesar da sentença ter sido promulgada há quatro anos, apenas na semana passada o TRF 1 (Tribunal Regional Federal da 1ª Região) determinou a execução provisória da pena. A defesa recorreu e garantiu a ele o direito de sair para trabalhar, caso ele seja liberado para continuar as atividades parlamentares.
Na madrugada do último sábado (9), Cabo Júlio escreveu uma carta que foi entregue ao deputado Durval Ângelo (PT), em visita no final de semana. Na mensagem, o político fala do sofrimento da prisão e revela que pensou em se matar quando soube que seria preso, mas pensou no filho. “É desesperador. Tive vontade de me matar, mas pensei no Gugu. Lá no fundo do meu coração, eu acredito que Deus não desistiu de mim”.
O político ainda fala sobre a relação com o empresário Luiz Antônio Trevisan Vedoin , que atua no ramo de venda de ambulâncias. Cabo Júlio afirma que recebeu R$ 112 mil de doação de Vedoin, mas nega o valor tenha sido fruto de propina. "Esse empresário me doou, de junho a novembro de 2012, R$112.000,00 (cento e doze mil reais) para a campanha, depositados na minha conta-salário pessoal no Banco do Brasil. Alguém envolvido em propina recebe valor em sua conta-salário?”
A reportagem tentou contato com a defesa do político durante a manhã, mas não teve retorno. A assessoria dele apenas confirmou a veracidade da carta.
Leia a carta na íntegra:
"Carta dirigida aos deputados e deputadas da Assembleia Legislativa de Minas Gerais
Escrevo esta carta, do cárcere, na madrugada de sexta para sábado. Inicialmente, peço perdão a todos pelo constrangimento de tal momento acontecer no cargo de deputado estadual.
Quem convive comigo sabe que não sou bandido, não sou desonesto e procuro tratar todo mundo com respeito. Vivo exclusivamente para a minha família e para minha célula de oração.
Estou na ALMG desde 2012 e nunca ninguém, nesses dois mandatos, viu nada que desabonasse a minha conduta.
Exerci o mandato de vereador, quando fiz parte da mesa diretora como secretário-geral. De igual forma, ninguém nunca ouviu fato que maculasse a minha passagem pela Câmara Municipal de Belo Horizonte - CMBH.
Este é o pior momento da minha vida. Os jornais foram informados antes de mim da execução provisória da minha pena. Quando soube, me apresentei imediatamente.
É desesperador. Tive vontade de me matar, mas pensei no Gugu. Lá no fundo do meu coração, eu acredito que Deus não desistiu de mim. No meio do caos, da angústia e do desespero, eu creio que posso voltar ao primeiro amor da minha fé.
Em 1998, após liderar a greve da polícia, fui eleito como o deputado federal mais votado de Minas. Foi uma campanha quase toda feita com vendas de rifas, no valor de R$1,00.
Veio a reeleição e um empresário chamado Luiz Antônio Trevisan Vedoin - à época, dono da maior empresa de ambulâncias do Brasil - me procurou. Naquele tempo, não havia nenhuma suspeita sobre ele.
Vedoim vendia ambulâncias através de licitação para o Ministério da Saúde, para a Polícia Rodoviária Federal e até para o Ministério Público Federal. Fiz indicações de emendas parlamentares de asfalto para cidades mineiras, mas nenhuma era executada. A assessoria da Comissão de Orçamento do Congresso Nacional orientou os deputados e senadores de que as emendas da saúde tinham, em parte, execução obrigatória.
Esse empresário me doou, de junho a novembro de 2012, ano da eleição, R$112.000,00 (cento e doze mil reais) para a campanha, depositados na minha conta-salário pessoal no Banco do Brasil. Alguém envolvido em propina recebe valor em sua conta-salário?
Seu interesse em minha reeleição era continuar a ganhar licitações na área da saúde. Quatro anos depois, esse mesmo empresário foi preso e todos os parlamentares que receberam recursos de sua empresa foram processados.
Eu nunca tive, enquanto deputado federal, um único prefeito. O critério escolhido para destinar a emenda de ambulância era ter um vereador da Polícia Militar.
Foram ouvidos pela Polícia Federal prefeitos, vereadores, membros e presidentes de comissões de licitação. Nunca nenhum deles me viu, me conheceu pessoalmente ou sequer deu ou recebeu um centavo meu.
No processo principal, que tramitou em Cuiabá, fui absolvido do crime de lavagem de dinheiro e de formação de quadrilha. Fui condenado por corrupção passiva, por ter recebido em minha conta pessoal a doação de R$112.000,00 (cento e doze mil reais) durante a campanha de 2012. Neste processo, foram investigadas 20 emendas de 20 cidades e fui condenado a 4 (quatro) anos de detenção convertidos a uma pena de prestação de serviços.
O Ministério Público Federal - ainda que todas as emendas tenham sido investigadas no processo principal de Cuiabá - pinçou uma a uma e ingressou com outras ações individuais, cidade por cidade.
Fui condenado a 6 (seis) anos de detenção em regime semiaberto.
O STF decidiu que se uma pessoa for condenada em 1º grau e tiver sua sentença confirmada em 2º grau por órgão colegiado, obedecendo o duplo grau de jurisdição, deve começar a execução provisória da pena, independentemente de recurso ao STF ou STJ.
No meu caso, nunca tive sentença de 1º grau. Por prerrogativa de função, fui julgado somente em uma única instância. Ainda assim, de forma inédita, o TRF mandou executar a pena. Até a pena de prestação de serviços foi executada provisoriamente.
Enfim, estou nas mãos de Deus e da Justiça. Tudo isso me leva a uma reflexão que muitos não vão entender: pecado tem nome e tem consequências.
Não acho que a Justiça tenha sido injusta, mas talvez, desproporcional, devido ao momento que vivemos. Um dos processos está prescrito e eu estou preso. Isso é matéria de Direito e deveria ser reconhecido de ofício pelo juiz.
Por fim, obrigado a todos pela misericórdia a mim dirigida. Em especial, obrigado ao Corpo de Bombeiros pela imensa misericórdia. Está doendo muito. O desespero e a dor são muito grandes, mas vai passar.
Eu imploro para que protejam e orem pelos meus filhos e por minha esposa. Não deixe que os adversários explorarem e perseguirem a minha família. Cuidem do Gugu. Ao meu Deus, meu senhor e salvador, peço que não desista de mim.
Cabo Júlio, 09/06/2018."















