Logo R7.com
RecordPlus
‌

Ele matou a própria irmã em Praia Grande e depois desapareceu

Um esquizofrênico sem tratamento quebrou um martelo na vítima de 2 anos

Bloco de Notas com Gabriel Graciano|Gabriel GracianoOpens in new window

  • Google News

Adicione como fonte preferencial no Google

Opens in new window
Esquizofrenia e ausência de tratamento resultam em uma perda irreparável Foto/Polícia Civil

As fotos falam por si. Um barraco de madeira, uma lona azul. Ali morava uma família: quatro irmãos e uma mãe. O local é ermo. Para acessar, só pisando nos pallets espalhados. A chuva empoça e demora dias para ser absorvida.

Disse o verbo no passado: morava. Justamente porque a desgraça os atingiu.

‌

Richard é o autor; ficou sozinho com as irmãs em um breve momento de saída da mãe. Ele era frequentador do Centro de Apoio Psicológico, o CAPS do bairro Vila São Jorge, uma região carente de Praia Grande (SP).

A família sabia da condição dele. A esquizofrenia o deixava agressivo. A mãe chegou a fazer uma medida protetiva contra o filho, mas não conseguiu abandoná-lo. Mãe é mãe.

‌

Como se abandona a única riqueza que possui? A família!

Ele ficou no terreno junto com as irmãs, que brincavam com uma mangueira no momento de ausência materna.

‌

Tempos depois, uma gritaria. A vizinhança encontra a menina de 2 anos desfalecida e toda machucada, próximo a um martelo. Tentam socorrê-la, mas não há o que ser feito.

Recebi o caso no período da tarde. Fui até a delegacia responsável: a de Defesa da Mulher, em Praia Grande. Na porta, o Cruz, um amigo querido que é um rato em casos policiais, tem todos. Ele havia ido até o local junto com as autoridades.

‌

Mostrou-me a caminhada dele e como estava molhado. Pisou em várias poças d’água. Aguardava do lado de fora o depoimento da mãe da vítima e, tragicamente, também do agressor. Ela conversava com a delegada.

Assisti àquilo; minha cabeça fez inúmeros julgamentos. Culpei a mãe, desculpei. Eu não repasso opinião para um produto jornalístico, mas a cultivo; sou humano.

O homem desapareceu. Uns contam que fugiu, outros que passou pelo tribunal do crime. Encontrei recentemente a delegada, que me disse procurar por ele até hoje, mas não tem nenhum rastro.

Ele é culpado? Devemos vesti-lo nessa camisa?

Ele tinha condições de viver livremente? Deveria ter um acompanhamento? Ser internado?

Soube que as idas ao CAPS eram desreguladas e que ele deveria tomar uma medicação diária.

Quem matou essa criança de 2 anos? O Estado ou o filho doente do Estado?

Se essa família vivesse em um apartamento de frente para o mar, o acesso ao tratamento seria outro?

Nesses casos, o doente deve procurar tratamento ou a medicina deve localizá-lo?

É uma discussão profunda sobre uma realidade que só é vista por profissionais que passeiam por vários mundos diferentes que existem em nossa realidade.

A mãe remói o luto, a culpa e o desespero de não saber onde o filho doente está. Eu me pergunto sobre o risco de um esquizofrênico perigoso sem paradeiro. E repenso: perigoso porque não tomou um remédio, porque não lhe foi facilitado o acesso a um tratamento.

Falei uma palavra bem feia: a desgraça. Ela vem do latim, significa ausência de favor, graça, benevolência.

Revejo a foto, olho a casa, a condição, imagino a alimentação, o acesso à escola, o local onde se faz um dever de casa... são tantas ausências.

Quanto mais eu penso na pergunta: “Quem matou essa menina de 2 anos?”, menos eu culpo o irmão ou qualquer ente dessa família.

✅Fique por dentro das principais notícias do dia no Brasil e no mundo. Siga o canal do R7, o portal de notícias da Record, no WhatsApp

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

Siga R7 no Google e fique por dentro de tudo que acontece

Seguir no Google

Últimas

‌

Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.