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Como responder às mudanças do consumo sem descaracterizar o vinho

Evento no norte da Itália colocou em discussão uma das questões mais sensíveis do setor

Prisma|Cynthia MalacarneOpens in new window

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • O evento Garda Wine Stories, realizado no norte da Itália, discutiu o futuro do vinho em meio a mudanças no consumo e novas demandas do mercado.
  • A denominação Garda DOC, influenciada pelo Lago de Garda, busca produzir vinhos mais leves, como o Garda Garganega com teor alcoólico mínimo de 9%.
  • A jornalista Alessandra Piubello destacou os desafios e impactos dos vinhos desalcoolizados, que podem alterar a estrutura e identidade do vinho.
  • O consórcio Garda propõe uma alternativa à dealcoolização, focando em variedades de maturação lenta para manter a identidade territorial e enológica.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Lago de Garda é uma das regiões mais interessantes na produção de vinho Foto cedida pelo Consorzio Garda DOC

Em um momento em que o setor vitivinícola mundial enfrenta redução no consumo, mudanças geracionais e novos hábitos alimentares, algumas regiões começam a discutir soluções que, até poucos anos atrás, seriam consideradas impensáveis.

Uma dessas discussões aconteceu recentemente no norte da Itália, durante o Garda Wine Stories, encontro promovido pelo Consórcio Garda DOC, que reuniu produtores, jornalistas, enólogos e profissionais do vinho para refletir sobre um tema que hoje atravessa praticamente todos os mercados: qual será o próximo formato do vinho?


Para o consumidor brasileiro, Garda ainda é uma denominação relativamente desconhecida. E talvez justamente por isso seja uma região tão interessante de observar neste momento.

Localizada entre Lombardia e Vêneto, ao redor do Lago de Garda, o maior lago italiano, a DOC Garda ocupa uma posição singular dentro do cenário vitivinícola do país.


O lago exerce forte influência climática sobre os vinhedos, reduzindo extremos de temperatura e criando condições favoráveis para vinhos mais equilibrados, de perfil fresco e ampla versatilidade gastronômica.

DOC Garda ocupa uma posição singular dentro do cenário vitivinícola da Itália Foto cedida pelo Consorzio Garda DOC

Criada oficialmente em 1996, a denominação passou por um importante processo de reposicionamento em 2016 com o reconhecimento do Consórcio de Proteção e a atualização do disciplinar que introduziu oficialmente a categoria dos espumantes.


Entre as novidades apresentadas pelo presidente do consórcio, Paolo Fiorini, estão a introdução dos vinhos Garda Müller Thurgau, nas versões tranquilo, frisante e espumante, e do Garda Rebo para tintos tranquilos. Também foram criadas categorias de espumantes monovarietais, como Garda Spumante Garganega, Garda Spumante Chardonnay e Garda Spumante Corvina Rosé,

Paolo Fiorini, presidente do Consórcio Garda DOC Foto cedida pelo Consorzio Garda DOC

Mas a mudança que concentrou maior atenção foi outra: a legislação passou a permitir que o Garda Garganega tenha graduação alcoólica mínima de 9%, uma decisão que vai além de uma simples adaptação técnica e que revela uma tentativa de responder às novas exigências do mercado, preservando o vínculo entre vinho e território.


O ponto central é que Garda não está propondo retirar álcool do vinho depois de pronto. A proposta apresentada pelo consórcio segue outro caminho: trabalhar desde o vinhedo para produzir vinhos naturalmente mais leves.

E foi exatamente nesse ponto que o debate do evento ganhou profundidade, e uma das palestras mais interessantes do encontro foi conduzida pela jornalista e crítica italiana Alessandra Piubello, que apresentou um estudo baseado em entrevistas com produtores, consumidores, distribuidores e especialistas do setor sobre o avanço da categoria NoLo (No Alcohol e Low Alcohol).

A apresentação começou esclarecendo algo que frequentemente aparece de forma confusa no mercado: bebidas sem álcool possuem até 0,5% de álcool, enquanto produtos entre 0,5% e 9% entram na categoria low alcohol.

Alessandra Piubello apresentou estudo baseado em entrevistas com produtores, consumidores, distribuidores e especialistas Foto cedida pelo Consorzio Garda DOC

A partir daí, Piubello desenvolveu uma análise bastante crítica sobre os vinhos desalcoolizados. Segundo a jornalista, a remoção artificial do álcool é um processo altamente invasivo que altera profundamente a composição do vinho, provocando perda de compostos considerados importantes para sua estrutura e identidade sensorial, entre eles polifenóis.

Na visão apresentada durante o evento, o álcool não deve ser interpretado apenas como um componente alcoólico, mas como um dos elementos estruturais do vinho.

Sua remoção modifica volume, persistência e equilíbrio gustativo, exigindo posteriormente intervenções para recompor aromas, sensação de boca e percepção de sabor. Entre essas intervenções podem estar aumento de açúcar residual, uso de aromatizantes, conservantes e outros ajustes tecnológicos.

Outro ponto levantado foi que o consumidor muitas vezes associa automaticamente produtos sem álcool a produtos mais saudáveis. O estudo chamou atenção para o fato de que a redução calórica proveniente da retirada do álcool pode ser parcialmente compensada pelo aumento da fração açucarada utilizada para equilibrar o produto final.

Além disso, como o álcool exerce função conservante natural, sua remoção frequentemente exige outras estratégias de estabilização, incluindo conservantes que não trazem benefícios para a saúde.

A crítica não se limitou ao aspecto sensorial. Piubello também questionou os impactos ambientais e econômicos da dealcoolização. Segundo os argumentos apresentados, os processos utilizados, como destilação a vácuo, colunas de cones rotativos, osmose reversa e sistemas híbridos, exigem elevado consumo energético, uso significativo de água e altos investimentos em infraestrutura e manutenção.

No contexto italiano, em que até recentemente boa parte desse processamento ocorria fora do país, principalmente na Espanha e Alemanha, o debate apresentado incluiu ainda reflexões sobre pegada de carbono e coerência ambiental do modelo.

A provocação central da jornalista talvez tenha sido outra: até que ponto um produto tão intensamente transformado continua pertencendo ao universo cultural do vinho?

Ao mesmo tempo, o estudo não ignorou que existe uma tendência de mercado real. Segundo dados apresentados durante a palestra, o segmento NoLo continua crescendo internacionalmente e desperta interesse, especialmente entre consumidores jovens e em mercados como Reino Unido, Estados Unidos, Alemanha, Canadá e Austrália. Ainda assim, os números mostram que permanece uma categoria de nicho e que, na Itália, representa menos de 0,5% das vendas totais.

É justamente nesse cenário que Garda propõe uma alternativa. Ao reduzir o limite alcoólico do Garda Garganega para 9%, o consórcio procura abrir espaço para vinhos mais leves sem recorrer à dealcoolização. A lógica passa pela escolha varietal e pelo manejo agronômico.

Variedades de maturação mais lenta, como a Garganega, acumulam açúcares de forma gradual e permitem construir vinhos com menor teor alcoólico, preservando frescor, identidade territorial e coerência enológica.

Talvez o aspecto mais interessante do Garda Wine Stories tenha sido justamente este: o evento não tentou apresentar respostas definitivas. Em vez disso, colocou sobre a mesa uma pergunta que provavelmente acompanhará o vinho nos próximos anos: como evoluir sem perder aquilo que tornou o vinho uma expressão cultural ligada ao território, ao tempo e às pessoas.

A resposta ainda está sendo escrita. E Garda decidiu participar ativamente dessa conversa.

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Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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