Como responder às mudanças do consumo sem descaracterizar o vinho
Evento no norte da Itália colocou em discussão uma das questões mais sensíveis do setor
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Em um momento em que o setor vitivinícola mundial enfrenta redução no consumo, mudanças geracionais e novos hábitos alimentares, algumas regiões começam a discutir soluções que, até poucos anos atrás, seriam consideradas impensáveis.
Uma dessas discussões aconteceu recentemente no norte da Itália, durante o Garda Wine Stories, encontro promovido pelo Consórcio Garda DOC, que reuniu produtores, jornalistas, enólogos e profissionais do vinho para refletir sobre um tema que hoje atravessa praticamente todos os mercados: qual será o próximo formato do vinho?
Para o consumidor brasileiro, Garda ainda é uma denominação relativamente desconhecida. E talvez justamente por isso seja uma região tão interessante de observar neste momento.
Localizada entre Lombardia e Vêneto, ao redor do Lago de Garda, o maior lago italiano, a DOC Garda ocupa uma posição singular dentro do cenário vitivinícola do país.
O lago exerce forte influência climática sobre os vinhedos, reduzindo extremos de temperatura e criando condições favoráveis para vinhos mais equilibrados, de perfil fresco e ampla versatilidade gastronômica.

Criada oficialmente em 1996, a denominação passou por um importante processo de reposicionamento em 2016 com o reconhecimento do Consórcio de Proteção e a atualização do disciplinar que introduziu oficialmente a categoria dos espumantes.
Entre as novidades apresentadas pelo presidente do consórcio, Paolo Fiorini, estão a introdução dos vinhos Garda Müller Thurgau, nas versões tranquilo, frisante e espumante, e do Garda Rebo para tintos tranquilos. Também foram criadas categorias de espumantes monovarietais, como Garda Spumante Garganega, Garda Spumante Chardonnay e Garda Spumante Corvina Rosé,

Mas a mudança que concentrou maior atenção foi outra: a legislação passou a permitir que o Garda Garganega tenha graduação alcoólica mínima de 9%, uma decisão que vai além de uma simples adaptação técnica e que revela uma tentativa de responder às novas exigências do mercado, preservando o vínculo entre vinho e território.
O ponto central é que Garda não está propondo retirar álcool do vinho depois de pronto. A proposta apresentada pelo consórcio segue outro caminho: trabalhar desde o vinhedo para produzir vinhos naturalmente mais leves.
E foi exatamente nesse ponto que o debate do evento ganhou profundidade, e uma das palestras mais interessantes do encontro foi conduzida pela jornalista e crítica italiana Alessandra Piubello, que apresentou um estudo baseado em entrevistas com produtores, consumidores, distribuidores e especialistas do setor sobre o avanço da categoria NoLo (No Alcohol e Low Alcohol).
A apresentação começou esclarecendo algo que frequentemente aparece de forma confusa no mercado: bebidas sem álcool possuem até 0,5% de álcool, enquanto produtos entre 0,5% e 9% entram na categoria low alcohol.
A partir daí, Piubello desenvolveu uma análise bastante crítica sobre os vinhos desalcoolizados. Segundo a jornalista, a remoção artificial do álcool é um processo altamente invasivo que altera profundamente a composição do vinho, provocando perda de compostos considerados importantes para sua estrutura e identidade sensorial, entre eles polifenóis.
Na visão apresentada durante o evento, o álcool não deve ser interpretado apenas como um componente alcoólico, mas como um dos elementos estruturais do vinho.
Sua remoção modifica volume, persistência e equilíbrio gustativo, exigindo posteriormente intervenções para recompor aromas, sensação de boca e percepção de sabor. Entre essas intervenções podem estar aumento de açúcar residual, uso de aromatizantes, conservantes e outros ajustes tecnológicos.
Outro ponto levantado foi que o consumidor muitas vezes associa automaticamente produtos sem álcool a produtos mais saudáveis. O estudo chamou atenção para o fato de que a redução calórica proveniente da retirada do álcool pode ser parcialmente compensada pelo aumento da fração açucarada utilizada para equilibrar o produto final.
Além disso, como o álcool exerce função conservante natural, sua remoção frequentemente exige outras estratégias de estabilização, incluindo conservantes que não trazem benefícios para a saúde.
A crítica não se limitou ao aspecto sensorial. Piubello também questionou os impactos ambientais e econômicos da dealcoolização. Segundo os argumentos apresentados, os processos utilizados, como destilação a vácuo, colunas de cones rotativos, osmose reversa e sistemas híbridos, exigem elevado consumo energético, uso significativo de água e altos investimentos em infraestrutura e manutenção.
No contexto italiano, em que até recentemente boa parte desse processamento ocorria fora do país, principalmente na Espanha e Alemanha, o debate apresentado incluiu ainda reflexões sobre pegada de carbono e coerência ambiental do modelo.
A provocação central da jornalista talvez tenha sido outra: até que ponto um produto tão intensamente transformado continua pertencendo ao universo cultural do vinho?
Ao mesmo tempo, o estudo não ignorou que existe uma tendência de mercado real. Segundo dados apresentados durante a palestra, o segmento NoLo continua crescendo internacionalmente e desperta interesse, especialmente entre consumidores jovens e em mercados como Reino Unido, Estados Unidos, Alemanha, Canadá e Austrália. Ainda assim, os números mostram que permanece uma categoria de nicho e que, na Itália, representa menos de 0,5% das vendas totais.
É justamente nesse cenário que Garda propõe uma alternativa. Ao reduzir o limite alcoólico do Garda Garganega para 9%, o consórcio procura abrir espaço para vinhos mais leves sem recorrer à dealcoolização. A lógica passa pela escolha varietal e pelo manejo agronômico.
Variedades de maturação mais lenta, como a Garganega, acumulam açúcares de forma gradual e permitem construir vinhos com menor teor alcoólico, preservando frescor, identidade territorial e coerência enológica.
Talvez o aspecto mais interessante do Garda Wine Stories tenha sido justamente este: o evento não tentou apresentar respostas definitivas. Em vez disso, colocou sobre a mesa uma pergunta que provavelmente acompanhará o vinho nos próximos anos: como evoluir sem perder aquilo que tornou o vinho uma expressão cultural ligada ao território, ao tempo e às pessoas.
A resposta ainda está sendo escrita. E Garda decidiu participar ativamente dessa conversa.
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