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As declarações de Lula e a complexa relação entre Brasil e Paraguai

Entenda como a história e a diplomacia influenciam a política atual entre os países sul-americanos

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Lula
Segundo uma fonte do Itamaraty, a última coisa de que o Brasil precisava era abrir uma nova frente de atrito Ricardo Stuckert/Planalto - 29.07.2026

A relação do Brasil com os Estados Unidos atravessa um momento de tensão, patrocinada pela diplomacia da canelada de Donald Trump, que assombra o mundo com uma política comercial orientada pelo tarifaço.

Quase ao mesmo tempo, o governo brasileiro viu-se obrigado a reagir às atitudes do presidente argentino Javier Milei, que, durante sua passagem pelo território nacional, protagonizou manifestações consideradas ofensivas às autoridades constituídas do país.


Nessa pegada, segundo uma fonte do Itamaraty, a última coisa de que o Brasil precisava era abrir uma nova frente de atrito, desta vez com o Paraguai. Sobretudo se essa demanda diz respeito a uma ferida histórica que jamais cicatrizou.

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Vale lembrar que este momento, com três frentes de conflitos diplomáticos, é um ponto fora da curva. Afinal, a diplomacia brasileira construiu, ao longo de quase dois séculos, uma reputação avessa à beligerância, vocacionada para o entendimento, para a negociação e para a solução pacífica das controvérsias.


Portanto, as declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a Guerra do Paraguai têm tudo para, no futuro, serem lembradas como tropeço infeliz e desnecessário.

Cabe ressaltar, entretanto, que Lula não inventou uma única letra no discurso que provocou a reação do governo paraguaio. Ainda que faltasse um mínimo de cautela, no lugar daquele resumo fático sobre a Guerra do Paraguai, tratando em poucas frases cortantes um dos capítulos mais sensíveis da história sul-americana.


Em alguns segundos, ele acabou ignorando que, para os paraguaios, aquela guerra não é um episódio distante ou esquecido nos livros escolares. Trata-se de uma passagem entendida como tragédia nacional por lá, e que ainda molda a identidade paraguaia.

Ao afirmar que o Paraguai invadiu o Brasil, em Corumbá, a Argentina e o Uruguai, Lula descreveu corretamente a sequência dos acontecimentos militares que culminaram na Guerra da Tríplice Aliança. As tropas de Francisco Solano López efetivamente ocuparam Corumbá, avançaram sobre Mato Grosso e, mais tarde, invadiram a província argentina de Corrientes. A afirmação presidencial, portanto, encontra irrefutável respaldo histórico.


Para a versão do Paraguai, o conflito começou um pouco antes. Numa narrativa construída entre os paraguaios ao longo de mais de um século, o ponto de ruptura foi a intervenção militar do Império do Brasil no Uruguai, em 1864, para apoiar o Partido Colorado contra o governo Blanco, aliado de Solano López.

A operação terminou com a queda do governo blanco e a ascensão de Venancio Flores. Algo que, atendendo aos interesses comerciais do Brasil, serviria de pretexto para Solano Lopes se declarar ameaçado pelo poder brasileiro.

López teria interpretado aquela intervenção como uma alteração profunda do equilíbrio estratégico da Bacia do Prata. O Paraguai temia que Brasil e Argentina consolidassem uma influência dominante sobre toda a região.

Esse argumento de Solano Lopes, contudo, estava fragilizado em sua origem, visto que não existia precedente que o justificasse. Mesmo assim, foi essa leitura política que serviu de pretexto para a decisão do Paraguai invadir o Brasil.

Todos sabem que esse pretexto não serve para absolver Solano López. Mesmo que contasse com algum amparo. Até porque, o chefe de Estado que toma a decisão da invasão está obrigado a assumir o papel de agressor.

A invasão em território brasileiro foi uma agressão que assumiu o risco de um conflito armado. Bem como a captura do vapor brasileiro Marquês de Olinda, sequestrado pelas forças militares do Paraguai no mesmo episódio. Esses atos forneceram a base factual e jurídica para uma reação forte do Brasil, integrada à formação da Tríplice Aliança com a Argentina e o novo governo uruguaio.

Em outras palavras, o Estado brasileiro tinha pleno direito de reagir depois que parte de seu território foi invadida por forças estrangeiras. Nenhum governo soberano aceitaria passivamente a ocupação de uma de suas cidades por tropas de outro país.

Portanto, Lula poderia falar o que disse. Mas blindado pela ressalva que teria evitado um desgaste diplomático.

Feitas as ressalvas, Lula não precisaria tirar um milímetro sequer da responsabilidade de Solano López pela invasão ao Mato Grosso e pela própria eclosão da guerra.

Essa distinção importa porque também seria um erro transformar o Paraguai, como nação, em um país agressor no sentido simplista que a palavra adquiriu hoje. Quem decidiu pela guerra foi o governo de Solano López, não o povo paraguaio.

E foi justamente esse povo quem pagou o preço mais devastador do conflito, que por pouco não dizimava a população masculina daquele país. Estimativas históricas apontam que o Paraguai perdeu uma parcela gigantesca de sua população, sobretudo entre os homens adultos, produzindo um colapso demográfico que marcou gerações e permanece como uma das maiores tragédias da história da América do Sul.

Por isso, falar da Guerra do Paraguai exige mais do que exatidão cronológica. Exige sensibilidade histórica e responsabilidade diplomática. Sobretudo nas palavras de um estadista.

Lula estava correto ao lembrar que houve uma invasão de Corumbá e que o Brasil não iniciou as operações militares em território paraguaio. Mas deveria ter acrescentado que, antes dessa invasão, existia uma crise regional.

A diferença pode parecer pequena. Na diplomacia, não é. A tradição do Itamaraty nunca foi a de colecionar antagonismos, muito menos a de reacender ressentimentos históricos. Sua marca sempre foi construir pontes onde outros preferem levantar trincheiras. A verdade histórica não perde força quando é contextualizada. Muito pelo contrário! É assim que ela ganha credibilidade.

Em um país cuja política externa sempre fez da moderação e do diálogo seu maior patrimônio, surpreende que uma frase historicamente correta seja transformada em uma dificuldade diplomática perfeitamente evitável.

Noves fora a geopolítica da América Latina majoritariamente direitista hoje, o erro de Lula, entretanto, pode não ter sido um acidente de percurso. Um experiente observador da cena política brasileira aposta que Lula teria adotado uma estratégia para neutralização de um discurso da direita brasileira para antagonizar o governo petista com o modelo do recente sucesso econômico ostentado pelos negócios paraguaios.

Por esta versão, a direita do Paraguai teria engolido a isca de uma briga inventada. Quando Lula enfia o dedo na ferida paraguaia, a reação vem sob medida. Assim, uma eventual associação pública de Flávio Bolsonaro com os vizinhos paraguaios colocaria o candidato do PL no outro lado de uma briga com os interesses do seu próprio país. Algo que, aliás, repetiria o efeito recente da desastrosa proximidade dos Bolsonaro com Donald Trump.

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