Parece, mas não é: o desafio às elites nacionais
Ao anunciar o avanço das reformas de base, Jango, que governou o país entre 1961 e 1964, enfrentou reação da direita e o golpe
Heródoto Barbeiro|Heródoto Barbeiro

Há quem diga que o presidente não quer ir ao comício. A política nacional cai em uma polarização em que é possível identificar as pautas da esquerda e da direita.
Contudo, o chefe do Poder Executivo não pode abrir mão do apoio de grupos sociais, associados ou não a partidos ou a qualquer outra organização.
Os partidos que lhe dão suporte no Congresso Nacional não têm maioria confortável e isso faz com que os projetos do governo sejam vetados por deputados e senadores, ou passem com grande dificuldade.
Ainda assim, o presidente não arreda pé e se compromete publicamente com projetos do governo escritos por ministros compromissados com a esquerda.
O governo propaga que quer a diminuição das diferenças sociais e econômicas que assolam o Brasil e não poupa as elites nacionais responsáveis pela concentração da riqueza e pela pauperização da maior parte da população do país, submetida à miséria, ao analfabetismo e a geradores de mais-valia.
Isso custa duras críticas da oposição e de veículos de comunicação de grande influência sobre parte da população.
A relação diplomática com os Estados Unidos se resume a tapas e beijos. Ora, o Tio Sam é um parceiro desejável para o desenvolvimento nacional, ora é acusado de exercer imperialismo e de querer dominar as riquezas do Brasil.
O presidente americano responde com a mesma moeda. Ora lança promessas de compromisso entre as duas nações, ora acusa o Brasil de estar ao lado das ditaduras comunistas, especialmente Cuba.
Esta sofre um bloqueio econômico que arruína sua economia e não esconde que também quer participar da política latino-americana.
A presença constante do presidente em reuniões, seminários, jantares e comícios é combustível para a direita. Suas falas, aparições e seus discursos são transformados em propaganda contra ele.
Boa parte da direita e de veículos de comunicação acredita ser hora de pressionar para que deixe a presidência da República sob a ameaça de levar o Brasil a uma guerra civil.
A primeira-dama aparece no grande comício. Sua beleza e simpatia ajudam a arregimentar povo na Praça da Estação da capital federal.
Dia 13 de março pode se tornar uma data histórica. Milhares de pessoas se juntam na praça em frente à estação ferroviária da Central do Brasil.
Do outro lado está o prédio do Ministério da Guerra. Tanques cercam a praça para proteger o encontro. A abertura do comício é carregada de discursos inflamados contra a elite acusada do subdesenvolvimento nacional. Especialmente os latifundiários e a burguesia nacional aliada ao capital estrangeiro.
Entre eles, Brizola, governador gaúcho; José Serra, da União Nacional dos Estudantes; representantes da Confederação Geral dos Trabalhadores, do Partido Comunista Brasileiro, entre outros.
O presidente João Goulart, o Jango, anuncia o avanço das Reformas de Base. Entre elas, a desapropriação de terra na beirada de rodovias e ferrovias federais, encampação de todas as refinarias de petróleo privadas e a apropriação de todas as casas e todos os apartamentos desocupados.
A reação da direita, civil, militar e católica, não se fez esperar. Em São Paulo, seis dias depois do comício do Rio de Janeiro, milhões participam da Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Doze dias depois, se inicia o golpe.
* Prof. Heródoto Barbeiro âncora do Jornal Nova Brasil, colunista do R7, apresentou o Roda Viva na TV Cultura, Jornal da CBN e Podcast NEH. Tem livros nas áreas de Jornalismo, História. Midia Training e Budismo. Grande prêmio Ayrton Senna, Líbero Badaró, Unesco, APCA, Comunique-se. Mestre em História pela USP e inscrito na OAB. Palestras e mídia training. Canal no Youtube “Por Dentro da Máquina”, www.herodoto.com.br
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