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Do campo ao copo: a nova fase da cerveja brasileira

Recorde de cervejarias e consumidores mais exigentes impulsionam a transformação de uma cadeia que representa 2% do PIB nacional

Mundo Agro|Fabi GennariniOpens in new window

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São Paulo recebe a Brasil Brau 2026, maior evento da indústria cervejeira da América Latina Foto cedida: Brau Brasil

A cadeia da cerveja vive um momento de transformação no Brasil. Embora o país tenha atingido em 2025 o recorde de 1.954 cervejarias registradas, a produção da bebida caiu quase 9%, reflexo de mudanças nos hábitos de consumo.

Para entender os desafios e as oportunidades do mercado cervejeiro brasileiro, o Mundo Agro conversou com Laura Harvey, gerente de projetos da GL events Exhibitions e responsável pela organização da Brasil Brau 2026, um dos principais eventos da indústria cervejeira da América Latina, que será realizado na próxima semana em São Paulo.


Da cevada ao lúpulo, as oportunidades por trás da nova cerveja brasileira Foto cedida: Brau Brasil

Mundo Agro: O que explica o contraste entre o recorde de cervejarias registradas e a queda de quase 9% na produção de cerveja em 2025?

Laura Harvey: O recorde de cervejarias, embora com um crescimento modesto de 0,3%, mostra a resiliência do setor, que hoje está mais maduro do que há sete anos, quando a quantidade de fábricas crescia 30% em média. A queda de produção mostra, por outro lado, a mudança no comportamento do consumidor, que reduziu consumo de álcool ou mesmo migrou para outras bebidas alcoólicas e não alcoólicas.


Mundo Agro: Como a cadeia agrícola brasileira - especialmente produtores de cevada, milho e lúpulo - tem se beneficiado da evolução da indústria cervejeira nacional?

Laura Harvey: A indústria da cerveja remunera muito acima o produtor de cevada cervejeira do que ele receberia pela cevada para nutrição animal, por exemplo. Aqui na Brasil Brau, a Cooperativa Agrária, um dos nossos expositores na feira de negócios, está lançando dois tipos de malte: um de malte especial de cevada 100% brasileiro e um de trigo, feito com cereal desenvolvido para malteação.


Da mesma forma, o lúpulo também é uma cultura que, embora incipiente, já se provou economicamente viável. E tem muito potencial econômico, principalmente para pequenos e médios agricultores.

Exemplo é a iniciativa da Aprojape, que gerencia o CLP do lúpulo de Araraquara, no interior de São Paulo, e já inaugurou uma unidade de beneficiamento que atende os pequenos produtores da região.


Hoje somos o terceiro país em volume de produção de cerveja, mas importamos 99% do que consumimos de lúpulo. Ou seja, é um mercado gigantesco.

Mundo Agro: O anuário mostra crescimento expressivo de cervejas sem glúten, sem álcool e puro malte. O que essa mudança revela sobre o novo comportamento do consumidor brasileiro?

Laura Harvey: Mostra duas tendências. Uma é a busca pela moderação e pelo equilíbrio entre a cultura cervejeira e uma vida mais saudável. Essa é uma característica da Geração Z, que busca por wellness, com um consumo seletivo de álcool, com bebidas de menor teor ou alternando com o consumo de bebidas sem álcool. Já quando olhamos para o avanço das cervejas puro malte, é a chamada premiumização, com o consumidor sendo mais seletivo quanto às opções que faz na hora da cerveja.

Mundo Agro: Em um setor em que 5% das cervejarias respondem por quase 99% da produção, quais são os caminhos para que pequenas e médias operações ganhem competitividade?

Laura Harvey: Esta é uma das discussões que trazemos no congresso técnico da Brasil Brau, o CBCTEC, com especialistas como Bob Pease, que foi por 30 anos presidente da Brewers Association, a entidade que reúne as cervejarias independentes dos Estados Unidos. Também proprietários de cervejarias brasileiras como Germânia, Salva, Dona e Louvada vão debater isso. No meu entendimento, passa sim por tratamentos tributários e regulatórios diferenciados conforme o porte da empresa, mas também por investimento em qualidade e eficiência, posicionamento de mercado e relacionamento e construção de comunidades.

Mundo Agro: O Brasil já é uma potência agrícola global. Existe espaço para transformar a cerveja brasileira em um produto de maior relevância internacional, à semelhança do que ocorreu com café, carne e vinho em outros países?

Laura Harvey: O Brasil já é uma potência global na medida em que os acionistas de referência da maior cervejaria do mundo são brasileiros. Agora, quando olhamos para a exportação de produtos, temos muito potencial, principalmente olhando para ingredientes brasileiros e marcas que consigam capturar o valor que a brasilidade ganhou no mundo hoje.

Mundo Agro: O futuro da cerveja passa mais pelo aumento do consumo ou pela captura de valor por meio de produtos premium, especiais e de maior diferenciação?

Laura Harvey: Os consumidores estão cada vez mais em busca de experiências, qualidade, autenticidade e propostas alinhadas aos seus estilos de vida. Nesse contexto, categorias premium, cervejas artesanais, edições limitadas, produtos com atributos funcionais e opções sem álcool ou de baixo teor alcoólico tendem a ganhar relevância. Mais do que aumentar o volume em consumo, o desafio e a oportunidade para o setor estão em gerar maior valor agregado, oferecendo produtos que se destaquem pela inovação, pela qualidade e pela conexão com as preferências de um consumidor cada vez mais exigente.

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Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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