El Niño 2026: por que o clima volta ao centro das decisões econômicas
Em um cenário de eventos climáticos mais frequentes, empresas e governos terão de incorporar o risco climático às decisões estratégicas

O clima pode se tornar um dos principais desafios para a economia brasileira nos próximos anos. Com o El Niño no radar, o fenômeno desponta como um importante fator de risco para setores que movimentam boa parte da atividade econômica do país.
O Mundo Agro abre a porteira para um artigo de Junior Rozante, CEO da RZ3, que analisa por que, mais do que acompanhar a evolução das condições meteorológicas, empresas e governos precisarão se preparar para um cenário capaz de influenciar a produção, a infraestrutura, a inflação e o crescimento econômico.
“O Brasil está diante de uma nova ameaça econômica de escala nacional. Não se trata de uma crise financeira, de uma guerra comercial ou de uma ruptura política. O risco vem da natureza.
Com mais de 90% de probabilidade de formação, segundo projeções de organismos internacionais e centros meteorológicos, o El Niño 2026 já é apontado por especialistas como um dos eventos climáticos mais relevantes da década, por seu potencial de afetar setores estratégicos da economia brasileira. Agronegócio, energia, logística e indústria, segmentos tradicionalmente mais sensíveis aos efeitos do fenômeno, respondem por uma parcela expressiva da atividade econômica nacional, estimada em mais de R$ 10 trilhões anuais.
Os impactos econômicos do El Niño também costumam ultrapassar o período em que o fenômeno ocorre. Estudo conduzido por pesquisadores da Dartmouth College e publicado na revista Science concluiu que os episódios registrados em 1982-83 e 1997-98 provocaram perdas globais estimadas em US$ 4,1 trilhões e US$ 5,7 trilhões, respectivamente, ao longo dos cinco anos seguintes. A pesquisa também estimou que o evento iniciado em 2023 poderá gerar perdas de até US$ 3 trilhões para a economia mundial até 2029.
Embora normalmente seja tratado como um evento climático, o El Niño produz efeitos que vão muito além da meteorologia. Dependendo de sua intensidade, ele pode influenciar produção agrícola, geração de energia, logística, inflação, arrecadação pública e decisões de investimento, tornando-se um dos principais fatores de risco econômico para os próximos meses.
O Brasil conhece bem esse roteiro. Historicamente, episódios mais intensos do fenômeno costumam provocar uma combinação de extremos climáticos. No Sul, o excesso de chuvas eleva o risco de enchentes, perdas de safra e interrupções logísticas. No Norte e Nordeste, a estiagem pode comprometer rios, abastecimento hídrico e cadeias produtivas inteiras. Já o Centro-Oeste e parte do Sudeste enfrentam frequentemente períodos de calor intenso e irregularidade das chuvas, fatores que afetam diretamente atividades agropecuárias.
É justamente no campo que parte dos impactos tende a aparecer primeiro.
Responsável por cerca de um quarto do PIB nacional e por mais de US$ 160 bilhões em exportações anuais, o agronegócio brasileiro está entre os setores mais expostos às oscilações climáticas. Dependendo das condições observadas em cada região produtora, culturas como soja, milho, trigo, café e cana-de-açúcar podem enfrentar perdas de produtividade, aumento de custos operacionais e dificuldades logísticas.
Quando o agro sente os efeitos do clima, o impacto costuma ultrapassar os limites da porteira. Menor oferta, aumento de custos e dificuldades no escoamento da produção podem pressionar preços, fazendo com que a inflação volte ao centro das preocupações.
Não por acaso, analistas já acompanham com atenção os possíveis reflexos sobre os alimentos. Estudos de eventos anteriores indicam que períodos de El Niño costumam gerar pressões relevantes sobre produtos agrícolas. Há projeções que apontam altas de até 15% em frutas, legumes e hortaliças, além de reflexos em proteínas animais e derivados.
O impacto vai além da cesta básica. Com maior pressão inflacionária, o Banco Central pode enfrentar dificuldades adicionais para flexibilizar a política monetária, prolongando juros elevados e afetando investimentos, crédito e consumo.
Outro ponto de atenção está na infraestrutura e na energia.
A redução dos níveis dos reservatórios em determinadas regiões pode exigir maior acionamento de termelétricas, uma alternativa mais cara e mais poluente, elevando custos para empresas e consumidores, com pressão adicional sobre a inflação. Ao mesmo tempo, eventos climáticos extremos aumentam os riscos de interrupções em rodovias, ferrovias, sistemas de transmissão e corredores logísticos essenciais para o escoamento da produção nacional.
Há ainda um componente pouco discutido: o impacto fiscal. Menor atividade econômica em determinados setores, associada à necessidade de investimentos emergenciais em recuperação de infraestrutura, programas de apoio e ações de mitigação, pode ampliar pressões sobre os cofres públicos.
Mas nem todo cenário de risco produz apenas perdas.
Momentos de maior vulnerabilidade costumam acelerar investimentos em inovação, infraestrutura hídrica, seguros agrícolas, energias renováveis, monitoramento climático e soluções voltadas à eficiência operacional. Em muitos casos, é justamente durante períodos de instabilidade que surgem os avanços mais relevantes em gestão e produtividade.
Por isso, talvez a principal discussão não seja sobre a intensidade do El Niño, mas sobre o grau de preparação das empresas para enfrentá-lo.
O clima continuará sendo uma variável impossível de controlar. O planejamento, não.
Empresas que revisarem seus riscos, fortalecerem seu caixa, ampliarem mecanismos de proteção e construírem estratégias de adaptação terão mais condições de atravessar períodos de instabilidade. Em um ambiente cada vez mais influenciado por eventos climáticos extremos, resiliência deixa de ser apenas uma virtude empresarial para se tornar um fator de competitividade.
O desafio já começou. A questão não é mais se o El Niño virá. A pergunta é: estamos preparados para ele?"
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