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Ingresso em universidade duplica em dez anos, mas seis a cada dez estudantes abandonam graduação

Levantamento exclusivo feito pelo R7 Planalto com base no Censo Escolar aponta os desafios da permanência no ensino superior

R7 Planalto|Edis Henrique Peres, do R7, em BrasíliaOpens in new window

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Ingresso de estudantes em universidades duplicou nos últimos dez anos, mas seis em cada dez abandonam os cursos.
  • Desafios financeiros e a dificuldade de conciliar trabalho e estudo são principais motivos para a evasão.
  • Casos como os de Letícia e Sara exemplificam as dificuldades que alunos enfrentam para permanecer nos cursos.
  • O MEC implementa ações para melhorar a permanência e suporte aos estudantes, focando em assistência financeira e inovações acadêmicas.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Estudantes relatam ao R7 Planalto desafios da permanência no ensino superior Fernando Frazão/Agência Brasil - arquivo

O ingresso de estudantes em universidades particulares nos últimos dez anos praticamente duplicou. No entanto, seis a cada dez alunos abandonam a graduação, segundo dados exclusivos levantados pelo R7 Planalto com base no Censo Escolar do Ensino Superior.

Os dados mostram que o ingresso no ensino superior saltou de 1,7 milhão para 4,3 milhões nesse período. A taxa de conclusão, contudo, não acompanha o mesmo ritmo e a desistência ultrapassa os 60% (confira dados abaixo).


Estudantes com acesso ao ensino superior aumenta em dez anos, mas conclusão não acompanha ritmo Luce Costa/ Arte R7

No caso de Letícia Mendes, 21 anos, moradora de Luziânia (GO), ela precisou abandonar o curso de sistemas de informações no segundo semestre. O desafio foi conciliar trabalho com faculdade: “Ainda mais por ela [faculdade] ser em outra cidade e ter muitos gastos, tanto com mensalidade quanto do transporte para chegar lá”.

Letícia pagava cerca de R$ 1.200 por mês, mas fez um financiamento na própria faculdade para pagar o valor em mais parcelas. “Uma faculdade de quatro anos, eu pagaria durante 12 anos”, explicou.


Letícia Mendes trabalha como trancista em um salão de beleza das 8h às 18h Reprodução/Arquivo pessoal - arquivo

Apesar da pausa, Letícia não desistiu do diploma do ensino superior. Ano que vem ela quer voltar à sala de aula, mas dessa vez ingressando em uma universidade pública. Para ela, algumas mudanças são necessárias para garantir a permanência de estudantes na graduação.

“Acho que seria interessante se conseguissem conciliar um horário CLT mais flexível para estudantes, por ser impossível trabalhar em um emprego que pague menos que um salário mínimo, como um estágio, por exemplo, que tem a carga horária reduzida, mas que não garante o pagamento da mensalidade de uma faculdade sem que se atole em dívidas de financiamentos”, aponta.


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Ela acrescenta, ainda, a importância de garantir transporte gratuito para os alunos, com ônibus com horários compatíveis com a jornada dos estudantes.

O cenário enfrentado por Letícia é parecido com o vivido por Sara Souza, 23 anos, que começou a graduação em pedagogia e atualmente está na fase final do curso. No meio do caminho, contudo, ela precisou fazer uma pausa.


Um dos principais desafios foi conciliar as demandas da vida pessoal, profissional e acadêmica. Cheguei a interromper o curso por cerca de nove meses, justamente por não conseguir equilibrar essas responsabilidades. Casei aos 21 anos, o que trouxe novas obrigações e exigiu uma reorganização completa da rotina. Esse período evidenciou o quanto a falta de flexibilidade pode impactar diretamente a continuidade dos estudos”, conta.

Após os meses afastada, Sara retomou os estudos no ano passado e está a um semestre da conclusão. “No momento, meu foco está em finalizar o curso, consolidando essa etapa antes de considerar novos caminhos acadêmicos ou profissionais”, narra.

Ela confessa: “Em alguns momentos ao longo da trajetória questionei minha escolha, principalmente diante das dificuldades enfrentadas. No entanto, com o tempo, compreendi que essas dúvidas estavam mais relacionadas aos desafios do percurso do que propriamente à área escolhida. Hoje, consigo enxergar sentido na formação e sigo até a conclusão”, disse.

Taxa de desistência segue alta; alunos relatam ao R7 Planalto desafios da permanência no ensino superior Luce Costa/ Arte R7

Para Sara, um dos grandes desafios é a falta de flexibilidade dos estágios obrigatórios. “Muitos estudantes enfrentam dificuldades para conciliar trabalho e estágio, principalmente quando os horários exigidos coincidem com a jornada profissional. No meu caso, por exemplo, os estágios precisavam ser feitos em horário comercial (das 8h às 17h), exatamente no período em que eu trabalhava, o que inviabilizou minha permanência naquele momento”, conta.

O diálogo entre universidade e mercado de trabalho é fundamental na visão da estudante: “Isso pode incluir estágios em horários alternativos ou modelos que considerem a realidade de estudantes que precisam trabalhar para se manter”.

‘Apenas acesso não é inclusão educacional’

Janguiê Diniz, diretor-presidente da ABMES (Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior), avalia que o “crescimento do número de ingressantes está diretamente associado à expansão da rede privada e, sobretudo, da educação a distância”.

“Segundo o Censo da Educação Superior 2024, houve mais de 5 milhões de ingressantes na graduação; desses, 88,5% estavam na rede privada e 67% em cursos EAD. Para além da redução do preconceito com o formato à distância, esse movimento também precisa ser lido à luz do enfraquecimento do Fies (Fundo de Financiamento Estudantil). Após a reformulação do programa, em 2017, o financiamento perdeu escala, passando de mais de 700 mil contratos, em 2014, para pouco mais de 100 mil nos últimos anos. Esse fator foi decisivo para que muitos brasileiros tivessem no EAD a única possibilidade de acesso à graduação, visto que seus cursos possuem mensalidades mais acessíveis”, diz.

Ele cita, também, que muitos alunos estão vindo do chamado “mercado endereçado”. “Ou seja, são pessoas com mais de 25 anos e que, por algum motivo, não conseguiram cursar a graduação na idade esperada. A possibilidade gerada pelas mensalidades mais acessíveis e pela capilarização da educação à distância tem contribuído para o resgate do sonho de cursar uma faculdade”, explica.

Ele reconhece, contudo, que o acesso, sozinho, não garante inclusão educacional. “O principal problema é a falta de políticas públicas robustas de permanência, capazes de apoiar o estudante até a conclusão do curso. Além disso, muitas instituições de educação superior não trabalham adequadamente a retenção dos alunos”, declara.

Ele alerta que a evasão elevada compromete projetos de vida, reduz o retorno social do investimento educacional e prejudica o país, que precisa ampliar a formação de mão de obra qualificada para sustentar produtividade, inovação e crescimento. “Portanto, além de ampliar vagas, o Brasil precisa de financiamento estudantil, assistência, apoio acadêmico e medidas que reduzam as barreiras econômicas e sociais à permanência”, defende.

Desafios

Brenda saiu do curso de psicologia, mas voltou para concluir outra graduação Reprodução/Arquivo pessoal - arquivo

Brenda Araújo, 33 anos, conta que ingressou em psicologia aos 18 anos, mas depois de um semestre, percebeu que não gostaria de prosseguir na profissão. “Ainda tinha dúvidas relacionadas a seguir uma carreira profissional na área, já que, naquele momento, não me via atuando nela, apesar de achar o curso muito interessante. Como passei no vestibular da UnB, resolvi iniciar o curso, pois era uma oportunidade incrível”, explica.

Para ela, o desafio foi justamente ter certeza sobre o curso escolhido, mas mais tarde se encontrou na graduação de turismo.

“Creio que a dificuldade de permanência de alguns alunos em cursos de graduação perpassa por inúmeros fatores, dentre eles: dificuldades financeiras e apoio familiar, em alguns casos. Programas voltados para a permanência desses estudantes, como bolsas-auxílio, mais vagas de estágio e moradias estudantis são medidas importantes que podem auxiliar nesse processo, pois os gastos com a graduação são significativos: transporte, alimentação, materiais, dentre outros. E, infelizmente, isso dificulta bastante a permanência de muitos estudantes no curso superior”, elenca.

O que diz o MEC?

Em entrevista exclusiva ao R7 Planalto, o secretário de Educação Superior do Ministério da Educação, Marcus Vinicius David, diz que o “fenômeno da evasão universitária é um desafio complexo e de natureza multifatorial, que exige um olhar atento para os diversos fatores que levam o aluno a interromper sua trajetória acadêmica”.

“Entendemos que esse abandono é explicado por um conjunto de variáveis que vão desde questões socioeconômicas e financeiras até desafios propriamente acadêmicos, como a adaptação ao ritmo universitário, além de fatores ligados à estrutura institucional das próprias universidades”, observa.

O secretário pontuou que o MEC trabalha com ações específicas em diversas frentes para tentar garantir a conclusão do ensino superior dos estudantes. “Nosso objetivo é superar as dificuldades que impedem o aluno de concluir sua graduação, atuando tanto no suporte financeiro quanto no apoio pedagógico e na melhoria contínua da experiência dentro do campus”, conta.

Segundo ele, “ao focar na permanência e no sucesso acadêmico”, o MEC busca “elevar os indicadores brasileiros de formação a patamares comparáveis aos dos países mais desenvolvidos, consolidando o ensino superior como um pilar de desenvolvimento social e de sucesso na carreira de nossos estudantes”.

O MEC, de acordo com David, age em duas frentes principais: fortalecimento socioeconômico e inovação acadêmica. “No campo socioeconômico, o governo trabalhou na reconstrução das políticas de permanência, transformando a assistência estudantil — que antes era regulada por decreto — em lei, garantindo maior estabilidade institucional”, cita.

O secretário acrescenta também a ampliação da bolsa permanência para indígenas e quilombolas, que saltou de 8 mil para 17 mil bolsas, com reajuste no valor de R$ 900 para R$ 1.400.

“Além disso, o MEC assegura orçamentos expressivos para que universidades e institutos federais garantam moradia, alimentação e transporte aos estudantes, visto que há uma correlação direta entre o investimento em permanência e o aumento na conclusão dos cursos”, defende.

Em relação ao campo pedagógico, o secretário diz que a pasta atua para modernizar o processo formativo e evitar a desmotivação dos jovens. Nesse campo, são três eixos estratégicos trabalhados pela secretaria da Educação Superior.

“O eixo das Universidades Inovadoras foca na criação de cursos voltados à nova realidade do trabalho, como Inteligência Artificial e Cibersegurança; o das Universidades Inclusivas promove a permanência por meio de ações como as ‘cuidotecas’ — espaços para acolher filhos de estudantes, especialmente no ensino noturno — e o fomento a cursos na área de saúde e inclusão; e o das Universidades Estratégicas realiza uma revisão profunda de currículos e modelos pedagógicos para atualizar ofertas que estavam defasadas ou com baixa demanda”, finaliza.

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