Hiperconectados: estamos usando a tecnologia ou sendo usados por ela?
Smartphone deixou de ser apenas um dispositivo de comunicação e se tornou a principal ferramenta de trabalho, estudo e relacionamento
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Muitos de nós se transformaram em dependentes totais das tecnologias, aplicativos, softwares e smartphones! Podemos nos esquecer da nossa carteira em casa, ou até mesmo de nossos documentos pessoais; mas do smartphone, jamais! É como se estivéssemos sem uma parte de nosso corpo... Quem já não passou por isso?!!
Essa dependência tem uma explicação: o smartphone é a nossa área de trabalho, fazemos tudo por ele! Antigamente tínhamos a nossa mesa de trabalho no escritório, com bloco de notas, calculadora, pastas suspensas, pilhas de documentos, agenda de papel, telefone fixo com fio, máquina de fax, carimbo, caneta, lápis, marca-texto, calendário de mesa, post-it, etc.
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Todos estes objetos convergiram para dentro do celular. Existem aplicativos específicos para suprir todas essas necessidades.
O smartphone se transformou na nossa nova área de trabalho. Podemos trabalhar utilizando seus recursos, em qualquer local; como num hotel, no metrô, num trem, sentado no sofá ou deitado na cama, ou até mesmo relaxando no banco da praça.
Mas podemos levar esta fala para uma outra linha de discussão, para aquelas pessoas consideradas hiperconectadas!
As pessoas hiperconectadas são aquelas que utilizam a internet e os dispositivos digitais de forma constante ao longo do dia, recorrendo às tecnologias para se informar, se comunicar, trabalhar, estudar, fazer compras, acessar serviços e compartilhar experiências nas redes sociais. Para esse público, estar conectado deixou de ser uma opção ocasional e passou a fazer parte da rotina.
Poderíamos inclusive pontuar aqui uma classificação para as pessoas hiperconectadas, baseada na intensidade de uso:
- Conectados ocasionais: acessam a internet apenas quando necessário;
- Conectados frequentes: utilizam recursos digitais diversas vezes ao dia;
- Hiperconectados: permanecem conectados durante grande parte do dia, alternando continuamente entre dispositivos, aplicativos e plataformas.
Nesta linha de discussão, é possível observar perfis bastante distintos de usuários no ambiente digital. De um lado, estão as pessoas hiperconectadas, que utilizam intensamente as redes sociais e realizam publicações frequentes em plataformas como Instagram, LinkedIn, TikTok, YouTube, Facebook e X.
Entre elas, há criadores de conteúdo e influenciadores digitais que transformaram sua presença online em uma atividade profissional, monetizando publicações, produzindo conteúdos especializados e estabelecendo parcerias comerciais.
Para esse grupo, as redes sociais vão muito além do entretenimento, tornando-se ferramentas de trabalho, comunicação e construção de identidade digital.
Em sentido oposto, encontram-se aqueles que optam por não participar das redes sociais ou fazem um uso bastante restrito dessas plataformas.
As razões são variadas: preocupação com a privacidade, busca por maior qualidade de vida, redução do excesso de informações, preservação da saúde mental ou simplesmente a percepção de que o tempo dedicado às redes poderia ser empregado em outras atividades pessoais, familiares ou profissionais.
Entre esses dois extremos, existe ainda a maior parte da população, que utiliza as redes sociais de forma moderada, equilibrando seus benefícios e desafios no cotidiano.

Nosso primeiro entrevistado é Guilherme Augusto Queiroz Schunemann Manfrin de Oliveira, professor do Programa de Pós-Graduação em Gestão Ambiental na Universidade Positivo, especializado em estatística aplicada, métodos quantitativos e inteligência artificial para modelagem de processos socioambientais. Ele possui formação em Engenharia Elétrica (UFPR, 2013), mestrado em Engenharia de Produção (UFPR, 2015) e doutorado em Engenharia Elétrica com ênfase em Telecomunicações (UFPR, 2018), além de especialização em Psicologia Positiva e Ciência do Bem-Estar (PUC-RS, 2020).
Para Guilherme, as “redes sociais hoje funcionam como cassinos digitais, projetados por engenheiros e neurocientistas para sequestrar a nossa atenção através do desbalanço constante de dopamina. Essa busca por gratificação instantânea não afeta apenas os jovens; adultos e idosos também se tornaram reféns desse mecanismo. O vício é tão severo que transcende a tela e gera impactos físicos tragicamente reais, como motoristas que checam notificações no trânsito e provocam acidentes fatais. Entramos em um estado de insatisfação crônica, em que a promessa de recompensa do próximo clique nos impede de nos sentirmos satisfeitos com o momento presente”.
O professor Guilherme reforça que “esse ciclo atinge o seu auge no doom scrolling: a rolagem compulsiva de conteúdos na qual consumimos centenas de vídeos sem fixar absolutamente nada. A ironia é que a própria essência social dessas redes foi destruída: é triste ver pessoas que saem teoricamente para conviver, mas passam o tempo todo olhando para seus próprios celulares. Deixamos de nos conectar com amigos e conhecidos para consumir passivamente páginas de estranhos e criadores de conteúdo. Ao eliminar o tédio e o convívio real, perdemos a criatividade e a reflexão; a própria linguagem e a cultura acabam pasteurizadas, reduzidas a memes e tendências do momento”.
Essa “dependência de estímulos rápidos destruiu a nossa capacidade de concentração e é devastadora para a produtividade”.
No ambiente de trabalho, as interrupções constantes para checar notificações fragmentam o foco, fazendo com que profissionais levem muito mais tempo e gastem muito mais energia para concluir tarefas simples. O cérebro, “acostumado ao dinamismo acelerado das telas, perde a capacidade de manter a atenção sustentada, tornando a leitura de um documento longo, o estudo ou o acompanhamento de uma aula um sacrifício hercúleo”.
A complexidade do mundo foi reduzida a cortes rápidos e polarização, criando uma sociedade que confunde a distração contínua com informação.
Ainda, para o pesquisador da UP, no campo emocional, “as redes criaram um mercado implacável de aparências pautado pela inveja e pela vaidade. Somos expostos diariamente a recortes filtrados das vidas mais ricas e bonitas do planeta, alimentando uma sensação contínua de inadequação. A autoestima passou a ser mediada por métricas frias: se o engajamento sobe, alimenta-se o narcisismo; se cai, surgem a ansiedade, a depressão e a dismorfia corporal”.
O reflexo mais sombrio desse ecossistema é a “hipersexualização precoce, que vai muito além dos predadores virtuais”. O fenômeno começa cedo com as “Sephora Kids” — pré-adolescentes focadas em rotinas adultas de maquiagem e cuidados com a pele —, “mas avança para a adoção deliberada de poses, roupas e atitudes sensuais desde a infância”.
“Mesmo fora de situações criminosas, tornou-se comum ver adolescentes postando fotos altamente reveladoras em plataformas como o Instagram para validar seu valor estético, em uma esteira cultural que prepara o terreno e normaliza a migração futura para redes abertamente voltadas à erotização paga, como o OnlyFans”.
Para o entrevistado, fica claro que não se trata de falta de disciplina individual, mas de um modelo de negócios multibilionário que lucra ao hackear nossas vulnerabilidades biológicas.
Proteger a “sociedade dessa engrenagem exige mais do que impor limites de tela: exige resgatar o valor da atenção profunda, das conexões reais e do direito de viver fora da pressão de performar para um algoritmo”.
A segunda entrevistada é Fabiana Aparecida Vilaça, pesquisadora e professora permanente nos Programas de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática (ECM); e em Ensino de Ciências (EC), na Universidade Cruzeiro do Sul (UCS). Tem pós-doutorado em Ensino de Ciências; doutorado em Ensino de Ciências e Matemática; e mestrado em Ensino de Ciências (pela UCS). É bióloga citologista, com 27 anos de experiência em laboratórios de Anatomia Patológica e Citopatologia, atuando na prevenção e diagnóstico precoce do câncer ginecológico.
Para Fabiana, a hiperconectividade, caracterizada pelo acesso constante a dispositivos digitais e redes sociais, conforme defende Pietrocola (2019), trouxe mudanças significativas para as relações interpessoais da sociedade atual, tornando-se um tema amplamente discutido, principalmente no que diz respeito ao debate entre os malefícios e benefícios que o excesso de informações, múltiplas conexões e tempo gasto nos dispositivos e ambientes digitais causa.
Segundo a professora, “as redes sociais, como o Instagram, LinkedIn, WhatsApp e Facebook, quando utilizadas de maneira correta e organizada, podem auxiliar no processo de divulgação do trabalho dos indivíduos, trazendo benefícios, inclusive, financeiros, além de otimizar o tempo e proporcionar aprendizagem contínua”.
O grande diferencial dos hiperconectados, em relação a outros tipos de pessoas, é que eles utilizam os recursos digitais para obter sucesso e alavancar a divulgação pessoal e de seus serviços nas redes sociais.
Entretanto, “é preciso focar em um tema específico, como saúde e divulgação científica, por exemplo, e então gerir a imagem que deseja transmitir na internet para conquistar o seu público-alvo; e definir metas, inclusive, de tempo gasto com as postagens e respostas às mensagens recebidas”.
A pesquisadora ainda afirma: “Particularmente, o uso contínuo da internet levou a uma mudança, para melhor, muito importante em minha carreira, ampliando a procura pelos meus cursos, além de convites recebidos para palestras e propostas de trabalho. Sou bióloga e professora e, em 2020, com a pandemia de Covid-19, tinha a preocupação de ajudar a população, levando informações corretas sobre o SARS-COV-2; a patogênese da doença, vacinas e índices epidemiológicos. Eu ficava atenta às publicações científicas; traduzia, tanto para o português quanto para uma linguagem acessível ao público em geral, e fazia postagens em meu Instagram; e rapidamente passei de 600 seguidores para mais de 10 mil”.
Fabiana finaliza: “Hoje, mesmo sem o título de influenciadora, mas com muito orgulho de fazer divulgação científica, tenho cerca de 30 mil seguidores em meu Instagram; e acredito que as redes sociais e os dispositivos digitais possuem muitos pontos positivos, além de constituírem uma ferramenta fundamental para o ensino e aprendizagem das novas gerações, o que, para mim, como docente, é uma arma poderosa”.
Prof. Dr. Juliano Schimiguel
Tem doutorado e mestrado em Ciência da Computação pelo Instituto de Computação da Unicamp. É coordenador do mestrado profissional em Ensino de Ciências e Matemática pela Universidade Cruzeiro do Sul (São Paulo, SP). Pesquisador permanente nos PPG ECM e EC. É docente na Unianchieta (Jundiaí/SP) e editor-chefe da Revista Ubiquidade.
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