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Hiperconectados: estamos usando a tecnologia ou sendo usados por ela?

Smartphone deixou de ser apenas um dispositivo de comunicação e se tornou a principal ferramenta de trabalho, estudo e relacionamento

Radar Tecnológico|Juliano SchimiguelOpens in new window

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • A dependência dos smartphones transformou esses dispositivos em nossa principal ferramenta de trabalho e comunicação, substituindo itens tradicionais de escritório.
  • Pessoas hiperconectadas utilizam intensamente a internet e redes sociais, transformando-as em ferramentas de trabalho e comunicação, mas enfrentam desafios como a distração e a perda de conexão real.
  • O professor Guilherme Oliveira destaca os impactos negativos das redes sociais na atenção e saúde mental, comparando-as a cassinos digitais que exploram vulnerabilidades biológicas.
  • A professora Fabiana Vilaça aponta que, quando usadas corretamente, as redes sociais podem trazer benefícios significativos, como a divulgação científica e o sucesso profissional.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Hiperconectados: estamos usando a tecnologia ou sendo usados por ela?
A complexidade do mundo foi reduzida a cortes rápidos e polarização, criando uma sociedade que confunde a distração contínua com informação Imagem Gerada com IA ChatGPT

Muitos de nós se transformaram em dependentes totais das tecnologias, aplicativos, softwares e smartphones! Podemos nos esquecer da nossa carteira em casa, ou até mesmo de nossos documentos pessoais; mas do smartphone, jamais! É como se estivéssemos sem uma parte de nosso corpo... Quem já não passou por isso?!!

Essa dependência tem uma explicação: o smartphone é a nossa área de trabalho, fazemos tudo por ele! Antigamente tínhamos a nossa mesa de trabalho no escritório, com bloco de notas, calculadora, pastas suspensas, pilhas de documentos, agenda de papel, telefone fixo com fio, máquina de fax, carimbo, caneta, lápis, marca-texto, calendário de mesa, post-it, etc.

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Todos estes objetos convergiram para dentro do celular. Existem aplicativos específicos para suprir todas essas necessidades.

O smartphone se transformou na nossa nova área de trabalho. Podemos trabalhar utilizando seus recursos, em qualquer local; como num hotel, no metrô, num trem, sentado no sofá ou deitado na cama, ou até mesmo relaxando no banco da praça.

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Mas podemos levar esta fala para uma outra linha de discussão, para aquelas pessoas consideradas hiperconectadas!

As pessoas hiperconectadas são aquelas que utilizam a internet e os dispositivos digitais de forma constante ao longo do dia, recorrendo às tecnologias para se informar, se comunicar, trabalhar, estudar, fazer compras, acessar serviços e compartilhar experiências nas redes sociais. Para esse público, estar conectado deixou de ser uma opção ocasional e passou a fazer parte da rotina.

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Poderíamos inclusive pontuar aqui uma classificação para as pessoas hiperconectadas, baseada na intensidade de uso:

  • Conectados ocasionais: acessam a internet apenas quando necessário;
  • Conectados frequentes: utilizam recursos digitais diversas vezes ao dia;
  • Hiperconectados: permanecem conectados durante grande parte do dia, alternando continuamente entre dispositivos, aplicativos e plataformas.

Nesta linha de discussão, é possível observar perfis bastante distintos de usuários no ambiente digital. De um lado, estão as pessoas hiperconectadas, que utilizam intensamente as redes sociais e realizam publicações frequentes em plataformas como Instagram, LinkedIn, TikTok, YouTube, Facebook e X.

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Entre elas, há criadores de conteúdo e influenciadores digitais que transformaram sua presença online em uma atividade profissional, monetizando publicações, produzindo conteúdos especializados e estabelecendo parcerias comerciais.

Para esse grupo, as redes sociais vão muito além do entretenimento, tornando-se ferramentas de trabalho, comunicação e construção de identidade digital.

Em sentido oposto, encontram-se aqueles que optam por não participar das redes sociais ou fazem um uso bastante restrito dessas plataformas.

As razões são variadas: preocupação com a privacidade, busca por maior qualidade de vida, redução do excesso de informações, preservação da saúde mental ou simplesmente a percepção de que o tempo dedicado às redes poderia ser empregado em outras atividades pessoais, familiares ou profissionais.

Entre esses dois extremos, existe ainda a maior parte da população, que utiliza as redes sociais de forma moderada, equilibrando seus benefícios e desafios no cotidiano.

Foto do Entrevistado: Guilherme Augusto Queiroz Schunemann Manfrin
Foto do Entrevistado: Guilherme Augusto Queiroz Schunemann Manfrin Arquivo Pessoal do Entrevistado Guilherme Augusto Queiroz Schunemann Manfrin

Nosso primeiro entrevistado é Guilherme Augusto Queiroz Schunemann Manfrin de Oliveira, professor do Programa de Pós-Graduação em Gestão Ambiental na Universidade Positivo, especializado em estatística aplicada, métodos quantitativos e inteligência artificial para modelagem de processos socioambientais. Ele possui formação em Engenharia Elétrica (UFPR, 2013), mestrado em Engenharia de Produção (UFPR, 2015) e doutorado em Engenharia Elétrica com ênfase em Telecomunicações (UFPR, 2018), além de especialização em Psicologia Positiva e Ciência do Bem-Estar (PUC-RS, 2020).

Para Guilherme, as “redes sociais hoje funcionam como cassinos digitais, projetados por engenheiros e neurocientistas para sequestrar a nossa atenção através do desbalanço constante de dopamina. Essa busca por gratificação instantânea não afeta apenas os jovens; adultos e idosos também se tornaram reféns desse mecanismo. O vício é tão severo que transcende a tela e gera impactos físicos tragicamente reais, como motoristas que checam notificações no trânsito e provocam acidentes fatais. Entramos em um estado de insatisfação crônica, em que a promessa de recompensa do próximo clique nos impede de nos sentirmos satisfeitos com o momento presente”.

O professor Guilherme reforça que “esse ciclo atinge o seu auge no doom scrolling: a rolagem compulsiva de conteúdos na qual consumimos centenas de vídeos sem fixar absolutamente nada. A ironia é que a própria essência social dessas redes foi destruída: é triste ver pessoas que saem teoricamente para conviver, mas passam o tempo todo olhando para seus próprios celulares. Deixamos de nos conectar com amigos e conhecidos para consumir passivamente páginas de estranhos e criadores de conteúdo. Ao eliminar o tédio e o convívio real, perdemos a criatividade e a reflexão; a própria linguagem e a cultura acabam pasteurizadas, reduzidas a memes e tendências do momento”.

Essa “dependência de estímulos rápidos destruiu a nossa capacidade de concentração e é devastadora para a produtividade”.

No ambiente de trabalho, as interrupções constantes para checar notificações fragmentam o foco, fazendo com que profissionais levem muito mais tempo e gastem muito mais energia para concluir tarefas simples. O cérebro, “acostumado ao dinamismo acelerado das telas, perde a capacidade de manter a atenção sustentada, tornando a leitura de um documento longo, o estudo ou o acompanhamento de uma aula um sacrifício hercúleo”.

A complexidade do mundo foi reduzida a cortes rápidos e polarização, criando uma sociedade que confunde a distração contínua com informação.

Ainda, para o pesquisador da UP, no campo emocional, “as redes criaram um mercado implacável de aparências pautado pela inveja e pela vaidade. Somos expostos diariamente a recortes filtrados das vidas mais ricas e bonitas do planeta, alimentando uma sensação contínua de inadequação. A autoestima passou a ser mediada por métricas frias: se o engajamento sobe, alimenta-se o narcisismo; se cai, surgem a ansiedade, a depressão e a dismorfia corporal”.

O reflexo mais sombrio desse ecossistema é a “hipersexualização precoce, que vai muito além dos predadores virtuais”. O fenômeno começa cedo com as “Sephora Kids” — pré-adolescentes focadas em rotinas adultas de maquiagem e cuidados com a pele —, “mas avança para a adoção deliberada de poses, roupas e atitudes sensuais desde a infância”.

“Mesmo fora de situações criminosas, tornou-se comum ver adolescentes postando fotos altamente reveladoras em plataformas como o Instagram para validar seu valor estético, em uma esteira cultural que prepara o terreno e normaliza a migração futura para redes abertamente voltadas à erotização paga, como o OnlyFans”.

Para o entrevistado, fica claro que não se trata de falta de disciplina individual, mas de um modelo de negócios multibilionário que lucra ao hackear nossas vulnerabilidades biológicas.

Proteger a “sociedade dessa engrenagem exige mais do que impor limites de tela: exige resgatar o valor da atenção profunda, das conexões reais e do direito de viver fora da pressão de performar para um algoritmo”.

Foto da Entrevistada: Fabiana Aparecida Vilaça
Foto da Entrevistada: Fabiana Aparecida Vilaça Arquivo Pessoal da Entrevistada Fabiana Aparecida Vilaça

A segunda entrevistada é Fabiana Aparecida Vilaça, pesquisadora e professora permanente nos Programas de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática (ECM); e em Ensino de Ciências (EC), na Universidade Cruzeiro do Sul (UCS). Tem pós-doutorado em Ensino de Ciências; doutorado em Ensino de Ciências e Matemática; e mestrado em Ensino de Ciências (pela UCS). É bióloga citologista, com 27 anos de experiência em laboratórios de Anatomia Patológica e Citopatologia, atuando na prevenção e diagnóstico precoce do câncer ginecológico.

Para Fabiana, a hiperconectividade, caracterizada pelo acesso constante a dispositivos digitais e redes sociais, conforme defende Pietrocola (2019), trouxe mudanças significativas para as relações interpessoais da sociedade atual, tornando-se um tema amplamente discutido, principalmente no que diz respeito ao debate entre os malefícios e benefícios que o excesso de informações, múltiplas conexões e tempo gasto nos dispositivos e ambientes digitais causa.

Segundo a professora, “as redes sociais, como o Instagram, LinkedIn, WhatsApp e Facebook, quando utilizadas de maneira correta e organizada, podem auxiliar no processo de divulgação do trabalho dos indivíduos, trazendo benefícios, inclusive, financeiros, além de otimizar o tempo e proporcionar aprendizagem contínua”.

O grande diferencial dos hiperconectados, em relação a outros tipos de pessoas, é que eles utilizam os recursos digitais para obter sucesso e alavancar a divulgação pessoal e de seus serviços nas redes sociais.

Entretanto, “é preciso focar em um tema específico, como saúde e divulgação científica, por exemplo, e então gerir a imagem que deseja transmitir na internet para conquistar o seu público-alvo; e definir metas, inclusive, de tempo gasto com as postagens e respostas às mensagens recebidas”.

A pesquisadora ainda afirma: “Particularmente, o uso contínuo da internet levou a uma mudança, para melhor, muito importante em minha carreira, ampliando a procura pelos meus cursos, além de convites recebidos para palestras e propostas de trabalho. Sou bióloga e professora e, em 2020, com a pandemia de Covid-19, tinha a preocupação de ajudar a população, levando informações corretas sobre o SARS-COV-2; a patogênese da doença, vacinas e índices epidemiológicos. Eu ficava atenta às publicações científicas; traduzia, tanto para o português quanto para uma linguagem acessível ao público em geral, e fazia postagens em meu Instagram; e rapidamente passei de 600 seguidores para mais de 10 mil”.

Fabiana finaliza: “Hoje, mesmo sem o título de influenciadora, mas com muito orgulho de fazer divulgação científica, tenho cerca de 30 mil seguidores em meu Instagram; e acredito que as redes sociais e os dispositivos digitais possuem muitos pontos positivos, além de constituírem uma ferramenta fundamental para o ensino e aprendizagem das novas gerações, o que, para mim, como docente, é uma arma poderosa”.

Prof. Dr. Juliano Schimiguel

Tem doutorado e mestrado em Ciência da Computação pelo Instituto de Computação da Unicamp. É coordenador do mestrado profissional em Ensino de Ciências e Matemática pela Universidade Cruzeiro do Sul (São Paulo, SP). Pesquisador permanente nos PPG ECM e EC. É docente na Unianchieta (Jundiaí/SP) e editor-chefe da Revista Ubiquidade.

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