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Governo reconhece racionamento e paulistas enfrentam segundo ano de torneira seca  

Com nível dos reservatórios baixo, nem chuvas acima da média garantiram segurança hídrica 

São Paulo|Do R7

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Situação das represas do Cantareira em 2/09/12, 16/01/15 e 13/08/15
Situação das represas do Cantareira em 2/09/12, 16/01/15 e 13/08/15

No segundo ano de crise hídrica em São Paulo, alguns hábitos que os paulistas precisaram adquirir em 2014, quando os reservatórios começaram a atingir níveis baixos de armazenamento, passaram a fazer parte da rotina de todos. Com torneiras secas, a população precisou focar ainda mais na economia de água em 2015.

Já no início do ano, o governador Geraldo Alckmin admitiu, pela primeira vez, que São Paulo enfrentava um racionamento de água há vários meses. No dia 14 de janeiro, Alckmin mudou o discurso. Até então, o governo sempre negou qualquer tipo de restrição do abastecimento hídrico.


— O racionamento já existe. Quando a ANA [Agência Nacional de Águas] diz que você tem que reduzir de 33 [metros cúbicos] para 17 no Cantareira, é óbvio que você já está em restrição.

No mesmo dia, a Sabesp (Companhia Estadual de Saneamento Básico) admitiu em documento publicado em seu site que realizava e havia intensificado, em toda a Grande São Paulo, redução de pressão de água. A medida foi tomada pela companhia no início da crise hídrica no Estado. O órgão reconhecia que as localidades mais altas e longe dos reservatórios são as que mais sofrem com a medida, que pode causar falta de água.


Foi o que aconteceu em diversos locais. A dona de casa Sônia Regina dos Santos Zotto, 54 anos, moradora da Freguesia do Ó, na zona norte, por exemplo, sofreu com os cortes no fornecimento de água logo no início do ano. Ela conta que chegou a ficar mais de 48h com as torneiras secas. Quando a crise começou a se agravar, o abastecimento passou a ser suspenso a partir das 16h e só era normalizado na manhã do dia seguinte, por volta das 7h, segundo relata Sônia.

— Agora, o início é às 13h, e água costuma chegar às 9h, 9h30. Se você não levantar cedo, fica sem lavar roupa.


O mesmo aconteceu com moradores de outras regiões do Estado. Sem água nas torneiras durante dias, os moradores de Guarulhos, na Grande São Paulo, chegaram a usar da água da chuva para tomar banho e cozinhar. No ABC Paulista, a população recebeu um comunicado falando sobre a possibilidade de um rodízio no verão, caso a situação dos reservatórios não melhore.

Em Araras, no interior de São Paulo, a falta de água — que costumava ser de 12 horas — chegou a afetar os moradores por 36 horas.


Rodízio e melhoria

Ainda em janeiro, o diretor metropolitano da Sabesp, Paulo Massato, informou que a companhia ia ampliar o período de redução de pressão nas tubulações que atendem à região metropolitana de São Paulo.

— Estamos deixando de fazer operação só noturna para fazer também a diurna. Isso atinge toda a região metropolitana.

Com redução de pressão e o nível dos reservatórios cada vez mais baixo, nem as chuvas acima da média do início do ano garantiram segurança hídrica ao Estado e especialistas avaliam que não há sinais de que a situação seja revertida no curto prazo.

Tanto que a discussão sobre rodizio em São Paulo se intensificou em 2015. Palavra “proibida” no início da crise hídrica, o racionamento foi mencionado por Paulo Massato. O diretor chegou a afirmar que era possível chegar a um rodízio "drástico" na região metropolitana de São Paulo.

— Para fazer rodízio, teria que ser muito pesado, muito drástico. Para ganhar mais do que já economizamos hoje, seriam necessários dois dias com água e cinco dias sem água.

No entanto, a medida nunca foi colocada em prática pela Sabesp, que sempre negou ter a intenção de realizar um racionamento de água. Além disso, a situação dos reservatórios melhorou um pouco no segundo semetre. De acordo com a Sabesp, "o mês de setembro de 2015 foi o primeiro desde o início da crise hídrica em que os sistemas que abastecem a Grande São Paulo têm mais água armazenada do que um ano antes". Segundo a companhia, no dia 24 de setembro, o volume disponível nos seis principais sistemas era de 150,5 bilhões de litros. Em 24 de setembro de 2014, a soma era de 146,7 bilhões de litros.

Ainda de acordo com o texto, "a conta exclui as reservas técnicas, já que essa água fica abaixo do nível normal de captação e só está sendo utilizada neste momento de crise. Se o volume das reservas for contado, a Grande SP tinha 491,1 bilhões de litros disponíveis no último dia 24".

Apesar da melhora, a companhia declara que a situação ainda é preocupante e que "a falta recorde de chuvas, que transformou 2014 no pior ano da história, não teve grande evolução em 2015. Este ano teve o inverno mais chuvoso desde 2009, mas parte da água foi absorvida pelo solo, que está muito seco". 

Planos e medidas

No fim do ano, o Comitê para Gestão da Crise Hídrica apresentou versão definitiva do Plano de Contingência para o Abastecimento de Água da Região Metropolitana de São Paulo. O documento prevê três níveis de atuação em situações de estiagem – Atenção, Alerta e Emergência –, cada uma com diretrizes e especificidades próprias com ação que devem ser adotadas por órgãos municipais e estaduais, assim como entidades da sociedade civil.

Além disso, a Sabesp informou, em nota, que “a pior seca da história do Sistema Cantareira e a falta de chuvas que também afetou outros sistemas da Grande São Paulo fizeram com que a Sabesp adotasse uma série de medidas rápidas para garantir o abastecimento da população”. O trabalho para enfrentar a crise foi dividido em três tipos de medidas: redução da retirada de água das represas — para isso, a companhia implantou o bônus na conta para quem diminui o consumo, a sobretaxa para quem aumenta o gasto e as ações de controle de perdas, que incluem a redução de pressão; novas entradas de água nas represas – obras para novas captações e uso das reservas técnicas no Cantareira; e avanço de sistemas para socorrer o Cantareira — fazer com que os moradores que eram atendidos por ele passassem a receber água de outros sistemas.

A Sabesp listou também as obras emergenciais que vem realizando para aumentar a oferta de água. Ao todo, a companhia lista 34 ações, sendo as principais as seguintes: captação de água no rio Guaió para o Sistema Alto Tietê; interligação entre o Sistema Rio Grande, no ABC Paulista, e a Represa Taiaçupeba; aumento da captação no rio Guaratuba, na região de Biritiba-Mirim para levar a água desse rio até a represa Ponte Nova, no Sistema Alto Tietê.

Para o futuro, a companhia destaca a construção do Novo Sistema Produtor São Lourenço, que está sendo construído por PPP e que vai trazer água para a Grande São Paulo. Serão 4.700 litros por segundo, captados da represa Cachoeira do França, na região de Ibiúna. Essa vazão é suficiente para abastecer cerca de 1,5 milhão de pessoas nas cidades de Barueri, Carapicuíba, Cotia, Itapevi, Jandira, Santana de Parnaíba e Vargem Grande Paulista. A obra está prevista para ser entregue em outubro de 2017.

Além disso, prevista para ser entregue em abril de 2017, há a interligação Atibainha-Jaguari, uma obra que vai beneficiar tanto a Grande São Paulo quanto o Vale do Paraíba. Trata-se da conexão entre duas represas de bacias diferentes: a Atibainha, que pertence ao Sistema Cantareira, e a Jaguari, que fica na cidade de Igaratá e pertence à bacia do rio Paraíba do Sul. Com a obra, uma média de 5.100 litros por segundo de água será bombeada da Jaguari para a Atibainha. Essa medida vai elevar o nível do Sistema Cantareira e fará também o bombeamento no sentido contrário, para ajudar o Vale do Paraíba.

Ainda em fase de projeto e licenciamento, a Sabesp destaca também a nova captação no rio Itapanhaú, que permitirá transferir 2.500 litros por segundo do rio para a represa Biritiba, que pertence ao Sistema Alto Tietê. 

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