Logo R7.com
RecordPlus
R7 Brasília

Feminicídios crescem no início do ano e desafiam políticas de proteção às mulheres

Redes sociais, misoginia e falhas institucionais impulsionam alta de feminicídios, dizem especialistas

Brasília|Bruna Pauxis, do R7, em Brasília

  • Google News

LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Feminicídios no Brasil aumentaram 7% nos três primeiros meses de 2026, totalizando 399 casos.
  • Especialistas destacam que a melhora na investigação e na notificação de crimes contribui para o aumento dos registros.
  • Sugestões incluem expandir delegacias especializadas, garantir atendimento 24 horas e qualificar as forças policiais.
  • Cultura misógina nas redes sociais agrava a violência, sendo necessária uma abordagem coletiva para enfrentar o problema.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Nos três primeiros meses de 2026, 399 mulheres foram vítimas de feminicídio Marcelo Camargo/Agência Brasil - Arquivo

O Brasil registrou recorde de feminicídios em 2025 e segue em trajetória de alta em 2026. Nos três primeiros meses deste ano, o número de mulheres assassinadas em razão do gênero cresceu 7% em relação ao mesmo período do ano passado.

Em média, quatro mulheres são vítimas de feminicídio por dia no país. Segundo dados do Sinesp (Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública), de janeiro a março deste ano, 399 mulheres foram mortas em função do gênero, ao passo que o primeiro trimestre do ano passado registrou 371 episódios de feminicídio.


Leia Mais

Para a secretária nacional de Enfrentamento à Violência Contra as Mulheres do Ministério das Mulheres, Estela Bezerra, os casos de feminicídio no Brasil sempre representaram um fenômeno expressivo, mas eram subnotificados antes da tipificação do crime em 2015. Segundo ela, o crescimento recente nos registros reflete, sobretudo, uma melhora na forma como o país investiga e reconhece essas mortes.

Apesar disso, ela defende ser fundamental expandir delegacias especializadas no atendimento a mulheres para que funcionem 24 horas, além de ampliar outros equipamentos públicos, como varas de violência doméstica, casas abrigo e a Casa da Mulher Brasileira.


“As delegacias das mulheres precisam de expansão. Elas estão subdimensionadas. Isso é uma ação dos estados. Os estados precisam, e eles hoje têm a obrigação, de investir de 5% a 10% do Fundo Nacional de Segurança Pública em estratégias de enfrentamento à violência contra as mulheres”, comenta.

A gente precisa de expansão e de funcionamento 24 horas. Nós identificamos que a Delegacia da Mulher é extremamente necessária e é um dos equipamentos mais importantes no enfrentamento à violência contra a mulher, mas nós temos, hoje, ela subdimensionada. A gente precisa ampliá-la. Não é possível que, [entre os] municípios que têm mais de 500 mil habitantes, ainda tenha 2% dos municípios que não tenham delegacia especializada das mulheres. Nem em municípios médios, que têm de 100 mil a 500 mil habitantes, [não é possível] que 9% desses municípios não tenham Delegacia da Mulher. Todos precisam ter. Todas as delegacias especializadas das mulheres precisam funcionar 24 horas.

(Estela Bezerra, secretária nacional de Enfrentamento à Violência Contra as Mulheres do Ministério das Mulheres,)

Na avaliação da secretária, as forças policiais precisam ser qualificadas para prestar um atendimento humanizado e nivelado em direitos humanos e equidade de gênero. Além disso, para ela, corregedorias permanentes devem punir e afastar policiais que cometem agressões dentro de casa ou são coniventes com a violência.


“Nós temos contradições, e essas contradições não podem permanecer. As forças policiais não podem ter a contradição de ter um policial que é operador de segurança pública na rua e, dentro de casa, ele é uma ameaça para sua própria família, ou reproduzir a falta de sensibilidade, de atendimento humanizado para aquelas mulheres que estão em situação de violência”, opina.

“Há um desafio muito grande de formar e elevar, qualificar o perfil da força militar em todo o Brasil, o que não quer dizer que não exista, na força militar, qualificação, pessoas que tenham formação adequada. Em vários lugares, [há] academias de formação que tratam do tema dos direitos humanos, que tratam do tema da equidade de gênero, mas isso não é nivelado para cima. Isso ainda é um desafio no Brasil”, completa Bezerra.


Segundo a secretária, a violência não pode ser naturalizada ou acobertada pelas instituições. Ela afirma que o agressor deve ser responsabilizado para que “a vergonha mude de lado”.

A vergonha tem que mudar de lado. Não pode ser vergonha para as mulheres serem vítimas de violência. Deve ser vergonha para o agressor ser um covarde, agressor de mulheres. Esse é um aspecto institucional, mas ele é também individual. Não se pode presenciar ou assistir à violência contra as mulheres como se isso fosse naturalizado. Desmistificar a naturalização é uma responsabilidade de todas as instituições, mas também uma atitude das pessoas.

(Estela Bezerra, secretária nacional de Enfrentamento à Violência Contra as Mulheres do Ministério das Mulheres,)

Lei do Feminicídio

Os esforços para criar ferramentas de combate ao feminicídio tentam compensar a criação tardia da lei que tipifica o crime. Com pouco mais de dez anos de existência, o texto finalmente diferenciou os assassinatos concretizados por questões de gênero. Professora da Faculdade de Direito da Universidade de Brasília, Janaína Penalva aponta que, diante de um crime tão complexo, apenas a legislação ainda é insuficiente.

“A lei penal não tem nenhum papel pedagógico. Ela apenas pune o indivíduo na medida de sua responsabilidade pelo ato. O que a trouxe de positivo foi permitir que seja a produção de estatísticas e, consequentemente, a maior visibilidade para a matança de mulheres”, defende.

Para Penalva, as medidas existentes de proteção de vítimas de violência acabam atribuindo toda a responsabilidade à mulher em perigo. “São necessárias condições para mobilizar a polícia. Ela [a vítima] não pode ser a única responsável pela sua própria proteção. Há filhos, rotinas, outros familiares, dinheiro e outras variáveis que precisam ser cuidadas para que a segurança seja feita de forma plena”, destaca.

Sendo assim, a professora diz “não apostar” em novas leis penais, mas em campanhas de comunicação e em investimento público na construção de mais equipamentos de cuidado e capacitação da polícia.

“Aposto na responsabilização coletiva sobre o que acontece com a mulher em situação de violência que mora ao seu lado, no apoio das famílias das mulheres e na reparação dos danos”, enfatiza.

Essa visão sobre o feminicídio como um fenômeno de responsabilidade de toda a sociedade é amparada, também, pela visão da psicóloga forense Arielle Sagrillo, que diz que os índices de violência estão enraizados em fatores sociais, culturais e institucionais. Ela alerta para aspectos como persistência das desigualdades de gênero, naturalização da violência contra as mulheres e impunidade institucional.

“Cada caso de feminicídio comunica uma mensagem de medo, controle e silenciamento para outras mulheres. Isso afeta a sensação de segurança, a saúde mental e até a forma como mulheres ocupam espaços públicos e privados”, alerta.

“O feminicídio nunca é um fenômeno restrito ao ‘núcleo’ da vítima. Embora ele produza, de modo último, um impacto direto na vítima, há impactos psicológicos profundos nas famílias e pessoas próximas (ou não). Ou seja, suas consequências são coletivas e sociais”, acrescenta.

A “espiral da violência”

Para a psicóloga, o feminicídio é o estágio final de um processo chamado de “espiral da violência”, que ocorre principalmente quando uma relação é marcada por agressões progressivas.

Segundo Sagrillo, isso significa que o feminicídio raramente é um evento súbito, imprevisível ou isolado, mas sim o ponto extremo de um processo contínuo de violência.

Na grande maioria dos casos de feminicídio, a morte não ocorre de forma súbita ou isolada, mas é precedida por uma escalada de comportamentos violentos: controle, ciúme excessivo, isolamento social, humilhações, ameaças, violência psicológica, violência patrimonial e agressões físicas. Essa escalada costuma obedecer a uma lógica cíclica, intercalando períodos de tensão e lua de mel com as agressões. Com o tempo, os episódios tendem a se intensificar em frequência e gravidade. Por isso, é fundamental compreender que o feminicídio costuma ser o ponto extremo de um processo contínuo de violência, e não um evento imprevisível ou desvinculado de sinais anteriores.

(Arielle Sagrillo, psicóloga forense)

Sagrilo alerta para o forte papel agravante dos discursos misóginos disseminados nas redes sociais, como a chamada cultura “redpill”. Esses movimentos ajudam a impulsionar a violência ao difundir narrativas que culpam as mulheres, romantizam relações de poder desiguais e incentivam o ressentimento masculino.

“Embora nem todo homem que consome esse conteúdo se torne violento, a circulação massiva dessas ideias pode fortalecer ambientes de intolerância, justificar comportamentos abusivos e dificultar o reconhecimento da violência.”

Para ela, o cuidado psicológico não pode ser tratado como um recurso secundário, devendo ser o núcleo central da rede de enfrentamento. É preciso garantir atendimento contínuo por equipes capacitadas, oferecendo um acolhimento que considere as graves consequências do trauma e evite a revitimização das vítimas diretas e indiretas.

“O Brasil avançou na criação de mecanismos de proteção, especialmente após a Lei Maria da Penha, mas ainda existem lacunas importantes no suporte psicológico oferecido às vítimas diretas ou indiretas das tentativas de feminicídio ou de feminicídio consumado. Em muitas cidades, os serviços especializados são insuficientes, sobrecarregados ou de difícil acesso. Além disso, o acolhimento nem sempre ocorre de maneira qualificada e livre de revitimização”, analisa.

Search Box

Fique por dentro das principais notícias do dia no Brasil e no mundo. Siga o canal do R7, o portal de notícias da RECORD, no WhatsApp

Últimas


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.