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Medidas recíprocas entre Brasil e EUA podem travar cooperação policial e buscas por foragidos

Decisão baseada no princípio da reciprocidade pode frear troca de informações e afetar operações conjuntas entre os países

Brasília|Mariana Saraiva, do R7, em Brasília

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Brasil retira credenciais de agente norte-americano em resposta à expulsão de delegado da PF pelos EUA.
  • Medidas recíprocas podem prejudicar a cooperação policial e dificultar a localização de foragidos.
  • A desconfiança entre os países pode se acentuar, afetando a agilidade em processos de inteligência e investigações.
  • Especialistas afirmam que a relação entre Brasil e EUA é sólida, mas episódios como este podem introduzir ruídos e desafios.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Após decisão de Andrei Rodrigues, medida pode dificultar cooperação policial entre Brasil e EUA Marcelo Camargo/Agência Brasil - 14.11.2024

O Brasil recorreu ao princípio da reciprocidade após o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, retirar as credenciais de acesso de um agente de imigração norte-americano que atua no país. A decisão veio depois de os Estados Unidos expulsarem o delegado da PF Marcelo Ivo de Carvalho, sob a alegação de envolvimento na prisão do ex-deputado federal Alexandre Ramagem.

Especialistas ouvidos pelo R7 avaliam que medidas recíprocas entre Brasil e EUA podem comprometer a cooperação policial e dificultar a localização de foragidos. Segundo eles, a ação tende a reduzir a fluidez em áreas nas quais rapidez e confiança informal são essenciais, como intercâmbio de inteligência, deportações e investigações transnacionais.


Para o internacionalista João Alfredo Nyegray, os efeitos imediatos da medida são operacionais e políticos. “No plano operacional, a cooperação policial e migratória se torna mais lenta, mais formalista e mais desconfiada. Sem as credenciais, o agente americano perde acesso à unidade onde atuava e aos bancos de dados usados na cooperação. Isso afeta diretamente a agilidade em processos sensíveis”, explica.

No campo político, Nyegray aponta um aumento da desconfiança entre os países. Segundo ele, Washington passa a interpretar ações institucionais brasileiras sob um viés ideológico, enquanto Brasília vê esse movimento como ingerência sobre sua soberania judicial e policial. “No longo prazo, o maior impacto pode ser a corrosão da confiança entre burocracias estatais, que são fundamentais para o funcionamento das relações bilaterais”, afirma.


A advogada especializada em direito internacional Priscila Turchetto pondera que episódios como esse fazem parte da dinâmica diplomática. “Há desconforto e sinalização política, mas dificilmente ocorre ruptura. A relação entre Brasil e Estados Unidos é sólida, construída ao longo de décadas e baseada em interesses comuns. No curto prazo, pode haver ruído, mas tende a ser absorvido”, diz.

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Disputa política

Para Nyegray, quando agentes de ligação passam a ser envolvidos em disputas políticas, os canais de cooperação deixam de operar com naturalidade. “A consequência não é necessariamente uma ruptura, mas uma cooperação mais restritiva: mais burocracia, menos discricionariedade e maior receio de repercussão política”, avalia.


Ele também destaca um impacto na narrativa pública da relação bilateral. “Quando os EUA sugerem que houve ‘manipulação’ do sistema migratório, colocam em dúvida a neutralidade institucional brasileira. Ao responder com reciprocidade, o Brasil sinaliza que considera a acusação inaceitável”, explica.

Caso esse padrão se repita, o especialista alerta para um risco maior: a transformação de divergências pontuais em desconfiança estrutural. “Esse é o tipo de dano mais difícil de reparar, porque envolve credibilidade estatal, não apenas normas ou protocolos”, afirma.


Precedentes

Segundo Nyegray, há precedentes recentes que ajudam a contextualizar o episódio. Um deles foi a revogação do visto do comentarista americano Darren Beattie pelo governo brasileiro, em 2026, também sob justificativa de reciprocidade. Outro exemplo foi a retomada da exigência de visto para cidadãos dos EUA, Canadá e Austrália a partir de 2025. “Nem toda reciprocidade gera crise aberta. Em muitos casos, o efeito é mais administrativo e político do que propriamente diplomático”, diz.

Priscila Turchetto cita ainda exemplos internacionais, como as expulsões recíprocas de diplomatas entre Rússia e países ocidentais após a invasão da Ucrânia, em 2022. “Mesmo em contextos mais sensíveis, esse tipo de medida costuma funcionar mais como sinalização política do que como ruptura definitiva”, conclui.

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