'Não quero transformar as pessoas do ministério em suspeitas', diz ministro da Defesa
José Múcio Monteiro afirma ainda que as 'Forças Armadas desejam que absolutamente tudo seja esclarecido'
Brasília|Plínio Aguiar, do R7 em Brasília

O ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, disse nesta quarta-feira (23) que não pode suspeitar de todos os funcionários do ministério em relação aos supostos encontros entre o hacker Walter Delgatti Neto e militares no ano passado. A declaração foi feita após um encontro com o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.
"Varredura no sistema? Fizemos. Não existem imagens nas câmeras, porque tem prazo de duração. Não existe nenhum registro. Por isso estamos insistindo e pedimos à PF que nos desse um nome para, a partir daí, fazer uma sequência de investigações. Mas nós não temos ainda. Também não quero transformar todas as pessoas do Ministério da Defesa em suspeitas. Cria um clima desagradável de trabalho. Mas, desde que tenhamos um primeiro nome, nós vamos fazer as investigações", disse Múcio.
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Questionado sobre a reação das Forças Armadas ao episódio, o ministro falou em ambiente de "tranquilidade". "As Forças Armadas desejam que absolutamente tudo seja esclarecido. Posso garantir que o ambiente nos quartéis é de absoluta tranquilidade. Tem-se consciência de que nós precisamos colaborar com as investigações. Precisamos separar o joio do trigo", completou.
Após ter pedido o apoio da PF para investigar eventuais reuniões entre hackers e militares, o ministro da Defesa se reuniu mais cedo com o ministro Flávio Dino, titular da Justiça e Segurança Pública. À tarde, ele se encontrou com o diretor-geral da corporação para tratar do tema. A PF enviou um ofício a Múcio para informar que a investigação corre em sigilo e que o pedido deve ser encaminhado ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, relator do caso.
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Na chegada ao ministério, Dino comentou a reunião. "Nós estamos sempre buscando esse diálogo com as instituições militares, porque há uma atuação complementar entre segurança pública e as Forças Armadas. Há, evidentemente, neste momento, uma busca, um redimensionamento da relação entre o poder civil e as instituições militares, porque o que aconteceu nos anos recentes trouxe consequências muito graves", afirmou.
"Por isso mesmo é necessário ter esse duplo trilho. De um lado, você cuida do redimensionamento, do reposicionamento; do outro, você apura o que aconteceu de errado no passado. Então, a agenda com o Ministério da Defesa é normal, é natural, é semanal", disse o ministro.
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Depoimento
Em depoimento à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do 8 de Janeiro, o hacker Walter Delgatti Neto afirmou que foi ao prédio do Ministério da Defesa cinco vezes, que a ordem partiu do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e que o objetivo era pôr em prática o plano de divulgar à população informações falsas sobre o sistema eleitoral brasileiro.
Delgatti Neto contou que a ordem de Bolsonaro foi repassada ao assessor especial Marcelo Câmara. Segundo o hacker, a ideia de questionar a segurança do sistema eleitoral era falar da "lisura das urnas e das eleições". "O presidente disse: 'A parte técnica eu não entendo, vou te enviar ao Ministério da Defesa'", afirmou ele à CPMI.
O hacker disse que, nas idas ao ministério, foi recebido pelo ex-ministro Paulo Sérgio Nogueira e que se encontrou com a equipe técnica da pasta. Ele afirmou ainda que passou orientações a respeito do relatório feito pela pasta sobre o sistema de votação. "Posso dizer que, de forma integral, aquele relatório tem exatamente o que eu disse", ressaltou Delgatti Neto.
Ainda durante o depoimento à CPMI, o hacker afirmou que Bolsonaro teria pedido a ele que fraudasse uma urna, com o objetivo de pôr em dúvida o processo eleitoral. O marqueteiro do ex-chefe do Executivo federal, Duda Lima, teria então o aconselhado a criar um "código-fonte falso" para mostrar a possibilidade de se invadir uma urna e fraudar as eleições.
Delgatti Neto afirmou também que Bolsonaro lhe ofereceu um indulto caso ele assumisse ter grampeado o ministro Alexandre de Moraes, do STF. A defesa do ex-presidente disse que vai entrar com uma queixa-crime contra o hacker, sob a alegação de calúnia e difamação. Nas redes sociais, o advogado do ex-presidente, Fabio Wajngarten, negou a existência do grampo ou "qualquer atividade ilegal". "Mente e mente", declarou.

































