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Restrições ao Discord são medida acertada, mas não resolvem violência, dizem especialistas

Plataforma já havia suspendido recursos de vídeo e compartilhamento de tela, mas recorreu da decisão nesta segunda

Brasília|Débora Sobreira*, do R7, em Brasília

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Especialistas consideram a suspensão de recursos de vídeo no Discord uma medida preventiva, mas afirmam que o combate à violência online precisa incluir educação digital.
  • Laerte Peotta, da UnB, destaca a necessidade de responsabilidade compartilhada entre família, Estado e empresas, além de medidas de fiscalização e transparência.
  • O caso de uma adolescente de 13 anos, cuja morte foi transmitida no Discord, levou à suspensão temporária de transmissões ao vivo pela ANPD.
  • O Discord enfrenta desafios na verificação de idade dos usuários e na proteção da privacidade, enquanto especialistas alertam sobre a dessensibilização à violência entre jovens.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Regulamentação deve combinar postura ativa da empresa e fiscalização estatal Juca Varella/Agência Brasil - Arquivo

A suspensão de recursos de vídeo no Discord após a morte de uma adolescente de 13 anos, transmitida em um servidor da plataforma, é vista por especialistas ouvidos pelo R7 como uma medida preventiva para conter a violência organizada contra crianças e adolescentes na internet. Para eles, porém, o combate a esse tipo de crime precisa ir além da retirada de funcionalidades e incluir também investimentos em educação digital.

Laerte Peotta, professor do Departamento de Engenharia Elétrica na UnB (Universidade de Brasília) e pesquisador de Cibersegurança, ressalta que existe uma responsabilidade compartilhada, mas não igual, entre família, Estado e empresa, e sinaliza algumas medidas que considera essenciais para coibir a violência na plataforma: prosseguimento das ações de fiscalização definidas pelo poder público e tomada de ação e transparência por parte das empresas que gerem as plataformas.


“Quanto maior o risco de uma funcionalidade qualquer, maior deve ser o nível de proteção. Isso pode envolver uma série de fatores, como configurações mais restritivas para menores de idade, uma limitação de contato entre adultos e crianças, controle de transmissões ao vivo e um canal de denúncia”, complementa.

Na visão de Peotta, a regulamentação deve se pautar em uma postura ativa da empresa responsável e em uma fiscalização estatal que não comprometa o direito à privacidade.


“Regular não significa ler tudo o que está sendo dito, mas sim estabelecer as responsabilidades para quem projeta esses ambientes digitais; precisamos preservar os direitos fundamentais de privacidade e sigilo de informações. Por isso, considero mais adequado exigir das plataformas uma gestão de risco com transparência.”

O professor também ressalta a importância de os próprios jovens serem agentes ativos no combate à violência, já que muitas vezes o mundo digital funciona como um ambiente inalcançável para os pais e responsáveis: “Precisamos conversar com as crianças e ensiná-las a reconhecer sinais de manipulação, chantagens e comportamentos abusivos”.


Discord recorreu de suspensão

Na semana passada, a ANPD (Agência Nacional de Proteção de Dados) determinou a suspensão das transmissões ao vivo e de outras ferramentas de compartilhamento de vídeo do Discord no Brasil.

A decisão havia sido acatada pela plataforma no dia 17, mas foi contestada nesta segunda-feira (24) e está sob análise pela agência.


O motivo da medida foi o caso de Lívia, de 13 anos, que teve a morte transmitida em um servidor do Discord após ser induzida ao autoextermínio por um grupo de jovens.

A investigação incluiu ações conjuntas entre a ANPD, a AGU (Advocacia-Geral da União) e a polícia do Mato Grosso do Sul, estado onde a menina residia.

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Migração da violência

O Discord não é o único aplicativo operante no Brasil que conta com dinâmicas de servidores fechados; além disso, pode até mesmo ser entendido como uma plataforma de nicho, sendo mais acessada pelo público jovem e conhecida principalmente por transmissões de jogos online.

No Brasil, o aplicativo concentrou grupos criminosos responsáveis por arquitetar episódios de violência extrema. O professor do Departamento de Engenharia Elétrica na UnB (Universidade de Brasília) e pesquisador de cibersegurança, Laerte Peotta de Melo, aponta para o risco de o modus operandi de violência no Discord ser levado a outros espaços.

“Quando aumentamos a dificuldade de uma atividade criminosa em uma plataforma, os alvos podem simplesmente procurar outro ambiente. Eles podem migrar de uma grande plataforma, com estrutura de segurança mais robusta, para plataformas menores ou com comunidades mais fechadas”, diz.

Ele explica que a estratégia é conhecida como efeito de deslocamento, processo no qual criminosos mudam alvos e táticas à medida em que passam a enfrentar mais barreiras por parte da plataforma.

Desafios na fiscalização

Em fevereiro deste ano, o Discord anunciou medidas de restrição de idade para acessar o aplicativo. Agora, crianças acima de 13 anos precisam comprovar a idade para ter acesso a certas configurações. O grande desafio, diz Peotta, é que políticas de fiscalização são dribláveis e esbarram em violações de privacidade.

“Uma pessoa pode informar que tem 15 anos quando, na verdade, tem 30. Mas, se exigirmos documentos de identidade de todos os usuários, podemos criar bases enormes de informações sensíveis, que podem ser alvo de vazamento de dados”, ressalta.

Com isso, é criado um dilema: como a gente comprova que uma pessoa pertence a uma determinada faixa etária sem criar um risco direto à privacidade? Esse é um dos desafios técnicos que o Estado e a plataforma têm que enfrentar."

Proteção adaptada à realidade

A pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025 aponta que, no ano passado, 92% dos brasileiros entre 9 e 17 anos acessavam a internet, um total aproximado de 24 milhões de jovens.

Segundo o mesmo levantamento, em um período de nove anos, o número de crianças cujo primeiro acesso à internet se deu até os 6 anos quase triplicou; passou de 10% em 2016 para 28% em 2025.

Para a professora de Psicologia do CEUB Michelle Andrade, não há mais como falar sobre socialização infantil e adolescente sem incluir os espaços digitais na equação. Dessa forma, as estratégias de proteção devem ser criadas com esse cenário em mente.

“O Discord oferece experiências positivas de convivência, pertencimento, aprendizagem e lazer, sobretudo por meio dos jogos. O problema está na combinação de servidores privados, comunicação por voz e vídeo, perfis que podem ocultar a identidade real e moderação bastante variável”, defende.

Para os episódios de violência cometidos em servidores do Discord, Andrade explica que um ativo importante para a estratégia dos grupos por trás é a indução à dessensibilização, processo químico que causa perda de respostas emocionais diante de determinado estímulo apresentado repetidamente.

“Nas primeiras exposições, uma imagem violenta pode gerar medo, repulsa, ansiedade ou indignação. Com a repetição, essas reações podem diminuir, e aquilo que antes parecia grave passa a ser percebido como normal, banal ou até divertido”, explica a professora.

Ela reforça que não é garantia que todo jovem exposto a conteúdo violento se tornará também violento. Os impactos dependem da idade, frequência, intensidade, contexto e realidades individuais.

*Estagiária do R7, sob supervisão de Augusto Fernandes, editor-chefe.

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