Brasília Senadores cobram de Queiroga produção própria de vacinas 

Senadores cobram de Queiroga produção própria de vacinas 

Durante audiência da Comissão Temporária da Covid-19, os parlamentares também questionaram aplicação da terceira dose

  • Brasília | Bruna Lima, do R7, em Brasília

Ministro Marcelo Queiroga em audiência pública no Senado Federal

Ministro Marcelo Queiroga em audiência pública no Senado Federal

Reprodução/TV Senado

O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, participou, nesta quarta-feira (8/9), de audiência pública na Comissão Temporária da Covid-19, no Senado. Na reunião, senadores cobraram incentivo à produção nacional de imunizantes e questionaram o que a pasta tem feito para acelerar as pesquisas das chamadas vacinas de segunda geração. Para o ministro, o Brasil vive um período de "conforto" em relação à pandemia, mesmo com a transmissão comunitária da variante Delta no país. Segundo ele, esse cenário se dá graças à vacinação

O destaque dado à vacina Pfizer foi ponto de reflexão. Enquanto Queiroga frisou o "ambiente de negócio favorável do Brasil" que atraiu a farmacêutica a produzir o imunizante no país, os senadores defenderam que a estratégia é meramente mercadológica e que o Brasil precisa olhar para as instituições próprias que desenvolvem tecnologia nacional.

Mesmo reconhecendo a relevância do imunizante da Pfizer no atual panorama, o senador Wellignton Fagundes (PL-MT) questionou o empenho do Ministério da Saúde em dar mais agilidade para a produção de uma vacina "100% de tecnologia brasileira".

Na mesma linha, a senadora Zenaide Maia (Pros-RN) afirmou que um "país que tem o privilégio de ter uma Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), um Instituto Butantan e um Instituto Evandro Chagas não pode abrir mão de estar com uma vacina". "Qual empresa de medicamentos ou vacina que não quer vir para um país com mais de 200 milhões de pessoas e que tem a vacina já incorporada ao SUS (Sistema Único de Saúde)? O interesse é comercial", completou Zenaide.

O ministro reconheceu o viés, mas afirmou que, quando houve maior oferta, o país poderá fazer as compras por meio de processos licitatórios, barateando os custos para os cofres públicos. "Queremos que a indústria brasileira e o complexo industrial seja fortalecido, que as vacinas em estudo nacional, em fase 1 e 2, sejam pesquisadas e aprovadas porque, com certeza, serão muito custoefetivas", disse Queiroga.

Por outro lado, o líder da Saúde destacou que, diferentemente do primeiro momento da pandemia, novos imunizantes a serem introduzidos no SUS não podem seguir os mesmos moldes de aprovação do momento em que não existiam vacinas. "Qualquer novo imunizante que chegue no mercado, seja ele produzido no brasil sena exterior, não pode ser comparado a um placebo, mas a uma outra vacina que já esteja incluída no nosso sistema de saúde, sob pena de estarmos oferecendo uma vacina que tenha eficácia e efetividade menor."

O objetivo do governo, daqui para frente, é ser "protagonista na oferta de doses para a população mundial, sobretudo a países subdesenvolvidos", disse Queiroga, reconhecendo a necessidade de colaboração multilateral para cessar a situação pandêmica.

Terceira dose

A aplicação da dose reforço no Brasil também foi motivo de debate na audiência. Isso porque a Organização Mundial da Saúde (OMS) possui uma orientação diferente da que será adotada no Brasil a partir do dia 15 de setembro, quando idosos acima de 70 anos e imunossuprimidos que tenham concluído o esquema vacinal contra a covid-19 receberão uma dose extra.

Em coletiva de imprensa desta quarta-feira (8), o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, voltou a reforçar o pedido de priorização da vacinação de países pobres ao invés da dose reforço em países que já estejam mais avançados no esquema. "Não ficarei calado enquanto as empresas e os países que controlam o fornecimento mundial de vacinas pensam que os pobres do mundo devem se contentar com os restos", criticou. Tedros pediu, ainda, que as nações adotem "moratória, pelo menos até o final de 2021, para que cada país possa vacinar ao menos 40% da população."

Queiroga sustentou, na audiência, que a conduta brasileira divergente do pedido da OMS tem como base a avaliação de especialistas e cuja decisão foi tomada pela Câmara Técnica Assessora de Imunização Covid-19 (Cetai). Uma avaliação da Fiocruz levando em conta 60 milhões de indivíduos imunizados com a AstraZeneca e CoronaVac também norteou a decisão.

"Aqueles indivíduos acima de 70 anos, notadamente os nonagenários, tem uma efetividade da vacina muito baixa, sobretudo em relação ao imunizante que tem como base o vírus inativado. Nesses indivíduos nonagenários, a efetividade chega a ser abaixo de 30%. Essas pessoas não estão protegidas, o que requer uma terceira dose para que consigamos fortalecer essa imunização", justificou Queiroga, completando que o Brasil possui doses suficientes para adotar a medida.

Por outro lado, o ministro reconheceu a existência do "dilema ético". "A cobertura vacinal é muito heterogênia, sobretudo em países da África, que possuem baixa cobertura e são uma espécie de encubadora para variantes de preocupação". Queiroga lembrou que a aliança multilateral Covax Facility tem o objetivo de trazer maior equidade na cobertura vacinal, com a promessa de distribuir duas bilhões de doses de vacinas no mundo.

"Lamentavelmente não conseguiu seu objetivo. A Covax distribuiu pouco mais de 200 milhões de doses até agora. A nossa preocupação e motivo da minha conversa com Tedros é que possamos apoiar mais fotemente a Covax", disse Queiroga, citando a reunião que teve com o diretor-geral da OMS durante encontro dos ministros da saúde do G20, em Roma. "Queremos justiça social não só para os brasileiros, mas para outras nações, notadamente as menos desenvolvidas."

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