Com fama de ‘espelho do Brasil’, MG atrai presidenciáveis e pode decidir eleição de novo
Considerando as eleições realizadas desde 1945, o estado refletiu o resultado nacional em 12 das 13 disputas presidenciais
2026|Luiza Marinho*, do R7, em Brasília
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Em ano de eleições presidenciais, Minas Gerais volta a ocupar uma posição importante no tabuleiro de estratégias. Com mais de 16,2 milhões de eleitores, o estado é o segundo maior colegiado do Brasil, perdendo apenas para São Paulo, sendo por isso considerado decisivo para a corrida presidencial.
Não por acaso, tanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quanto o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) têm dedicado atenção especial à formação de palanques competitivos no território mineiro. Nesta semana, por exemplo, Flávio oficializou a pré-candidatura dele ao Palácio do Planalto durante um evento no estado.
Desde a redemocratização, em 1989, todos os presidentes eleitos venceram também em Minas Gerais. Considerando as eleições realizadas desde 1945, o estado refletiu o resultado nacional em 12 das 13 disputas presidenciais — a única exceção ocorreu em 1950, quando os mineiros preferiram o brigadeiro Eduardo Gomes, enquanto Getúlio Vargas venceu nacionalmente.

Para cientistas políticos ouvidos pelo R7, o estado é um dos principais termômetros da corrida ao Palácio do Planalto.
Na avaliação do cientista político Márcio Coimbra, Minas funciona como um “microcosmo” do Brasil por reunir características econômicas, sociais e culturais semelhantes às encontradas em diferentes regiões do país.
“O norte e o Vale do Jequitinhonha assemelham-se ao Nordeste. O sul e o Triângulo Mineiro espelham o comportamento político e econômico do Sul e do Centro-Oeste. A região metropolitana de Belo Horizonte reflete as tensões e os anseios das grandes metrópoles do Sudeste”, explica.
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Peso do palanque mineiro
O cientista político Gabriel Amaral pondera que a importância mineira vai além da quantidade de eleitores. Minas possui a segunda maior bancada da Câmara dos Deputados e exerce forte influência em setores empresariais e políticos.
“Vencer em Minas não significa apenas conquistar votos para o Palácio do Planalto. Significa ampliar a capacidade de construir governabilidade”, destaca.
O histórico recente reforça a relevância do estado. Em 2022, Minas Gerais reproduziu quase exatamente o resultado nacional. No segundo turno, os eleitores mineiros deram 50,2% dos votos válidos a Lula, contra 49,8% de Jair Bolsonaro. Nacionalmente, o petista foi eleito com 50,9%, contra 49,1% do rival.
No primeiro turno, a vantagem de Lula em Minas havia sido de cerca de 563 mil votos. No segundo, caiu para pouco menos de 50 mil. Ainda assim, o desempenho foi considerado decisivo para a vitória do petista.
Com isso, a construção dos palanques estaduais tornou-se prioridade para os dois principais campos políticos que disputarão o eleitorado mineiro em 2026.
“O palanque estadual funciona como um mecanismo de coordenação política capaz de reunir prefeitos, deputados, lideranças econômicas e candidatos proporcionais em torno de uma narrativa comum”, explica Gabriel Amaral.
Lula e o fator Rodrigo Pacheco
A principal dor de cabeça para Lula em Minas surgiu com a decisão do senador Rodrigo Pacheco (PSB) de abandonar os planos de disputar o governo estadual e anunciar que pretende encerrar sua trajetória política.
Nos bastidores, Pacheco era visto como o nome capaz de liderar um palanque amplo para o presidente, dialogando com o centrão e reduzindo resistências ao PT em um estado tradicionalmente competitivo. Na avaliação do cientista político Ariel Calmon, a desistência representa um revés para a estratégia petista.
“Pacheco era visto como um nome capaz de reunir atributos importantes para a formação de um palanque competitivo no estado. Tem trânsito institucional relevante, perfil moderado, baixa rejeição e potencial de diálogo muito grande com os setores de centro e centro-esquerda”, pondera.
Segundo o cientista político, a ausência do senador enfraquece não apenas a disputa pelo governo estadual, mas também a capacidade de coordenação da campanha presidencial em Minas.
“Para Lula, isso foi um revés, e a preocupação não se restringe só a essa disputa do governo estadual, mas, sem um palanque forte, a candidatura perde fôlego na coordenação de campanha presidencial e enfraquece a construção das alianças locais”, avalia.
Desafios de Flávio
Embora a situação seja mais delicada para Lula, Flávio também enfrenta obstáculos em Minas Gerais. O campo conservador possui lideranças influentes, como o senador Cleitinho (Republicanos) e o deputado Nikolas Ferreira (PL), mas ainda busca uma fórmula para unificar completamente a direita mineira.
Segundo Gabriel Amaral, a tendência é que Cleitinho apoie Flávio, fortalecendo o palanque conservador. Entretanto, a presença do ex-governador Romeu Zema (Novo) como pré-candidato ao Planalto cria um fator de divisão dentro do mesmo campo político.
“Os estrategistas de Flávio precisam olhar com cautela essa construção do palanque, porque o desafio agora é mostrar capacidade de unificar esses diferentes grupos da direita e converter esses apoios regionais em votos efetivos para a candidatura presidencial”, ressalta.
Márcio Coimbra acredita que, em um estado historicamente decisivo e onde as pesquisas apontam disputas equilibradas, nenhum dos dois lados pode negligenciar Minas.
“Em um estado que historicamente oscila como um pêndulo e onde as últimas pesquisas apontam um empate técnico rigoroso dentro da margem de erro em um eventual segundo turno, a ausência de uma estrutura sólida e coesa é um risco que nem o PT nem o PL podem se dar ao luxo de correr.”
Segundo Coimbra, “dominar a complexa teia política mineira continua sendo o pedágio obrigatório para quem deseja governar o Brasil”.
*Estagiária do R7, sob supervisão de Augusto Fernandes, editor-chefe.
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