Após tombo pós-eleição, Bolsa volta a cair e dólar devolve parte da alta histórica
Ibovespa recua 0,51% e acumula perda de 14,32% na semana; para analistas, o mercado ainda ajusta expectativas à reeleição de Lula
2026|Renato Jakitas

A Bolsa de Valores de São Paulo voltou a fechar no vermelho nesta terça-feira (27), um dia depois de uma das maiores quedas de sua história. O Ibovespa, principal índice da Bolsa, recuou 0,51%, aos 175.710,05 pontos. Com o resultado, a perda acumulada na semana chega a 14,32%.
O dólar foi na direção contrária e devolveu parte da forte alta da véspera. A moeda americana caiu 0,97%, cotada a R$ 5,35.
Na segunda-feira (26), primeiro dia de negociações depois da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o Ibovespa despencou 13,88%, aos 176.608,23 pontos. O índice perdeu 28.474,33 pontos em um único dia, e R$ 734 bilhões desapareceram do valor de mercado das empresas listadas. O dólar subiu 8,25%, a R$ 5,40.
Segundo levantamento da consultoria Elos Ayta, foi a quinta maior queda diária do Ibovespa desde o início do Plano Real, em julho de 1994, e a maior desde março de 2020, no começo da pandemia de Covid-19. O recorde ainda é o de 10 de setembro de 1998, quando o índice caiu 15,83% durante a crise financeira da Rússia.
Mudança de expectativa
Para analistas ouvidos pelo R7, o tombo reflete uma mudança brusca de expectativas, e não uma piora repentina da economia. Eles avaliam que o próprio mercado já previa essa reação caso Lula vencesse.
“O mercado financeiro reage às expectativas, não apenas aos fatos”, disse Fábio Gallo, professor de finanças da FGV. Segundo ele, houve “uma revisão abrupta das expectativas dos investidores”, e não uma mudança nos fundamentos da economia em poucas horas.
Gallo explica que boa parte do mercado apostava na vitória de Flávio Bolsonaro (PL), que venceu o primeiro turno. Até então, nenhum candidato tinha virado uma eleição presidencial no segundo turno, e os investidores contavam que isso se repetiria.
Com Flávio no Palácio do Planalto, bancos, gestores e grandes investidores esperavam um ajuste fiscal de cerca de R$ 250 bilhões, segundo o professor. Um corte desse tamanho abriria espaço para a queda da taxa Selic, os juros básicos da economia. Com juros menores, as empresas lucram mais, e as ações passam a render mais do que aplicações de renda fixa, como os títulos do governo. Para Gallo, essa aposta ajuda a explicar a alta da Bolsa entre os dois turnos.
A vitória de Lula, contrária à aposta do mercado, mudou o cálculo. Os investidores avaliam que um novo mandato do petista terá gastos públicos maiores, o que tende a manter os juros altos por mais tempo. Nesse cenário, as ações perdem atratividade, e os investidores passam a cobrar juros mais altos para emprestar dinheiro ao governo.
“A vitória de Lula desmontou esse cenário”, afirmou Gallo. “É um ajuste de expectativas, ainda que de intensidade excepcional.”
Gabriel Magno, chefe de alocação de investimentos e sócio da AW Capital, diz que os investidores passaram a ajustar os preços com base em um governo que, na avaliação dele, não tem propostas para equilibrar as contas públicas. “Grande parte da expectativa que o mercado tinha em Flávio Bolsonaro era dele entregar um ajuste fiscal mais crível”, afirmou. “Com Lula, que prometeu diversos auxílios para se reeleger, a conta do fiscal fica cada vez maior, e é cada vez mais difícil acreditar que o governo irá realizar algum tipo de ajuste que traga paz para o mercado.”
Gabriel Mota, analista da Manchester Investimentos, diz que o resultado do dia já era esperado. “O mercado hoje não foi novidade. Já era sabido que, se tivesse uma troca da expectativa, ou seja, o Lula se reelegendo, teríamos um mercado muito negativo”, disse.
Os números mostram o tamanho da aposta. No último pregão antes do primeiro turno, o Ibovespa estava em 192.144,55 pontos. Entre o primeiro e o segundo turno, subiu 6,9%. A maior alta veio em 5 de outubro, um dia depois da vitória de Flávio no primeiro turno, quando o índice avançou 7,7%, aos 206.911,89 pontos. Depois disso, chegou a superar os 209 mil pontos durante um pregão, o maior patamar da história.
Negociações paralisadas
Nesta segunda, a pressão foi tão forte que as negociações pararam logo na abertura. A B3, empresa que administra a Bolsa, acionou o circuit breaker, mecanismo que suspende as negociações por 30 minutos quando o Ibovespa cai 10% em relação ao fechamento anterior. A ideia é dar tempo para os investidores avaliarem o cenário e evitar vendas em pânico.
O mecanismo não era acionado desde março de 2020, quando o mercado começou a medir o tamanho da pandemia. Desta vez, as negociações ficaram paradas por cerca de meia hora. Quando foram retomadas, o índice continuou caindo e chegou a perder mais de 17% durante o dia. No fim da tarde, a queda diminuiu.
Bancos e varejo
As maiores perdas ficaram com empresas que dependem de juros baixos para crescer, como construtoras e redes varejistas, e com empresas muito endividadas. As ações da Magazine Luiza caíram 58,23%. Entre os grandes bancos, o Banco do Brasil perdeu 29,33%, e o Itaú, 13,66%. A Petrobras recuou 8,18%.
“É um cenário crítico para empresas, principalmente de setores mais sensíveis a juros e empresas que estão endividadas”, disse Mota. Ele citou a Cosan, conglomerado com negócios em energia, agronegócio, logística e óleo e gás, que despencou mais de 46%.
Poucas ações subiram. Segundo o analista, as altas ficaram com exportadoras, que ganham com o dólar mais caro e estavam fora da aposta eleitoral. É o caso da Suzano, fabricante de papel e celulose, da mineradora Vale e da WEG, uma das maiores fabricantes de motores elétricos do mundo.
O que vem agora
Os juros futuros, que indicam onde o mercado espera que as taxas estejam nos próximos anos, também subiram. Para os analistas, a reação dos próximos dias vai depender dos sinais que o governo der sobre as contas públicas.
“Temos uma necessidade do governo, que foi reeleito, de sinalizar medidas mais de controle de gastos, mais pró-contas públicas, para que a gente tenha algo que acalme o mercado”, afirmou Mota.
Rebecca Nossig, estrategista de ações da Nomad, avalia que o mercado terminou o dia “trocando a imprevisibilidade das urnas pela cautela quanto à condução da política econômica do novo governo”.
Gallo faz uma ressalva sobre a leitura do mercado. Para ele, a ideia de que um ajuste fiscal tão grande resolveria rapidamente os problemas do país “é, no mínimo, discutível”. “O mercado pode mudar suas expectativas em poucas horas. A economia real, porém, não se transforma na mesma velocidade”, disse.
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