Como uma yorkshire cheia de estilo salvou um jovem das drogas e o tornou influenciador
Após três anos nas ruas de São Paulo e 14 internações, Matheus Osminio vive uma vida completamente diferente
Entrevista|Rodrigo G. Bonini*, do R7
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7
Matheus Osminio encontrou a casa vazia quando voltou do trabalho. A então esposa e os filhos haviam deixado a residência onde a família morava na zona norte de São Paulo. Apesar dos alertas, ele não conseguia largar o vício em K9.
Passou a fumar crack e perdeu a noção do tempo. Foram três anos vivendo nas ruas e 14 internações em clínica de reabilitação para dependentes químicos. Hoje, aos 29 anos, está sóbrio e com uma vida completamente diferente, graças à yorkshire terrier Zoe. Ela, pouco maior que uma bola de basquete. Ele, com o rosto ainda marcado por tatuagens, das quais se arrepende. Uma parceria improvável surgiu entre os dois. “Ela começou a ficar muito grudada comigo. Aonde eu ia, ela vinha logo atrás”, conta Matheus ao R7.
Em um passeio despretensioso com a cachorrinha, Matheus decidiu vesti-la com uma roupinha para animais de estimação. Gostou tanto do resultado que publicou o momento ao lado de sua fiel escudeira nas redes sociais. O que ele não esperava é que aquele post despertaria tanta curiosidade a ponto de, em pouco tempo, atingir mais de 20 milhões de visualizações.
O que era para ser apenas uma brincadeira foi o início da jornada de Matheus como influenciador digital. Com ‘looks’ combinados, ele carrega Zoe no colo ao som de músicas de grandes artistas do pop, como Adele e Lady Gaga.
Ali nasceu um personagem: o do “ladrão” que se apaixonou pela yorkshire terrier que “roubou”. A inspiração veio de um comentário de moradores do bairro, que acreditavam que o animal estava sendo sequestrado.
Hoje, Matheus usa o perfil criado no Instagram para combater esse e outros preconceitos. “As pessoas olham para a minha cara e nunca vão imaginar. Qual é o problema? A pessoa pode gostar de qualquer tipo de música, pode ter qualquer tipo de cachorro e pode ser do jeito que ela quiser”, afirma.
A dupla ficou conhecida pela região e, nas redes, já soma quase 130 mil seguidores. Quem vê de longe acredita que os dois se conhecem há muito tempo, mas a “amizade” começou só quando ele retornou da reabilitação. A yorkshire havia sido adotada pela família e ficou próxima do pai de Matheus, trazendo alegria em um momento difícil.
“Ele ficou muito chateado pelo fato de eu ter entrado nas drogas, tinha muita expectativa em mim”, diz. Quando o pai foi diagnosticado com câncer em estágio avançado, o jovem decidiu: tinha de mudar.
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“Eu tinha certeza que meu pai não duraria muito tempo. Então, saí da rua e voltei para casa para que ele pudesse descansar em paz. Estar bem hoje é o mínimo que posso fazer, depois de tudo que ele fez por mim”, relembra, emocionado, com Zoe no colo.
A sobriedade trouxe uma vida nova, o convívio com a yorkshire e o reaproximou da família e dos filhos Joaquim, de 7 anos, e Livia, de 8. “Perdi um momento muito importante, que foi o crescimento deles. Eu tento recuperar o tempo. Hoje, vejo alegria no olhar deles.”
Veja a entrevista na íntegra:
R7 Entrevista — Já são mais de 60 milhões de visualizações, quase 130 mil seguidores. Você esperava toda essa atenção?
Matheus Osminio — Não! Tudo isso, não. Quando o vídeo viralizou, achei que só viralizaria no bairro, mas não no Brasil inteiro. O primeiro vídeo que eu fiz com a Zoe já teve mais de 20 milhões de visualizações. Chegar a esse número em questão de dias e alcançar 100 mil seguidores foi uma surpresa para mim.
R7 Entrevista — As roupas usadas pela Zoe viraram uma verdadeira sensação entre seus seguidores. Quantas combinações ela tem? Você tem alguma favorita?
Matheus — Ela já tem vários “lookzinhos”, mas acho que a minha roupa favorita com a Zoe é uma que veio no começo, que a gente usava muito, no meu personagem de ‘ladrão’. Eu uso uma touca e ela também.
E tem uma outra roupa, que é rosa, e eu uso com a camiseta de Aparecida do Norte, que era do meu pai. Ele fez esse trajeto daqui [São Paulo] até lá andando e registrou o percurso na camiseta dele.
R7 Entrevista — Antes de a Zoe aparecer e o seu perfil viralizar, o conteúdo compartilhado por você era mais voltado para o dia a dia e a rotina com seus filhos. Quando caiu a ficha de que, de repente, tinha ficado famoso?
Matheus — Quando eu fui abrir a minha conta poupança. Eu fui contar o motivo de estar abrindo a conta e a gerente do banco falou que me conhecia. Aí que a ficha caiu, falei: “Pô, as pessoas me reconhecem mesmo, em todos os lugares!”.
Eu vou ao mercado e todo mundo me pergunta da Zoe. “Ah! Como está a Zoe? Cadê ela? Olha, é o menino da yorkshire!”. A gente já era bastante conhecido no bairro, a nossa história aqui é bastante antiga, mas eu provavelmente nunca teria conhecido essas pessoas. Só foi por meio da internet, mesmo.
R7 Entrevista — Aliás, por que começou a fazer vídeos com a Zoe? Como ela chegou na sua vida?
Matheus — A Zoe era do meu irmão. Ela foi dada de presente a uma namorada e, quando [o namoro] não deu certo, ficou com meus pais. Eu nunca tive muito contato com a Zoe. Pelo fato de eu ter ficado muito tempo na rua, eu não tinha contato nem com meus filhos e muito menos com a Zoe.
Quando eu saí da clínica, meu pai já não estava mais em casa. Ela começou a ficar muito grudada comigo. Aonde eu ia, ela vinha logo atrás. Quando eu ia buscar meu sobrinho na creche, ela queria ir junto. Eu a levava na coleira, até o dia em que decidi colocar um ‘lookzinho’ nela. Foi aí que eu postei o vídeo falando: “Olha o look que eu coloquei na minha cachorrinha! Olha que lindo!”, e acabou viralizando.
Eu não entendi por que as pessoas começaram a frisar nessa fala do look. “Não combina você falar do look”, isso e aquilo. Pensei em apagar, porque no começo eu não estava lidando muito bem com os comentários, mas começaram a vir tantos que eu comecei a focar neles. Falei: “Ah! Não vou apagar, não, deixa aí”. Depois de seis horas, eu tinha não sei quantas mil curtidas. Hoje, a publicação tem um milhão e meio de curtidas.
R7 Entrevista — O que mudou na sua vida com o alcance da sua história nas redes sociais?
Matheus — Além de eu conseguir dar uma volta por cima aqui no bairro e ser visto de forma totalmente diferente, tem muita gente que vem falar comigo e pede para eu mostrar o cachorro, ou quer mandar uma mensagem de apoio.
Abriu também portas de trabalho, mesmo. Acabei tendo dificuldades por conta da dependência, fiquei com diabetes e perdi a ponta de um dedo. Eu estou tendo ajuda por meio da internet para fazer uma vaquinha online e comprar uma moto elétrica.
Também tive uma proposta para poder arrumar os dentes, que é uma coisa que me deixou muito triste. A dependência te estraga muito. Agora, vou remover as tatuagens. A Zoe também ganhou muita coisa, como plano de saúde.
São coisas que, se fossem por meio do meu serviço, se eu fosse pegar uma bicicleta e fazer entrega, eu teria que gastar muito. A internet me deu muitas coisas mesmo, além do mais importante, que é eu poder levar a mensagem.
R7 Entrevista — Você tem utilizado as redes também como meio para quebrar alguns preconceitos, certo?
Matheus — Sim. As músicas que eu coloco nos meus vídeos têm um propósito. Eu sempre escutei música pop, Lady Gaga, Taylor Swift, Amy Winehouse, e já sofri muito preconceito por isso. Aqui, onde eu nasci, é difícil você encontrar uma pessoa que escute Adele.
Então, eu sempre fiz questão de mostrar que isso é normal. E faço de propósito. As pessoas olham para a minha cara e nunca vão imaginar, ficou uma coisa engraçada. Independentemente do que você pensa, eu não estou nem aí.
Se o seu pensamento for preconceituoso, eu não estou nem aí. Qual é o problema? A pessoa pode gostar de qualquer tipo de música, pode ter qualquer tipo de cachorro e pode ser do jeito que ela quiser.
R7 Entrevista — A Zoe te ajudou em um momento difícil, quando você tinha acabado de retornar da clínica de reabilitação. Como ela foi importante nesse processo de recuperação do vício?
Matheus — A Zoe era muito ligada com o meu pai e, depois que ele se foi, ela ficava em cima da cama, do lado em que meu pai ficava, o tempo todo. Ela transferiu esse amor para mim, então eu acredito que ela tem uma missão importante nisso, que não foi por acaso.
Eu sempre gostei de ser comunicativo, de brincadeiras, e nada nunca viralizou. Então, o papel dela foi muito importante. Sinto que é a presença dele, é um modo de dizer que ele está orgulhoso de mim. Ela tem uma energia boa.
Onde eu vou, tento levá-la. Hoje não consegui porque fui para um prédio e ela não podia ir, mas, quando eu voltei, ela já estava na porta esperando. Parecia que estava dizendo: “É para voltar, hein?”.
R7 Entrevista — Antes de entrar nas drogas pesadas, você tinha emprego e família. O que aconteceu entre o primeiro contato com o K9 e o período em que perdeu esse vínculo e passou a morar nas ruas?
Matheus — Foram três anos e cinco meses nas ruas, por aí. Fui internado no ano passado, no meio do ano passado. Eu trabalhava na construção civil, instalava calhas. Eu sempre fui usuário de maconha, que na comunidade é “supernormal”. A gente vê muito isso e começa a fumar muito cedo. Um dia, chegou o K9 como maconha sintética para a gente. Não tínhamos muito conhecimento de que era uma coisa química.
Acabou que eu conheci por meio de uns amigos e usei. Fiquei um período viciado só nisso. Minha ex-esposa me alertava bastante de que, se eu não parasse de usar, ela iria embora. Aí teve um certo dia em que eu cheguei do serviço e não tinha mais ninguém em casa. Ela pegou as crianças e levou para Peruíbe, no litoral paulista. Já era dependente e, nisso, entrei em uma depressão muito grande.
Desse dia em diante, comecei a me entregar e a usar ainda mais drogas. Deixei de tomar banho, não voltava mais para casa e comecei a misturar com drogas mais fortes, como o crack. Eu usava essas duas drogas juntas. Foi aí que eu perdi a noção de tudo e do tempo.
Quando eu fui ver, já estava há muito tempo na rua. Dormia em qualquer lugar. Ficava nas ruas jogado e uns três, quatro dias, ‘virado’ sem dormir. Às vezes, eu não encostava para descansar. Dormia e, quando acordava, estava em um lugar totalmente aleatório. Foi assim que eu conheci muitas outras pessoas que passavam por isso também.
R7 Entrevista — E como conseguiu dar a volta por cima e superar o vício? O que acha que te deu mais força quando estava na reabilitação?
Matheus — Foram 14 internações. Nas primeiras vezes eu não fui porque eu quis; era uma internação compulsória. Na última vez, meu pai tinha acabado de morrer. As pessoas confundem muito esse detalhe: eu vi meu pai falecendo e só depois fui internado.
Meu pai ajudava muito os meus filhos no tempo em que eu estava em situação de rua e, quando meu pai faleceu, minha mãe ficou sozinha, a Zoe também e os meus filhos já estavam longe.
Foi aí que veio aquele despertar espiritual de: “Se eu não parar com isso aqui, eu vou morrer. Agora, eu realmente preciso mudar, porque não é mais só por mim. Desta vez, de verdade, eu vou querer mudar”. Aí eu fui e mudei. Me internei, fiz o tratamento, passei por psicólogos, psiquiatras, terapeuta e tive alta. Vai fazer mais de um ano que eu estou limpo.
R7 Entrevista — Você está no processo para tirar algumas tatuagens no rosto, pois você não se identifica mais com elas. Por quê?
Matheus — Eu as fiz há muito tempo, quando eu estava distante dos meus filhos, separado da minha ex-esposa. Devido à minha dependência química, achei que seria uma ideia genial tatuar o dia em que eles nasceram para mantê-los comigo. Hoje, graças a essa transformação que a vida me deu, não tem mais sentido para mim. Quando eu conheci as drogas, os meus filhos eram muito pequenos. Então, eu perdi muito tempo da vida deles.
Por um lado, foi um pouco razoável... eles não vão lembrar da cena, porque eu ficava em situação de rua mesmo. Mexia em lixeira, dormia em calçadas. Se eles fossem maiores, talvez teriam mais lembranças disso. Mas eu perdi um momento muito importante, que foi o crescimento deles. Agora, o Joaquim já tem 7 anos e a Lívia tem 8. Então, eu tento recuperar o tempo perdido.
R7 Entrevista — Dá para ver pelas postagens todo o amor que você tem pelos seus filhos. Hoje, qual é o exemplo que eles têm como pai?
Matheus — É difícil dizer. Foi muito difícil para eles. A Lívia era muito pequena, o Joaquim é especial, então ele não entendeu muito. Eles sentiram falta, ficaram doentes no começo, porque eles eram muito ligados comigo até eu entrar para as drogas.
Hoje em dia eu vejo alegria no olhar deles. Se eu falo assim para a menina: “Vamos ali comigo comprar um pão?”, ela já pula de alegria. Ela mostra que é importante eu estar lá do lado deles. O Joaquim, eu nem sei se eu conseguiria viver naquela situação. Ele depende de mim para muita coisa. O autismo é uma condição que as pessoas não entendem muito bem, então eu tenho que estar aqui.
R7 Entrevista — Você já mencionou o seu pai várias vezes. Como era a sua relação com ele?
Matheus — Eu e ele sempre fomos muito conectados. Não à toa que eu fui o único a seguir na profissão dele. A gente se afastou um pouco, porque ele ficou muito chateado pelo fato de eu ter entrado nas drogas. Ele tinha muita expectativa em mim, não aceitava.
Eu tinha um pensamento totalmente diferente, achava que ele tinha que entender a minha situação. Então entramos em um conflito muito grande. Quando ele descobriu o câncer dele, mesmo assim a gente ainda não tinha se aproximado. Me ver naquela situação o deixava pior do que já estava. Então a gente perdeu um pouco do nosso contato nessa época.
Foi no final da vida dele que eu cheguei e falei: “Pô, pai, me desculpa. Eu sei que o que eu estou passando hoje é fruto de escolhas erradas que eu fiz. Talvez eu esteja pagando por coisas que eu possa ter feito, mas ninguém morre pagando”. Eu tinha certeza que meu pai não duraria muito tempo. Então eu saí da rua e voltei para casa para que ele pudesse descansar em paz.
Depois disso, eu coloquei isso como missão. Eu tinha falado para ele que ia ficar bem, então é uma dívida que tenho com ele. Eu acredito muito nessas coisas, que a morte não é o fim. Estar bem hoje é o mínimo que eu posso fazer depois de tudo que ele fez por mim e por todos os meus irmãos.
R7 Entrevista — Que mensagem você quer deixar para quem enfrenta a dependência química?
Matheus — Olha, às vezes as pessoas estão em um momento tão difícil na vida, mas tão difícil, porque às vezes a pessoa fica tão dependente que a família deixa de acreditar. Acredita uma, duas vezes, só que as pessoas têm uma recaída e a família começa a ficar desanimada e deixa de acreditar. Aí é a hora em que as pessoas se perdem, mesmo. Isso é uma coisa que eu já vi um bocado.
O que eu vou falar agora não é para o dependente, porque talvez ele não vá escutar, talvez porque esteja na rua. Eu digo mais para a família: não desista. Se a minha mãe tivesse desistido na primeira, eu não estaria aqui. Ou talvez estaria, mas de outro modo. Não desista, insista na pessoa, faça-a entender que é importante, porque ela é. Aquilo é uma fase, ninguém nasceu usuário de droga.
Na rua, encontrei pessoas supertalentosas, que sabiam cantar, escrever, fazer artesanato. Essas pessoas existem e estão invisíveis. Muita gente não dá nem um bom dia para elas na rua, sabe? E o que eu acho muito legal de a minha história estar viralizando, em um contexto totalmente diferente, por meio da minha yorkshire, é eu poder dar voz a essas pessoas.
Acho que é a primeira vez que uma pessoa nessa situação, pelo menos de onde eu venho, consegue ter essa visibilidade para poder falar de um assunto que realmente é importante. Para muita gente, não. A vida está resolvida e pronto, não precisa olhar para aquelas pessoas. Mas elas existem, são seres humanos. Elas precisam de ajuda. Todo mundo tem condições de ajudar.
Pelo menos o governo, a mídia ou alguém olhar com empatia para elas. Não é simplesmente falar: “A Cracolândia sumiu”. Não sumiu. O que aconteceu com os usuários? Eles pararam de usar droga? Não. Tem que enviar ajuda para eles!
*Estagiário do R7, sob supervisão de Júlia Ramos, editora

















