Amyr Klink diz ser mais rico que dono de banco: ‘Tenho histórias para contar’
Navegador atravessou o oceano Atlântico sozinho em 1984, em um barco a remo; história rendeu o livro ‘Cem Dias Entre Céu e Mar’
Entrevista|Larissa Lopes, do R7
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Um barco de menos de seis metros. Dois remos. 100 dias de viagem. Tubarões, baleias e uma tartaruga. 3.700 milhas percorridas. Um livro histórico. E uma riqueza de histórias para contar. Amyr Klink, navegador e autor de Cem Dias Entre Céu e Mar, virou “herói” nacional ao ser o primeiro homem a atravessar sozinho e nessas condições o Atlântico Sul, partindo da Namíbia, na África, até a Praia da Espera, na Bahia.
Nesta sexta-feira (18), a expedição completa 42 anos. Em entrevista exclusiva ao R7, Amyr revela o que ficou da viagem até hoje. “Todo mundo olha o lado do sucesso e pensa que eu fiquei rico. Na verdade, fiquei muito rico porque tenho histórias para contar. Desculpa, mas eu sou mais rico do que o dono do banco onde tenho conta. Não tenho um milionésimo do dinheiro que ele tem, mas tenho histórias que conto ao pé da cama das minhas filhas, que eu não comprei, nem vi na televisão”, defende.
O que eu aprendi no mar é que a contingência, a restrição e a escassez são muito importantes para te estimular a continuar em frente
Para fazer a travessia, Amyr mandou construir um barco especial e contou com uma equipe de nutricionistas que prepararam “marmitas” para 150 dias à deriva. Ele ainda precisou se recuperar de uma lesão na mão direita e enfrentou uma série de processos burocráticos para conseguir as liberações necessárias.
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“Tudo que podia dar errado na minha vida antes [da travessia], deu. Depois de tantos problemas, quando eu finalmente estava no barco remando, era só fazer a parte mais fácil: remar até o Brasil”, relembra.

O escritor, de 70 anos, tem mais de dez livros publicados, e sua obra de estreia vendeu dois milhões de exemplares desde então. Agora, se prepara para desbravar um novo mundo: o cinema.
100 dias chega às telonas em 29 de outubro. O filme, dirigido por Carlos Saldanha (das franquias A Era do Gelo e Rio), mostra a travessia histórica. Quem dá vida a Amyr é o ator Filipe Bragança, enquanto a atriz Philippine Leroy-Beaulieu, de Emily in Paris, faz a mãe do navegador.
Têm cenas no filme que as roteiristas, a produção e o Carlos materializaram, que eu gostaria de ter descrito com tanta intensidade [no livro]
Confira na íntegra a entrevista exclusiva com Amyr Klink
R7: Em algum momento, você se cansou de ser apresentado como “o homem que atravessou o Atlântico Sul remando”?
Amyr Klink — Não, isso me cansaria se eu fosse o homem que não conseguiu atravessar. E todo 18 de setembro eu me esqueço [desse marco], esqueço até da data do meu aniversário, para você ter uma ideia. E eu me surpreendo, porque o pessoal começa a me ligar, pedindo para falar sobre a “data histórica” na minha vida, mas é uma data normal.
Me perguntaram se eu gostaria de ir para a Lua, em uma expedição da Nasa, e eu falei que não. Eu não sou cientista, mas eu daria o meu convite para uma mente brilhante, que vai trazer um proveito muito maior para a humanidade
R7: O que mais impressiona no livro é a sua força mental durante a travessia. Me lembrou alguns atletas que a gente vê hoje, como a Rayssa Leal, falando sobre isso no esporte. Você também cuidou disso, além do planejamento burocrático?
Amyr Klink — Acredito que não adianta você se preparar psicologicamente para pular do Viaduto do Chá, porque você vai se arrebentar, não tem escapatória. Mas o que aprendi no mar é que a contingência, a restrição e a escassez são muito importantes para te estimular a continuar em frente.
Nos meses e dias anteriores à travessia, tudo que podia dar errado na minha vida, deu. Tive uma lesão na mão direita, e o médico disse que eu não ia perder a mão, mas não ia poder andar de moto e remar. A primeira coisa que eu falei quando saí do hospital foi que eu ia, sim, remar.
Ainda tive as confusões burocráticas na Namíbia, por causa da África do Sul, que ocupava o país na época do regime do Apartheid. O capitão dos portos garantiu que eu nunca partiria do porto dele. Depois de tantos problemas, quando eu finalmente estava no barco remando, era só fazer a parte mais fácil: remar até o Brasil.
R7: No livro, você diz que teve que “negociar” com o mau tempo e as ondas para conseguir chegar ao destino. O que você teve que negociar desde então, na sua vida, para continuar vivendo?
Amyr Klink — Com muitas coisas. Todo mundo olha o lado do sucesso e pensa que eu fiquei rico. Na verdade, fiquei muito rico porque tenho histórias para contar. Desculpa, mas eu sou mais rico do que o dono do banco onde tenho conta. Não tenho um milionésimo do dinheiro que ele tem, mas tenho histórias que conto ao pé da cama das minhas filhas, que eu não comprei, nem vi na televisão. E acho que as dificuldades todas, na verdade, me prepararam para fazer a viagem.
R7: Por que você levou o livro Cem Anos de Solidão no barco?
Amyr Klink — Não levei nenhum livro [comprado por mim], mas uma “fã” minha em Lüderitz, na Namíbia, que me ajudou no processo de conseguir as autorizações da capitania sul-africana, me deu o livro do Gabriel García Márquez. Era uma versão em inglês, e eu já tinha lido em espanhol. E é um livro meio ‘pesadinho’, pensando em quem briga contra o peso [no barco], mas foi muito legal.

R7: Com as novas tecnologias, pode-se dizer que está mais fácil fazer a travessia do Atlântico Sul, ou a dificuldade continua?
Amyr Klink — A dificuldade sempre vai continuar e acho que, na verdade, piorou. Eu tive, por exemplo, tubarões me enchendo a paciência durante 50 dias, do total de 100. O Raphael Garcia teve tubarões estourando a paciência dele diariamente durante os 136 dias. E por que ele teve tanta “craca” no fundo do barco? Porque a água do planeta está mais quente. A Corrente de Benguela [na zona oeste do Atlântico Sul] é para ser fria, mas vem ficando mais quente [com as mudanças climáticas].
Nota da redação: craca é uma concentração de pequenos crustáceos marinhos que se acumula no fundo de barcos naturalmente, mas, por causa dos golpes e arranhões dos tubarões na pintura externa, se proliferam ainda mais e deixam a embarcação mais pesada.
R7: Você já disse que gosta muito de navegar sozinho e não se sente solitário. Como foi viajar pela primeira vez com as suas filhas?
Amyr Klink — Eu já tinha uma experiência grande de ter ido para a Antártida, por causa da invernagem, mas foi tão tenso, como se fosse a minha primeira viagem para uma região polar. E não foram só as nossas filhas, mas também outras crianças. Eu fiquei louco, porque nunca tive um acidente, nunca quebrei uma unha e nunca machuquei os barcos. Os primeiros dias foram tensos, mas, depois, acho que as crianças entenderam que tinham situações de alto risco, como ficar brincando no convés.
R7: As três já navegaram com você, mas parece que a Tamara Klink é a que tem mais o seu DNA. Isso vem desde a infância? Até que ponto você interfere nas decisões dela?
Amyr Klink — Eu não interfiro, nem tenho autoridade para interferir, porque ela testemunhou todos os absurdos que eu já fiz, os erros que cometi, que poderiam ter terminado em grandes acidentes. Mas a Tamara sempre foi a filha mais ousada, que andava no parapeito dos prédios sozinha, se equilibrando na mureta, que subia na torre de alta tensão, que se pendurava de ponta-cabeça. Eu só não queria que ela navegasse, mas acho que isso a estimulou ainda mais, e ela virou uma baita navegadora.
Hoje, a gente monitora a Tamara segundo a segundo. Sabemos de onde estão vindo as ondas de acordo com onde ela está, o percentual de placas de gelo ao redor, exatamente em um instante. Temos ferramentas maravilhosas.

R7: Como é para você ver a sua história sendo contada no cinema? E por que agora, no aniversário de 42 anos do fim da travessia?
Amyr Klink — É uma boa pergunta. Na verdade, não foi iniciativa minha, foi ideia da Marina Bandeira Klink [mulher de Amyr], desde a época em que a gente namorava. Apesar de ser 42 anos [depois], foi um timing perfeito, porque hoje a gente tem o barco perfeito, que foi usado para fazer as filmagens, e um orçamento que é difícil levantar no Brasil, graças à parceria com a Disney.
Eu não participei de nada, fiquei apenas sentadinho no meu escritório [risos]. Na primeira reunião que tive com o [Carlos] Saldanha, falei: “O livro é meu, o filme é seu, não vou dar palpite”. E fiquei muito impressionado com o rigor e preciosismo da produção. Foram centenas de pessoas na equipe e, de repente, todos, desde a menina do café até o motorista da van e o contrarregra, leram o livro. Isso foi o que me marcou mais.
R7: No ano passado, vimos a brasileira Juliana Marins, de 26 anos, morrer em uma queda em trilha na Indonésia. Além do caso do Roberto Thomaz, de 19 anos, que ficou perdido por cinco dias no Pico Paraná após ser deixado para trás pela amiga, em janeiro deste ano. A gente pode dizer que hoje existe uma romantização da aventura?
Amyr Klink — Não é que se romantizou a aventura, é que têm muitas pessoas, infelizmente jovens, que não querem fazer as coisas, querem os likes, querem ter milhões e milhões de visualizações. Eu não quero ter nenhum like, não ligo. Eu ligo para as coisas de verdade que posso fazer.
E espero que eu não tenha participado do acidente da Juliana, que não tenha inspirado ela. Mas acho que eu tenho um histórico muito grande de exemplos de inspiração, não necessariamente de aventura no mar. Tem um cara que falou que virou oceanógrafo e foi morar em Paraty por minha causa, e eu acho isso muito bacana. O meu histórico de “inspirados” que se deram bem é bem maior do que o outro.
Eu acho um perigo [que se inspirem em mim], porque se todo mundo que ler o livro começar a atravessar o Atlântico, vamos ter um monte de desaparecidos
R7: Em agosto, você foi para Salvador receber o jovem navegador Raphael Garcia, que fez o mesmo percurso que o seu em 1984, mas ele completou a travessia em 136 dias. Como é ver outros seguindo o mesmo caminho?
Amyr Klink — Foi muito bonito, porque não tinha imprensa, só os tios e os pais dele, eu e a Laura [Klink, filha de Amyr], e fiquei muito feliz. Quando eu cheguei ao Brasil, foi uma guerra de veículos da Bahia, de São Paulo, do Rio de Janeiro. Mas eu acho um perigo [que se inspirem em mim], porque se todo mundo que ler o livro começar a atravessar o Atlântico, vamos ter um monte de desaparecidos.
Mas fiquei feliz de ele ter sido rigoroso de chegar por conta própria, porque têm horas em que as pessoas queridas, amadas ou próximas atrapalham. A família do Raphael começou a ficar nervosa e organizar a busca para encontrá-lo no mar, e eu mandei um recado muito duro para a mãe dele. Se ela fizesse a busca, ia destruir a viagem e a vida do filho. Eu ficaria muito triste se ele fosse resgatado, como aconteceu com o Gerard d’Aboville. O Raphael não dormiu e não parou de remar nem por um minuto durante 30 horas.
A parte mais difícil dos 100 dias não foi fazer a viagem. Por incrível que pareça, foi escrever o livro
R7: Amyr, em uma entrevista neste ano, você disse que não se considera uma pessoa muito emotiva.
Amyr Klink — Eu não sou difícil para chorar, não, mas na travessia não chorei coisa nenhuma. Quase chorei antes, quando o tal capitão dos portos não liberava o meu barco [para seguir viagem]. Fico meio emocionado quando tem uma apresentação, por exemplo, para centenas de pessoas, e o pessoal fica em pé para mim. Eu não gosto de ser aplaudido. Não me incomodo com os haters, mas às vezes não gosto de ser elogiado demais.
R7: Se você tivesse que refazer a travessia do Atlântico Sul hoje, além do travesseiro que faltou, o que levaria de diferente?
Amyr Klink — Primeira coisa: um GPS! Na época [1984], não tinha, eu tinha o benefício da ignorância. Tem um ditado árabe que diz que uma das fontes da felicidade é a ignorância. Você não sabe que existem coisas melhores do que o que você tem, então você fica feliz com o que tem. E, claro, um bom travesseiro.














