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‘É um livro mais adulto e menos assustador’, diz autor Raphael Montes sobre novo suspense

Escritor fala sobre o lançamento de ‘A Estranha na Cama’ e conta detalhes do seu processo de escrita

Entrevista|Giovane Felix

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Autor best-seller, Raphael Montes se destaca por livros de suspense e terror Julia Mataruna/Divulgação

Aos 35 anos, Raphael Montes já soma nove romances publicados e uma carreira que também se consolidou no audiovisual. Em pouco mais de uma década, o escritor se tornou um dos autores mais lidos do Brasil e um dos principais nomes da literatura contemporânea no país.

Vencedor do Prêmio Jabuti em 2020, por Uma Mulher no Escuro, o escritor teve seus livros traduzidos e publicados em mais de 25 países. Como roteirista e produtor, também conquistou espaço com obras de sucesso, como Bom Dia, Verônica e Beleza Fatal, ampliando ainda mais seu alcance junto ao público.


O autor carioca vive um momento movimentado na carreira. Recentemente, assinou o roteiro de um filme inspirado no caso de Elize Matsunaga, que teve grande repercussão no streaming. Além disso, o livro Jantar Secreto, que já vendeu mais de 200 mil cópias no Brasil, ganhou uma edição comemorativa após completar dez anos do lançamento, ao mesmo tempo que chega ao mercado internacional.

Para completar a boa fase, Raphael lançou, no dia 1º de setembro, seu mais novo suspense, A Estranha na Cama. No livro, o autor explora um subgênero que ainda não havia sido trabalhado por ele, abrindo espaço para novas referências e para uma escrita mais adulta.


Autor revela que começou a escrever a adaptação de 'A Estranha na Cama' antes mesmo de concluir o romance Julia Mataruna/Divulgação

“Para mim, foi muito desafiador. E eu acho que vai ser interessante para o leitor ver isso”, disse o autor sobre o novo livro. Para Raphael, A Estranha na Cama também representa uma mudança no tom de suas obras. “Acho que esse livro ainda vai chegar para um público talvez mais amplo, que não lê os outros livros, mas que eventualmente vai ficar curioso para ler esse”, completa.

Recém-lançado, o romance já tem uma adaptação para os cinemas confirmada para 2027. O filme terá direção de Esmir Filho (Homem com H) e será protagonizado por Paolla Oliveira, Bella Campos e Emílio Dantas.


Em entrevista ao R7, Raphael Montes comenta o momento atual da carreira, destaca elementos do seu processo de escrita e fala sobre sua atuação no audiovisual.

Leia a entrevista na íntegra:


R7 - Com o lançamento de A Estranha na Cama, seu novo romance, você apresenta ao público uma história que parte de uma temática diferente dos seus trabalhos anteriores. O que fez você querer explorar esse subgênero?

Raphael Montes: Eu acredito que o escritor tem que estar atento ao que acontece ao redor dele, né? Em alguns dos meus livros, aconteceu de eu tratar de algum assunto que, logo depois, viram um assunto maior, né?

Mais recentemente, em Uma Família Feliz, a [personagem] Eva faz bebês reborn e, logo depois que o livro saiu, teve uma febre de bebês reborn. Não por causa do livro, mas virou um assunto, né? Isso também aconteceu antes, com Bom Dia, Verônica, que fizemos o livro, eu e a Ilana [Casoy], e depois saiu a série. A violência doméstica sempre foi um assunto, claro, mas ganhou ainda mais força de denúncia [com o alcance do livro e da série], de identificar os sinais da violência doméstica, de denunciar e tal. Então, acho que o escritor tem que estar atento às coisas que estão acontecendo.

Para além disso, já tinha uma vontade minha de tratar de um gênero que eu adoro, que é o suspense erótico. Então, eu juntei tudo isso e tive a ideia de escrever A Estranha na Cama.

Eu acredito que o escritor tem que estar atento ao que acontece ao redor dele

(Raphael Montes)

R7 - Você já explorou diferentes vertentes do suspense ao longo da carreira. Como foi trabalhar com uma proposta diferente em A Estranha na Cama? E o que o público pode esperar?

Raphael Montes: Para mim, foi muito desafiador. E eu acho que vai ser interessante para o leitor ver isso. Eu tenho visto as primeiras resenhas [dos leitores]: “Eu não imaginei que o Raphael faria isso um dia”. Então, isso é uma coisa que me interessa. E outra coisa, que também é nova, é que esse é um livro meu, em algum lugar, mais adulto e menos assustador.

É um livro tenso, que te prende, mas não tem aquele lado assustador que alguns livros meus têm. E eu acho que isso também vem de um desejo meu, porque eu escuto muito: “Eu tenho vontade de ler o Raphael, mas tenho medo”. E eu acho que esse livro ainda vai chegar para um público talvez mais amplo, que não lê os outros livros, mas que eventualmente vai ficar curioso para ler esse.

Além de escritor, Raphael Montes também atua como roteirista e produtor em projetos para cinema e televisão Julia Mataruna/Divulgação
Eu tenho visto as primeiras resenhas [dos leitores]: “Eu não imaginei que o Raphael faria isso um dia”. Então, isso é uma coisa que me interessa

(Raphael Montes)

R7 - A Estranha na Cama também vai ganhar uma versão para o audiovisual. O que acontece com uma história quando ela deixa de ser só sua e passa a ser construída também por outros profissionais, com outras visões e outras interpretações? Como é dividir esse processo com tanta gente?

Raphael Montes: Olha, para mim é uma delícia. Eu realmente acredito que nem sempre eu tenho as melhores ideias, e elas podem vir dessa vontade coletiva de contar uma boa história. Eu acho que, como qualquer projeto, você precisa ter uma liderança, você precisa ter uma visão que diz: isso aqui sim, isso aqui não, por aqui não vamos e tal.

Mas a troca do audiovisual sempre me surpreende positivamente. Isso em todos os projetos que eu já fiz, tá? Em Bom Dia, Verônica, em Beleza Fatal… E eu acho que essa troca começa muito com o diretor. Você tem que encontrar um diretor parceiro. No caso de A Estranha na Cama, o filme é dirigido pelo Esmir Filho, que fez Homem com H e vários outros filmes, e é um diretor que eu já admirava. Então, por isso, a gente convidou o Esmir para fazer esse projeto. E, desde o início, ele topou que seria um projeto nosso. Então, é um projeto que é muito meu e é muito dele.

E eu acho que o resultado na tela vai mostrar esse encontro de dois artistas que têm opiniões, ou seja, não é que a gente concordava em tudo. Com frequência, a gente discordava e discutia, mas sempre com respeito, sempre com escuta para o outro. Porque se ele fala alguma coisa, com a experiência dele, com tudo o que ele fez, e que eu admiro, eu tenho que falar: talvez ele tenha alguma dose de razão.

R7 - E como é adaptar uma obra para outra linguagem? Quais são as diferenças entre contar uma história na literatura e levá-la para o audiovisual?

Raphael Montes: O que aconteceu de interessante, especificamente em A Estranha na Cama, é que eu estava escrevendo o livro quando surgiu o interesse pela adaptação. Eu contei a história e falaram: “Vamos fazer um filme”. Então, eu comecei a escrever o filme enquanto ainda estava escrevendo o livro.

Então, eu vou te dar um exemplo: os primeiros cinco minutos de filme são 50 páginas do livro. E depois, 50 páginas do livro viram meia hora de filme. Ou seja, os ritmos são diferentes, a maneira de contar é diferente.

A cena inicial é a mesma, mas, na literatura, eu posso te enredar de maneira mais devagar, enquanto um filme é um filme, você tem que entrar logo naquela história. Então, tem uma diferença na maneira de narrar que, para mim, alguém que gosta de estudar narrativa e entender como as histórias são contadas, é muito interessante.

Os ritmos [de um livro e um filme] são diferentes, a maneira de contar é diferente

(Raphael Montes)

Raphael Montes em entrevista ao jornalista Giovane Felix, do R7

R7 - Os seus romances costumam trabalhar com personagens moralmente ambíguos e situações em que o leitor nunca sabe exatamente em quem confiar. O que é mais interessante para você como autor: construir uma grande reviravolta ou provocar o leitor a questionar o caráter de um personagem?

Raphael Montes: O ideal é ter os dois, né? Mas, bem, eu começo as minhas histórias pela trama, sempre.

Então, quando eu tenho a ideia de A Estranha na Cama, é isso. Quem é esse casal? Quem é esse marido? Quem é essa esposa? Quem é essa estranha? Eu não sei, não faço a menor ideia quando eu tenho a ideia. Então, eu começo a investigar, eu começo a pensar mesmo: “Caramba, quem é bom que seja esse marido?”. Ah, é bom que ele seja importante, de modo que ele não pode chamar a polícia. É bom que ela viva uma vida de aparências, porque... E aí eu vou criando os personagens a partir da trama, do que a trama me pede, vamos dizer.

Conforme eu vou criando o personagem, ele ganha tanta importância para mim quanto a trama, ainda que eu comece pela trama.

Então, para responder à sua pergunta, eu acho que eu começo com as viradas. Ou seja, eu começo sabendo: “Ah, beleza, é a história de amigos e acontece isso, isso e isso”. Então, eu já sei as viradas. E aí, quando eu crio os personagens, eles, com frequência, trazem novas viradas para a história, quando eu aprofundo esses personagens.

Só que chega uma bela hora, quando você está escrevendo, que os personagens ganham vida. Quase que mandam em você um pouco. Então, tem hora que o personagem pede a virada, de algum modo, sabe? Acontece isso também.

Conforme eu vou criando o personagem, ele ganha tanta importância para mim quanto a trama, ainda que eu comece pela trama

(Raphael Montes)

R7 - Jantar Secreto completa dez anos com o lançamento de uma edição de colecionador e também chega ao mercado estrangeiro. Como é ver uma história que você escreveu há uma década ganhando novos leitores fora do Brasil? E o que significa, para você, ocupar esse espaço como um autor brasileiro dentro de outros países?

Raphael Montes: É uma delícia e é o objetivo. Assim, como eu falei, eu sou um autor que gosta de ser lido, gosta de ter público leitor. E mais: eu comecei a gostar de ler com a literatura policial clássica, que é inglesa e norte-americana.

Então, eu comecei lendo Agatha Christie, da Inglaterra, Patricia Highsmith, que é norte-americana, Cornell Woolrich, que é norte-americano. Então, ter a chance agora de ter uma história brasileira, com o universo brasileiro, cultura e música brasileiras, tudo — as personagens comem farofa —, [é uma oportunidade] de pegar uma história brasileira, mas, ao mesmo tempo, universal, porque essa é a delícia das boas histórias, a meu ver. Elas são específicas, são sobre um lugar e uma cultura, mas também são histórias sobre ambição, sobre angústia da juventude, sobre uma vontade de se dar bem na vida, coisas que eu acho que todo mundo tem, em qualquer lugar do mundo. Então, ter a chance de ter essas histórias chegando para o público estrangeiro me interessa muito.

Ter a chance de ter essas histórias chegando para o público estrangeiro me interessa muito

(Raphael Montes)

E, óbvio, quando você sai publicado em inglês, você acaba atraindo outros países, né? Então, o Jantar Secreto, por causa da publicação nos Estados Unidos e na Inglaterra, agora vai sair na França, na Itália, na Espanha, no Japão, na China. Hoje vendeu para a Romênia. É muito legal você ter esse interesse do mundo. Eu acho que é uma alegria.

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