Jovem escritora faz crítica a influencers de finanças: ‘Se esquecem da realidade do Brasil’
Malu Lira tem 16 anos, nasceu no interior do Amazonas e já lançou mais de 20 livros para ensinar crianças a lidarem com o dinheiro
Entrevista|Larissa Lopes, do R7
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Enquanto os millennials e a geração Z cresceram com Ruth Rocha e Ziraldo, a geração Alpha e as próximas podem aprender com livros como o de Maria Luiza Lira, conhecida como Malu Lira.
A jovem de 16 anos começou a estudar sobre dinheiro aos oito, quando pesquisou sobre “como ficar rica” no Google e se decepcionou com a resposta. Desde então, ela se dedica a ensinar educação financeira para crianças na internet e já lançou mais de 20 livros infantis.
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Nascida em Apuí, no interior do Amazonas, Malu se mudou com a família para Manaus, a capital do estado, ainda criança, e começou a ver menores de idade pedindo dinheiro no semáforo. Ali, segundo ela, se instalou a consciência de que o Brasil não é igual para todo mundo.
Quando criança, a jovem chegou a fazer bolos e pulseiras para vender e ter a própria grana. Depois, aos 11 anos, com uma mente cheia de ideias e dificuldade de concentração na escola, ela foi diagnosticada com altas habilidades.
Altas habilidades, também chamada de superdotação, é uma condição de quem aprende mais rápido e tem potencial elevado nas áreas acadêmica, intelectual, liderança, psicomotora e das artes.
Foi aí que os pais, Vânia e Assis, resolveram incentivar a filha a escrever — e o resultado já são mais de 400 mil exemplares vendidos e mais de 70 mil seguidores no Instagram desde então.
Em entrevista exclusiva ao R7, a jovem estudante, que também produz conteúdo nas redes sociais, opinou sobre o “erro” da maioria dos influenciadores de finanças.
“Vários criadores de conteúdo trazem dicas muito importantes, um discurso muito lindo. O problema é que isso não vai servir para todo mundo da mesma maneira. Eles se esquecem da realidade do Brasil. A gente vive em um país muito desigual”, aponta.
‘Economês’ para crianças
Malu fala de organização financeira sem usar o clássico discurso de que “todo mundo tem as mesmas 24 horas” no dia, focando em passos simples e possíveis. E, para fazer os pequenos entenderem a importância de poupar dinheiro, ela recriou histórias já conhecidas do público.
- Os Três Porquinhos Investidores
- Pinóquio e as Crenças sobre Dinheiro
- Chapeuzinho no Vermelho
- Cinderela Empreendedora
- Xereta Holmes
- João e o Pé da Riqueza

Em seu mais novo livro, Finanças desde Cedo - Além do Presente, Malu descomplica termos do “economês” de forma lúdica e ensina crianças e adolescentes a usar a mesada com consciência, fazer orçamento familiar e começar a investir.
Para além das páginas, Malu e os pais criaram iniciativas ligadas à educação e à literatura para ajudar outras pessoas, como o projeto social Cinderela Empreendedora. A capacitação ensina mulheres em situação de vulnerabilidade social e vítimas de violência doméstica a empreender.
Meus pais não tiveram educação financeira e, na escola, a gente também não tinha isso. Muitas crianças continuam nessa realidade
Veja a entrevista na íntegra:
R7 - Você acredita que existe um preconceito dos brasileiros, no geral, de não querer começar a estudar educação financeira?
Malu Lira - Eu sinto que a gente vem mudando muito de uns tempos para cá, e é por isso que temos tantos criadores de conteúdo de finanças hoje, para suprir essa demanda. Mas também sinto que é justamente por isso [esse preconceito] que a gente tem muitos influenciadores, porque ainda existem muitas pessoas com essa barreira.
São pessoas que olham a própria realidade, de uma família endividada, ou dos pais que brigam por causa de dinheiro, do vizinho que se muda porque está sem dinheiro para o aluguel, e começam a ver o dinheiro sempre como um vilão. E a verdade é que ele é só um pedaço de papel, mas com poder de te trazer uma vida melhor, se você souber usar.
Essas pessoas não acreditam que podem crescer financeiramente por conta própria e veem um golpe de sorte, como as bets, como a única maneira de ter um “dinheirinho” a mais para um rolê no final de semana. Mas a gente sabe como isso acaba no final: mais dívidas e problemas financeiros. É por isso que a gente precisa continuar com esse trabalho de educação financeira.
R7 - Você tem dois irmãos mais novos. Como você age com eles, considerando seu conhecimento sobre finanças?
Malu Lira - De vez em quando, eu dou uns toques neles, como quando entramos em alguma loja de brinquedos, por exemplo. Mas, em geral, os meus irmãos cuidam bem do dinheiro que ganham [de mesada] do papai e da mamãe. E gosto de ver que a minha irmã me admira muito.
R7 - Pegando o gancho na última Copa do Mundo, o que você achou do álbum de figurinhas custar quase R$ 1.000 para ser completado?
Malu Lira - Fico triste que está tão caro, mas é o que eu costumo dizer: na vida, o dinheiro serve para a gente viver o presente e se preparar para o futuro. Não vale a pena se endividar, parcelar e ficar gastando um montão de dinheiro com figurinhas só para realizar o momento, porque a criança já se diverte normalmente na Copa. Mas se a criança gosta do álbum, os pais têm condições e não vai afetar os seus investimentos, então [vale comprar] com consciência. A questão não é não gastar, é saber como e quando você pode gastar.
Muito mais valioso do que alcançar o seu sonho, é trilhar esse caminho pra sua família, porque você cria um caminho mais fácil pra quem vem depois
R7 - Teve algum brinquedo na infância que você queria muito e seus pais não conseguiram te dar?
Malu Lira - Eu gostava de ter dinheiro pra gastar no rodeio que tinha na minha cidade, mas também gostava de guardar para comprar sorvete com o meu primo durante as férias. Acho que foi por essas metas que eu comecei a guardar dinheiro e fazer bolo e pulseira para vender. Eu era uma mini empreendedora.
Lembro que quando me mudei para Manaus, pedi para os meus pais nem me darem mais aquele dinheiro [uma mesada de R$ 20], porque eu queria que eles guardassem. Tinha medo de ficar “sem teto” quando fosse adulta. Em Manaus, eu vi uma realidade que não via antes, de crianças no semáforo pedindo dinheiro. É um dos maiores exemplos que a gente tem da desigualdade.
Acho que as pessoas não gostam de falar sobre dinheiro porque é um reconhecimento que você não tem tanto controle sobre a sua vida quanto você acha que tem
R7 - Você pensa em publicar livros em outra língua, além do inglês?
Malu Lira - Os livros em inglês surgiram de uma demanda das escolas bilíngues, que nos procuraram para ter uma versão para trabalhar a língua. E eu tenho muita vontade de traduzir para o espanhol, porque estamos na América Latina.
Quando eu era criança, ficava muito mal com o fato de o Brasil ser o único país que não fala espanhol, eu sentia que a gente era excluído por causa disso. Não sei o porquê, mas eu ficava muito mal [risos].
A minha inspiração era o desenho da Barbie, e hoje eu sou essa inspiração para as crianças. É muito doido pensar nisso. E eles podem ser uma inspiração pra família deles
R7 - Em vários trechos do seu livro, Finanças Desde Cedo - Além do Presente, senti que você fez referência à sua família, principalmente quando fala de construir um caminho mais fácil para eles.
Malu Lira - Para mim, sempre foi muito natural entender de onde eu vim. Quando eu ia à escola a pé, com o meu pai do lado, durava uns dois ou três minutinhos de caminhada. Mas aí o meu pai já conta a história de que andava cinco quilômetros para ir à escola e outros cinco para voltar.
Eu posso ter publicado um livro com 11 anos, mas a minha mãe, com 12 anos, já estava morando sozinha com os irmãos, porque na comunidade onde meus avós moravam, não tinha escola para ela terminar os estudos. Minha mãe teve que trabalhar de doméstica durante o ensino médio e sempre trabalhou para fazer faculdade, foi uma das primeiras da família a conseguir.
Então, eu sempre tive muito claro: um dia quero dar um começo melhor para a minha família. E o que me movia muito a criar conteúdos, e até hoje me move, é parar para pensar que isso não se limita só a minha família, mas a muita gente por aí.
R7 - Como é para você ser tão nova e já ter feito tantas coisas? Você já foi julgada por falar de finanças aos 16 anos?
Malu Lira - Sim, por ser nova e também por ser menina. É muito complicado. Já recebi comentários por eu ser quem sou, mas sempre foi mais pela internet. E eu não diria que foram ataques, porque não gosto de colocar tudo que é “contra” como ataque.
Eu acho que qualquer pessoa que se coloca em posição pública, na internet ou em palestras, tem que pensar que isso pode acontecer. Mas a gente nunca está totalmente preparado para receber esses comentários.
Foi um dos motivos de, quando eu era pequena, os meus pais terem medo de deixar eu gravar vídeos [para a internet]. Mas sinto que, justamente por ter essa base familiar tão forte, isso sempre foi muito mais tranquilo pra mim.
R7 - Boa parte do que vemos nas redes sociais hoje são anúncios de produtos. Você acha que o adolescente deveria ficar um pouco mais longe delas para se proteger e ter mais educação financeira?
Malu Lira - É muito difícil a gente falar para ficar longe, porque são ferramentas, e muito mais do que apenas entretenimento. Comecei a aprender finanças pela internet, no YouTube, então não posso ser hipócrita de dizer que elas são um “lixo”.
Tenho um perfil para seguir só os criadores de conteúdo de educação financeira, onde eu montei o algoritmo só para isso. Então, é muito legal eu passar o tempo por lá, mas tem que ser tudo com equilíbrio.
Você não pode passar todo o seu tempo na rede social, tanto por não ser saudável mentalmente quanto por essa parte do consumo. Outra questão é quem você escolhe seguir, as influências que você coloca na sua vida.
Eu sou que nem a Hannah Montana: vivo o melhor dos dois mundos
R7 - Malu, apesar de o seu pensamento sempre ter tido essa relação com finanças, você foi uma criança que fazia coisas de criança?
Malu Lira - Eu acho que foi uma grande dificuldade minha, porque eu não entendia muito bem quando as pessoas falavam que eu era mais madura. Fui diagnosticada com altas habilidades, porque comecei a ter um pouco de dificuldade na escola, no quesito de ansiedade. Eu terminava as tarefas muito rápido e queria conversar, mas meus amigos não queriam falar de investimentos, e eu ficava muito mal.
Eu tenho uma capacidade de aprendizado muito alta, mas, ao mesmo tempo, o emocional de uma criança da minha idade. Então, eu sempre me interessei por assuntos de criança. Nunca tive pressa de crescer. Quando eu era pequena, chorava porque não queria crescer, inclusive. Ficava com medo de crescer, porque todo mundo falava que era difícil e só reclamava de ser adulto.
Hoje, eu aproveito a adolescência normalmente, gosto de sair com os meus amigos, sou uma pessoa normal.
R7 - Vários jovens que tiveram vidas públicas muito cedo enfrentaram problemas de saúde mental. Como você enxerga isso?
Malu Lira - Sinto que, até hoje, existe um grande estigma sobre saúde mental. Mas você pode ser feliz e estar na terapia. Tem coisas que a gente não consegue entender sozinho. Eu faço terapia e, inclusive, no final do meu livro, agradeço muito a todos os profissionais da área da saúde mental que me ajudaram nessa jornada, porque fiz acompanhamento com uma neuropsicóloga quando fui diagnosticada com altas habilidades.
Para ser bem sincera, eu sou escritora e falo de educação financeira, mas não vou ter o mesmo nível de sucesso, de fama, que a Larissa Manoela, por exemplo. Se bem que eu também já fui reconhecida na rua [risos].
R7 - Você pensa em fazer faculdade?
Malu Lira - Tenho um grande objetivo de estudar economia em Harvard. Acho muito legal a ideia de você aprender em outro lugar e poder voltar para o Brasil com essa bagagem maior e uma visão diferente.
R7 - Quais pessoas você admira e tem como inspiração hoje?
Malu Lira - A minha mãe. Tenho certeza de que o carinho e o amor que tenho pela educação vêm muito da minha família, porque a minha avó era professora e meu pai era professor de matemática da rede pública.
E outras pessoas, como a Nathalia Arcuri, porque foi o primeiro canal de finanças que eu vi na minha vida. A minha autora favorita de todos os tempos, Suzanne Collins, autora da saga Jogos Vorazes. Por fim, a Mari Coelho, dona da editora que publicou o meu primeiro livro.
R7 - Dizem que a gente tem que escrever o livro que gostaria de ler. Você sente que já escreveu os livros que gostaria de ter lido quando era mais nova?
Malu Lira - Quando escrevi o primeiro livro, eu pensava justamente nisso, em fazer algo que eu gostaria que tivesse me introduzido a finanças. Fico muito feliz de receber agradecimentos ao redor desse Brasil por causa do livro.













