Thais Carla revela mensagem da série Além do Peso: ‘Cuidar da saúde não nasce do ódio ao próprio corpo’
Influenciadora digital e dançarina estreia quadro no Hoje em Dia desta quarta (26)
Entrevista|Ana Damásio*, do R7

Aos quatro anos de idade, Thais Carla entrou em uma sala de balé clássico pela primeira vez, incentivada pela mãe, que buscava uma forma de fazer a filha perder peso. Lá, ela não encontrou a chave do emagrecimento, mas viu seu destino na dança.
Na infância, em Nova Iguaçu (RJ), ela conviveu com a ausência total de referências: não existiam bailarinas gordas na televisão ou nos palcos. Diante dos professores que diziam que seu corpo a impediria de chegar a qualquer lugar, ela decidiu que ele seria sua própria inspiração.
Nas redes sociais, Thais transformou a própria pele em escudo e bandeira, tornando-se uma das maiores vozes do ativismo body positive e contra a gordofobia no Brasil. No entanto, em abril de 2025, a influenciadora decidiu recalcular a rota de sua vida. Com o peso de 200 kg, ela optou por realizar uma cirurgia bariátrica focada estritamente em sua saúde e longevidade, processo que resultou na perda de 112 kg.
Ao atingir a marca atual de 88 kg, ela rebateu com firmeza os críticos que a acusaram de abandonar o movimento: sua decisão foi um ato de autonomia e cuidado, que jamais apagará sua história de luta.
Agora, toda essa bagagem acumulada serve de base para o seu mais novo desafio profissional na televisão. Thais assume o comando da série de 3 episódios Além do Peso, exibida no Hoje em Dia, na RECORD.
Em entrevista exclusiva ao R7, ela conta sobre a nova fase profissional na RECORD, fala sobre como cada pessoa passa por um processo de emagrecimento diferente e lamenta o cenário de gordofobia estrutural que ela observa no mundo.
Veja, a seguir, a entrevista na íntegra:
R7 - Como surgiu o convite para comandar a série Além do Peso no Hoje em Dia? Qual está sendo o maior desafio?
Thais Carla — O convite chegou em um momento muito simbólico da minha vida, porque eu também estou vivendo um processo de transformação. Quando me apresentaram a proposta, entendi que poderia falar sobre saúde a partir de um lugar muito mais humano, sem julgamentos e sem fórmulas prontas. O maior desafio é justamente esse: falar sobre mudanças no corpo sem reforçar a ideia de que existe um corpo certo ou que uma pessoa precisa emagrecer para ser feliz, respeitada ou digna.
“O maior desafio [da série Além do Peso] é falar sobre mudanças no corpo sem reforçar a ideia de que existe um corpo certo ou que uma pessoa precisa emagrecer para ser feliz, respeitada ou digna”
R7 - Você tem uma história com a RECORD: foi aqui que tudo começou, desde a época do Legendários. Como está sendo esse retorno para a emissora?
Thais Carla — É muito especial. A RECORD faz parte da minha história e voltar agora, em outra fase da minha vida e da minha carreira, mexe muito comigo. Eu chego mais madura, com muita coisa vivida, aprendida e ressignificada. Parece um reencontro, mas eu também sou uma Thais diferente daquela época.

R7 - Qual história dos participantes da série mais te emocionou ou fez te lembrar da sua própria trajetória?
Thais Carla — Cada história me atravessou de uma maneira, porque por trás de qualquer transformação física existe uma pessoa, uma família, medos, frustrações, sonhos e questões emocionais. Talvez o que mais tenha me conectado aos participantes seja perceber que nenhum processo é apenas sobre perder peso. Eu mesma estou entendendo cada vez mais que a minha transformação é principalmente interna.
“Por trás de qualquer transformação física existe uma pessoa, uma família, medos, frustrações, sonhos e questões emocionais”
R7 - O que o público da TV aberta pode esperar dessa nova mensagem que você está levando para as manhãs da RECORD?
Thais Carla — Pode esperar acolhimento e histórias reais. Quero que as pessoas entendam que cuidar da saúde não precisa nascer do ódio ao próprio corpo. Você pode querer mudar alguma coisa sem passar a odiar quem você era antes. E também pode respeitar quem escolhe caminhos diferentes do seu. Eu continuo acreditando que todo corpo merece respeito.
R7 - Qual foi a maior lição ou aprendizado que você levou para casa após encerrar as gravações da série?
Thais Carla — Que cada pessoa tem seu tempo e sua história. Não existe uma régua que sirva para todo mundo. E aprendi ainda mais que saúde envolve corpo, mas envolve muito a nossa cabeça também. Estou vivendo um momento em que cuidar da minha saúde psicológica e emocional tem sido fundamental para todas as outras mudanças que estão acontecendo comigo.
“Estou vivendo um momento em que cuidar da minha saúde psicológica e emocional tem sido fundamental para todas as outras mudanças que estão acontecendo comigo”
R7 - Você participou da escolha dos participantes ou da definição dos temas abordados em cada episódio?
Thais Carla — A construção do programa é um trabalho de equipe, e eu pude contribuir principalmente trazendo o meu olhar e a minha experiência. Para mim, era fundamental que as histórias fossem tratadas com respeito, sem exposição humilhante e sem transformar o corpo gordo em vilão. São pessoas, não números na balança.
“Para mim, era fundamental que as histórias [da série] fossem tratadas com respeito, sem exposição humilhante e sem transformar o corpo gordo em vilão. São pessoas, não números na balança”
R7 - O quadro mostra caminhos diferentes: o Matheus emagreceu 100 kg apenas com reeducação e exercícios, a Carol usou canetas emagrecedoras e a Andrea fez a bariátrica. Qual a importância de mostrar que não existe um “método único” para cuidar da saúde?
Thais Carla — Essa talvez seja uma das mensagens mais importantes. Cada corpo tem uma história, uma necessidade e uma realidade. O que funciona para uma pessoa pode não funcionar para outra. Existem diferentes possibilidades e todas precisam ser acompanhadas com responsabilidade e orientação profissional. O mais perigoso seria transformar a experiência de alguém em receita para todo mundo.
R7 - Como foi o momento de decidir por uma mudança drástica na saúde e encarar o processo da cirurgia bariátrica?
Thais Carla — Foi uma decisão pessoal e muito pensada. Não aconteceu porque eu passei a odiar meu corpo ou porque alguém me convenceu de que eu precisava ser magra. Foi uma decisão dentro de um momento específico da minha vida, com acompanhamento profissional e também com a compreensão de que eu precisava cuidar de outras áreas, principalmente da minha saúde emocional. A cirurgia não apaga a minha história e também não é uma recomendação para todas as pessoas gordas. Foi o caminho que eu escolhi para mim.

“A cirurgia não apaga a minha história e também não é uma recomendação para todas as pessoas gordas. Foi o caminho que eu escolhi para mim”
R7 - Em entrevistas recentes, você afirmou que nunca romantizou ou incentivou a obesidade, mas sim que “era gorda e estava vivendo”. Por que você acha que o público confunde tanto aceitação com apologia?
Thais Carla — Porque durante muito tempo ensinaram que uma pessoa gorda só poderia aparecer publicamente se estivesse tentando emagrecer. Quando uma mulher gorda coloca um biquíni, dança, trabalha, ama, viaja, tem autoestima e simplesmente vive, muita gente interpreta isso como incentivo à obesidade. Eu nunca disse para ninguém engordar ou não cuidar da saúde. Eu dizia que eu era gorda e tinha o direito de viver plenamente naquele corpo. E continuo defendendo isso. Meu emagrecimento não invalida nenhuma palavra que eu disse sobre dignidade, respeito e combate à gordofobia.
“Quando uma mulher gorda coloca um biquíni, dança, trabalha, ama, viaja, tem autoestima e simplesmente vive, muita gente interpreta isso como incentivo à obesidade”
R7 - De que maneira a sua relação com o próprio corpo e com o movimento mudou fisicamente e emocionalmente após perder mais de 100 kg?
Thais Carla — Fisicamente, existem mudanças muito perceptíveis, inclusive na mobilidade e na forma como meu corpo responde às atividades. Mas, emocionalmente, o processo é muito mais complexo. Perder mais de 100 kg não significa acordar no dia seguinte sendo outra pessoa. Existe uma adaptação à própria imagem e uma transformação psicológica que também precisa ser cuidada. Estou aprendendo a conhecer esse novo momento do meu corpo sem rejeitar a mulher que eu fui.

“Perder mais de 100 kg não significa acordar no dia seguinte sendo outra pessoa. Existe uma adaptação à própria imagem e uma transformação psicológica que também precisa ser cuidada”
R7 - Como você lida com a adaptação a uma nova rotina de exercícios físicos e alimentação sem perder a sua essência?
Thais Carla — Entendendo que a minha essência nunca esteve no tamanho do meu corpo. Eu continuo sendo a mesma mulher que acredita que ninguém deve ser humilhado, discriminado ou excluído por causa do peso. Hoje, tenho uma rotina diferente, uma alimentação diferente e estou conhecendo novas possibilidades para o meu corpo, mas isso não significa apagar a minha trajetória. Eu não preciso atacar a Thais de antes para celebrar a Thais de hoje.
“Minha essência nunca esteve no tamanho do meu corpo. Eu continuo sendo a mesma mulher que acredita que ninguém deve ser humilhado, discriminado ou excluído por causa do peso”
R7 - Você sente que as pessoas te ouvem de um jeito diferente atualmente? Como usa essa visibilidade renovada para ajudar o próximo?
Thais Carla — Infelizmente, existe uma diferença na forma como a sociedade trata e escuta uma pessoa depois que ela emagrece, e reconhecer isso também faz parte da luta contra a gordofobia. Eu não quero usar essa nova fase para dizer “façam o que eu fiz”. Quero usar a minha visibilidade para dizer: cuidem de vocês, da forma que fizer sentido para a realidade de vocês, com acompanhamento responsável, e não deixem ninguém convencer vocês de que precisam ter determinado corpo para merecer amor, trabalho, respeito ou felicidade. Eu mudei fisicamente, estou mudando muito internamente, mas não abandonei as pessoas gordas e muito menos a luta que fez parte da minha história. Ela continua fazendo parte de quem eu sou.
*Estagiária sob supervisão de Juliana Lambert
A série Além do Peso estreia no Hoje em Dia desta quarta (26), a partir das 10h, na tela da RECORD.














