‘Todos os pais e mães têm a mesma dor’, diz artista que transforma desenhos infantis em arte
Após deixar o mercado corporativo, Juna desenvolveu uma técnica própria para eternizar produções feitas por crianças
Entrevista|Maria Cunha
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Há quem guarde a infância em fotografias ou caixas de lembranças. Para a artista Juliana Nascimento, conhecida como Juna, esse período ganha forma em quadros, cores e texturas. Seu trabalho parte de desenhos feitos por crianças e os transforma em obras de arte contemporânea.
“A arte começou a aparecer para mim sempre vinculada à infância”, resume a artista visual em entrevista exclusiva ao R7. Hoje, ela trabalha com recorte, colagem e repintura dos traços originais.
A ideia nasceu dentro de casa. Depois de acumular pastas e mais pastas com desenhos da filha Lara, Juna decidiu transformar aquelas produções em uma obra para o quarto da criança. “Quando fiz isso, pensei: todos os pais e mães têm a mesma dor.”
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Antes da arte, porém, sua vida seguia outro caminho. Formada em Administração, ela trabalhou durante 14 anos no mercado corporativo. A virada veio após a maternidade e um processo de autoconhecimento.
Hoje, além dos quadros físicos, cada obra acompanha uma carta escrita à mão para a criança autora dos desenhos. “Estou escrevendo para o futuro adulto”, explica.
Veja a entrevista completa:
R7 Entrevista: Como você definiria a sua arte?
Juna — Basicamente, o meu trabalho é resgatar e eternizar a infância das famílias. Eu pego essa memória infantil que está expressa em desenhos guardados dentro de armários e dou vida para ela em uma arte mais contemporânea, para ser exposta na parede da casa das pessoas.
Meu trabalho está muito pautado nessa valorização da potência das crianças, que muitas vezes fica escondida dentro das famílias.
R7 Entrevista: Você veio do mercado corporativo. O que motivou essa virada para a arte?
Juna — Eu fui muito direcionada para o mundo corporativo pelos meus pais. Meu pai sempre falava: “Juliana, o mundo é dos negócios”. Me formei em Administração pela FGV e trabalhei durante 14 anos na Natura, mas sentia que aquele não era o lugar onde eu conseguia transbordar os meus talentos.
A virada veio depois de um processo de autoconhecimento e da maternidade. Minha filha Lara tinha cerca de 3 anos quando comecei a questionar o sentido da vida que eu levava.
Foi nesse período que a arte apareceu para mim, sempre vinculada à infância. Como toda mãe, eu acumulava desenhos da minha filha e não sabia o que fazer com aquilo. Um dia transformei aqueles desenhos em um quadro para o quarto dela e, quando fiz isso, pensei: ‘Todos os pais e mães têm a mesma dor’.

R7 Entrevista: Como funciona o processo de criação das obras?
Juna — A família me envia o acervo original de desenhos da criança. Minha técnica é totalmente manual e analógica. Eu trabalho com recorte, colagem e pintura.
Primeiro faço uma curadoria dos desenhos, entendendo os simbolismos e a fase do desenvolvimento daquela criança. Depois começo os recortes, a composição, a repintura e as intervenções artísticas.
A família recebe tanto o quadro físico quanto o arquivo digital em alta resolução. A ideia é eternizar essa memória.
R7 Entrevista: Além da obra, existe também uma carta escrita para a criança. Como funciona?
Juna — Eu escrevo uma carta de próprio punho que fica atrás da obra. Sempre brinco que a criança não vai entender aquilo aos 4 ou 5 anos. É uma carta para o futuro adulto.
Nela, eu agradeço a oportunidade de me expressar artisticamente através dos desenhos e falo sobre a importância de ela não perder a própria essência.
Gosto muito de uma frase do Nietzsche que guia minha vida: “torne-te quem tu és”. Para mim, o mais importante é a criança se tornar quem ela veio ser.

R7 Entrevista: Você fala muito sobre o “Estado de Ser Criança”. O que significa isso?
Juna — Para mim, a criança carrega potências que vamos perdendo na vida adulta: curiosidade, encantamento, imaginação, presença e liberdade para experimentar.
Ela também não tem medo do erro. Para ela, existe teste, descoberta, aprendizado. Somos nós que transformamos tudo em julgamento.
Eu acho que o adulto precisa beber mais dessa fonte. A criança vive muito mais conectada ao presente, ao processo e à criatividade.

R7 Entrevista: Como as famílias e as próprias crianças costumam reagir ao ver o resultado final?
Juna — É muito emocionante. As mães ficam encantadas quando veem a transformação dos desenhos em obra, e as crianças se apropriam muito daquilo. Muitas vezes recebem visitas em casa e levam as pessoas para mostrar o quadro. Elas reconhecem o próprio desenho e sentem orgulho.
Eu sempre digo que existe uma coautoria ali. Eu faço a curadoria, a composição e a repintura, mas a criança é a origem da obra. Quando a família valoriza a produção da criança, isso fortalece muito a confiança criativa dela.
R7 Entrevista: O que você espera que essas obras representem para essas crianças no futuro?
Juna — Eu espero que seja um resgate da essência delas. O desenho é a voz da criança antes mesmo de ela conseguir se expressar completamente em palavras.
Quando essa criança tiver 30, 40 ou 50 anos, eu espero que ela olhe para aquela obra e consiga revisitar quem ela era na origem.
Como diz a Lia Luft, “a infância é o chão onde a gente pisa a vida toda”. Para mim, é isso que a arte precisa despertar.














