‘O mundo está de olho no cinema brasileiro’, diz diretor Kauan Okuma Bueno, premiado em Gramado
Cineasta de ‘FrutaFizz’, exibido no maior festival de curtas do mundo, fala sobre o cenário do audiovisual no Brasil

Aos 24 anos, o cineasta Kauan Okuma Bueno já tem em seu currículo um prêmio de fazer inveja em muito diretor de longa trajetória. O primeiro curta-metragem que ele dirigiu, FrutaFizz, venceu como Melhor Filme na Mostra Competitiva de Curtas-Metragens Brasileiros do 53º Festival de Cinema de Gramado, realizado em agosto de 2025.
“Foi a primeira vez que eu percebi que as pessoas estavam comprando a história que eu estava contando”, celebra, em entrevista exclusiva ao R7.
E não para por aí. O estreante também ganhou repercussão internacional com FrutaFizz ao ser selecionado para o Festival de Clermont-Ferrand, na França — considerado o maior evento de curtas-metragens do mundo —, onde foi o único representante brasileiro na competição internacional principal. “Eu nunca imaginei que um francês veria um filme com sotaque mineiro”, brinca.
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O cinema não veio por acaso na vida de Kauan. Filho dos produtores Josmar Bueno Junior (que trabalhou em Carandiru) e Adriana Okuma, na infância ele já se encantava com as histórias do pai. Apesar disso, ele sabe da dificuldade de fazer filmes no Brasil, mesmo destacando que as leis de incentivo têm ajudado, e muito. “Não cabe em uma mão a quantidade de cineastas que conseguem viver só de cinema que eu conheço, principalmente em curta-metragem”, diz.
Mesmo assim, ele exalta o atual momento da sétima arte nacional, principalmente após os sucessos de Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto, indicados ao Oscar em 2025 e 2026, respectivamente — o primeiro venceu como Melhor Filme Internacional. “O mundo está de olho no cinema brasileiro agora”, afirma.
Durante o bate-papo, Kauan fala de suas inspirações, das dificuldades em fazer cinema e do atual cenário brasileiro. Confira:
R7: Como surgiu a ideia do filme?
Kauan Okuma Bueno: Eu tenho uma tia que mora no interior de São Paulo, e eu visitava esse lugar uma ou duas vezes por ano. A ideia surgiu daí: fazer um filme sobre um homem que visita uma cidade e começa a relembrar coisas do passado. Eu também gosto muito dessa conversa despojada, quase como um papo de bar, de um amigo empolgado contando histórias para o outro — e queria levar isso para o filme.
A proposta do curta é justamente essa: o personagem está trabalhando e, no intervalo entre um serviço e outro, conversa com um colega com quem nem tem tanta intimidade. Ainda assim, começa a compartilhar lembranças, dizendo coisas como: “Esse refrigerante aqui era o que eu tomava na infância”. Isso cria uma relação muito gostosa de alguém empolgado dividindo memórias e afetos.
Então, o filme fala sobre a forma como projetamos sentimentos nas coisas, como damos valor a lugares e objetos que talvez nem correspondam exatamente à realidade. A gente escolhe abraçar essa “mentira”, porque é assim que a memória funciona. A memória também é um lugar de invenção.
R7: FrutaFizz é o nome do refrigerante que aparece no filme. Ele é fictício, certo? Por que esse nome?
Kauan: Sim, ele é ficcional. A gente criou esse nome pensando em um conceito de refrigerante “brega”, de cidade pequena do interior. A ideia era ter um nome meio cafona, com um inglês no meio, como muitos produtos têm.
R7: Além de Renato Novaes, um ator veterano no papel do protagonista, e do diretor de fotografia Rodolfo Sanchez, de 82 anos, que tem uma longa carreira de sucesso, você escolheu pessoas que não são atores para participar do filme, como Tia Neide. Como foi isso?

Kauan: Conheci a tia Neide numa roda de samba e me apaixonei muito pela figura dela. Ela já tinha exatamente o calor que o personagem precisava. E tem uma coisa que eu gosto muito: o código corporal. Quando você coloca um corpo em cena, ele já comunica algo antes mesmo de falar. A tia Neide, sem precisar atuar ou fingir ser outra pessoa, já traz uma verdade enorme. Ela estava livre para improvisar, soltar cacos, e fluiu muito bem. Ela é uma baita atriz.
No FrutaFizz, metade da equipe era de colegas meus, estreantes, e a outra metade era de veteranos, como o Rodolfo, que foi o diretor de fotografia. Ele tem 82 anos e fez filmes como Pixote e O Beijo da Mulher-Aranha. Foi uma troca absurda. Ele estava há muito tempo sem filmar. A gente literalmente tirou ele do asilo para filmar, e foi incrível.
R7: E como você conheceu o Rodolfo Sanchez?
Kauan: Eu estou fazendo um documentário sobre ele. Descobri que ele fazia reuniões de cinema no asilo onde mora. As pessoas de lá não acreditavam que ele fazia cinema. Eu consegui o telefone dele e comecei a ligar, conversar e visitar. Ele virou um mentor para mim.
R7: O FrutaFizz fez sua estreia mundial em Gramado em agosto do ano passado. E, logo em seu primeiro festival importante, você ganhou o prêmio de melhor curta-metragem. Como foi levar o Kikito para casa?
Kauan: Foi muito doido. Esse foi meu primeiro filme profissional fora da faculdade. Ganhar o prêmio de melhor filme foi algo que eu não esperava. Foi a primeira vez que eu percebi que as pessoas estavam comprando a história que eu estava contando. Que o que você está fazendo é bom, não é mais maluquice, não é só uma piração pessoal e artística. O filme deixa de ser só seu e passa a ser do público. Cada pessoa interpreta de um jeito. E isso é maravilhoso. A gente achava que não ia levar nada. Estávamos felizes só por estar lá. E aí veio o prêmio.
R7: Como foi a experiência no festival de Clermont-Ferrand, o maior evento de curtas-metragens do mundo?

Kauan: O Clermont-Ferrand tem várias categorias. O Fruta Fizz era o único brasileiro competindo na mostra internacional principal, com filmes do mundo todo. Foi muito bonito ver o alcance do filme. Eu nunca imaginei que um francês veria um filme com sotaque mineiro, feito na divisa de Minas com São Paulo.
R7: Seu pai trabalhou na RECORD e é produtor de cinema. Isso influenciou sua decisão de se tornar cineasta?
Kauan: Sim. Tanto meu pai quanto minha mãe foram produtores de cinema, e eu cresci vendo making of de várias produções. Eu lembro de assistir a filmes como Carandiru, em que meu pai foi assistente de produção, e ele me contar detalhes do que aconteceu, como foi filmado, como foi o processo. Isso me despertou muito interesse. Eu sempre gostei de cinema e de contar histórias. E hoje estou num momento em que quero criar ficções com elementos documentais. Quero trazer o documentário para dentro da ficção.
R7: A gente sabe que o cinema no Brasil ainda não é muito valorizado, apesar do sucesso de Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto. Como você mesmo disse, seu filme só saiu do papel graças a leis de incentivo. O que te move a fazer cinema, então?
Kauan: Essa é uma pergunta difícil. O Rodolfo me perguntou uma vez: “Por que você quer entrar num ofício que já nasceu morto?”. Eu achei engraçado. Eu nunca tive muito essa resposta; eu tive uma influência e uma facilidade de querer estar em um set de filmagem. Mas eu acho que faço cinema porque gosto de contar histórias. É o método que mais me agrada. Eu até fazia teatro antes e achava que ia ser ator, mas o cinema acabou ficando mais forte.
R7: Como você vê o cinema brasileiro atualmente?

Kauan: Gosto de falar que eu e minha geração, que está fazendo cinema agora, temos muita sorte, porque é o melhor momento para fazer cinema. Óbvio, tem muita coisa para melhorar, mas as leis de incentivo estão aí para ajudar, e o mundo está de olho no cinema brasileiro agora.
A gente está voltando a crescer e virar um símbolo internacional de cinema. E isso é muito bom. Isso me motiva não só criativamente; é uma esperança muito mercadológica. Você começa a ver num lugar mais operário mesmo, porque a gente tem que contar história, mas depende disso para ganhar dinheiro.
R7: Mas é possível ganhar dinheiro vivendo de cinema?
Kauan: Nossa, não cabe em uma mão a quantidade de cineastas que conseguem viver só de cinema que eu conheço. Sempre tem que trabalhar com outra coisa. É muito difícil você conseguir viver só de cinema, principalmente em curta-metragem.
Eu trabalhei muito como editor de vídeo para redes sociais e outros projetos, ou produção em set. E, quando apertou muito, por um período pequeno, eu fiz entregas do iFood para complementar renda.
Mas, depois que o Fruta Fizz começou a crescer, minha vida virou muito rápido. Hoje eu consigo trabalhar mais dentro da área.
R7: O que achou da participação de O Agente Secreto no Oscar deste ano?
Kauan: O Oscar é positivo para o Brasil no quesito de alcance e visibilidade. Ele amplia o debate e permite que o universo do audiovisual internacional entre em contato com recortes que só a cultura brasileira pode oferecer. No entanto, costumamos transformar o Oscar em um termômetro absoluto de sucesso e lamentar quando o Brasil não leva uma estatueta.
É importante lembrar que, apesar de sua relevância histórica, o Oscar não é um festival universal do cinema, mas uma premiação norte-americana, com seus próprios critérios. Exigir que um festival como esse entenda as nuances do cotidiano brasileiro que engrandece e traz alma às obras é ilusório.
O Brasil pode não ter vencido nesta edição, mas tem conquistado espaço e reconhecimento em diversos grandes festivais internacionais, comunicando-se com diversas culturas por meio de sua estética e fábula. Se tiramos o Oscar desse lugar de parâmetro, não carregamos derrota.
R7: Você sonha em chegar ao Oscar ou a grandes premiações internacionais?
Kauan: Sim, mexe comigo. É lindo pensar nisso. Mas eu tento não fazer filme pensando em festival, porque você se perde artisticamente. Eu ainda sou jovem, estou pesquisando linguagem, tom, direção. Mas é lindo imaginar esse alcance. Já é surreal pensar que o filme chegou em Gramado e em Clermont.
R7: Quais são seus próximos projetos?
Kauan: Tenho dois projetos em desenvolvimento. Um é o documentário sobre o Rodolfo Sanchez, acompanhando a história dele e o fato de ele ainda estar ativo no cinema aos 82 anos.
O outro é um curta de ficção que se passa na Zona Norte de São Paulo, onde eu moro. É sobre um menino que vai se mudar e passa seu último dia brincando com os amigos, tentando esquecer que está indo embora.
R7: O que você projeta para sua carreira?
Kauan: Eu quero continuar fazendo filmes e conseguir viver disso. O cinema é uma bolha difícil de entrar. É muito por indicação. Você faz um trabalho, alguém gosta, te chama, e você vai entrando.
Minha meta é poder contar histórias sem precisar ter outros trabalhos para sobreviver.

















