De São Paulo à Ucrânia: projeto coloca a educação brasileira no mapa mundial
Débora Garofalo explica como o robótica com sucata mudou a vida de uma comunidade na capital paulista e chegou à Europa
Entrevista|Guilherme Fagundes, do R7
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Em fevereiro deste ano, Débora Garofalo foi reconhecida como a professora mais influente do mundo pela Fundação Varkey, instituição que organiza o Global Teacher Prize, conhecido como o “Nobel da Educação”. Segundo a Fundação Varkey, o novo prêmio reconhece o trabalho de um professor que usa as redes sociais para expandir o aprendizado para além da sala de aula.
Débora conquistou visibilidade mundial com o projeto robótica com sucata, criado em 2015 quando ela era professora de tecnologia e inovação na escola municipal Almirante Ary Parreiras, localizada na zona sul de São Paulo. Em entrevista ao R7, Débora Garofalo detalha como o projeto nasceu após ouvir os relatos dos alunos sobre as dificuldades da comunidade, como enchentes e doenças, além de enfrentar a desconfiança de outros professores e a violência na região.
O robótica com sucata se tornou uma política pública em São Paulo e hoje atinge 3,7 milhões de estudantes, em 5.400 escolas do Estado. Em 2025, Débora esteve na Ucrânia, a convite do presidente Volodymyr Zelensky, e ensinou estudantes ucranianos a fazerem lanternas com sucata. Nesta entrevista, a educadora relata como foi experiência no país europeu e admite frustração com a falta de valorização dos professores no Brasil.
R7: Como surgiu a ideia de criar o projeto robótica com sucata?
Débora Garofalo: A ideia do projeto nasce de uma problemática social trazida pelos próprios estudantes quando eu chego à EMEF (Escola Municipal de Ensino Fundamental) Almirante Ary Parreiras, em 2015. Os alunos me relatavam que não conseguiam chegar até a escola em dias de chuva, principalmente na época do verão, e que isso trazia muitas doenças, como dengue e leptospirose. Eu queria muito iniciar um trabalho com eles no âmbito de tecnologia e inovação. Quando eles me trouxeram essa problemática do lixo, eu pensei: eu só tenho dois caminhos. Vou me lamentar por aquilo que não tenho para trabalhar com essas crianças, que seria um kit específico, ou vou abraçar esse lixo como objeto de conhecimento, mesmo sabendo que enfrentaria muitos desafios, como o tráfico de drogas e, inclusive, os meus próprios colegas, que muitas vezes criticavam que o trabalho que eu estava fazendo era artesanato. Então, a todo momento, eu tinha que provar que existia ali um processo de automação por trás daquilo, que as coisas funcionavam por meio de uma programação específica. Eu preferi essa segunda opção, mostrando para os estudantes o potencial que eles tinham na comunidade. Eles me relataram duas coisas. A primeira: “Professora, você vai tirar a gente da nossa única aula de tecnologia para a gente pegar lixo na rua?”. Para essa questão que eles estavam me trazendo, eu estava muito preparada para mostrar o quanto eles poderiam ser protagonistas e o quanto poderiam intervir na própria comunidade. Mas houve uma outra fala que mexeu bastante comigo. Eles disseram: “Professora, mas robótica não é para estudante de escola pública. A gente não tem essa capacidade de aprender robótica”. Isso me marcou, porque eram crianças de pouca idade — estou falando de turmas de 6 a 14 anos — que não se sentiam capazes de aprender robótica. A partir disso, houve todo um trabalho de sensibilização, com aulas públicas, saídas às ruas, conversas com moradores para entender melhor a questão do lixo e a coleta de materiais que poderiam ser levados para a sala de aula. Foi assim que criamos o nosso primeiro protótipo: um carrinho movido a balão de ar, simples, mas suficiente para que eles se descobrissem criadores. A partir desse primeiro passo, comecei a motivá-los a criar outras soluções, sempre partindo de problemas reais da comunidade.
R7: Então teve uma resistência dos alunos no começo do projeto?
Débora Garofalo: Muita. Essa foi uma primeira resistência, porque eles queriam jogar. Eles achavam que a tecnologia é isso, você ficar nas redes sociais, ver vídeo no YouTube. Nunca que eles poderiam se envolver com uma tecnologia onde eles não fossem produtores, eles fossem apenas consumidores. Era essa visão que eles tinham. Eu vou consumir essa tecnologia, eu não vou produzir ela. Então foi toda uma mudança e, fora isso, o meu próprio papel como uma professora mulher. A todo o tempo ali me testando, para entender o que eu sabia, o que eu não sabia, aí chegou um determinado momento, eu falei assim: “Olha, eu não sei resolver isso”. Eles ficaram todos pasmos olhando para mim e eu falei para eles: “Mas eu estou aqui à disposição de aprender junto com vocês. Então, se a gente se esforçar, a gente pode aprender junto.” E isso, inclusive, mudou a minha relação com os meus estudantes, de mostrar que eu não estava acima deles, e que eu estava num grau também de equidade com eles de que está ali uma professora que aprende junto com processos.
R7: Qual foi o maior desafio para a implementação do projeto?
Débora Garofalo: Eu diria que foi um conjunto, porque, quando comecei esse trabalho, a minha diretora não acreditava no potencial. Ela tinha medo de que eu fosse para as ruas com as crianças, pois dizia: “Ah, mas vocês podem correr risco de vida, vocês podem tomar um tiro”. E eu tinha que argumentar com ela, porque a escola já era uma rota de fuga de bandidos na comunidade. Então, eu falava: “Mas a mesma coisa pode acontecer comigo dando aula aqui, porque estamos em uma área de risco. Eles invadem a escola quando precisam fugir de alguma coisa.” Esse foi o primeiro aspecto. O segundo aspecto era que a coordenação — e não era por maldade — não enxergava uma aula de tecnologia na rua, por exemplo. Eu nunca me esqueço de uma vez em que a coordenadora bateu nas minhas costas enquanto eu estava dando uma aula no pátio da escola. Estávamos fazendo uma atividade prática, e eu precisava de mais espaço. Ela virou para mim e disse: “Débora, eu nunca imaginei uma aula de tecnologia no pátio da escola.” Ela não estava sendo maldosa, mas realmente falava a partir de uma visão de quem nunca enxergou o potencial da tecnologia como tecnologia social ou com um tipo de abordagem diferenciada para desenvolver esse trabalho. Os meus colegas professores, logo quando eu cheguei na escola, acharam um absurdo eu fazer esse trabalho, porque era um trabalho que dava muito trabalho. Tinha que sair às ruas, coletar material, conversar com os moradores, lavar, separar, pesar, depois entender que parcerias poderíamos fazer com ONGs, incluir famílias no CadÚnico — enfim, era toda uma sistemática. Onde eles começaram a ver valor? Quando os estudantes começaram a mudar. Por fim, vieram os próprios moradores. No começo, quando as crianças os abordavam, ouviam respostas como: “Ah, eu não tenho tempo para conversar com você, menino. Imagina, lixo está em todo lugar”. Então, foi todo um processo de sensibilização das crianças, com persistência e resiliência para continuar insistindo. E quando a comunidade percebeu o efeito disso? Quando começou a sentir, na prática, que o trabalho estava surtindo resultado. Quando as enchentes diminuíram, quando as doenças diminuíram, quando os estudantes começaram a criar diferentes protótipos com aquele lixo, que a gente abria para a comunidade visitar. Então, houve toda uma mudança cultural, mas eu acho que o maior desafio foi tirar aqueles estudantes do senso comum. Era mostrar para eles que, independentemente de onde estavam inseridos, naquele contexto de extrema pobreza, poderiam ser protagonistas da própria história, sonhar com universidades e aprender robótica, porque robótica também é para estudantes de escola pública. Houve, portanto, toda essa quebra de paradigma: mostrar que eles poderiam ser o que quisessem e que, por estarem inseridos em uma comunidade carente, isso não os impediria de aprender.
R7: Teve alguma mudança também por parte dos pais dos alunos em relação à questão ambiental na comunidade?
Débora Garofalo: Totalmente. Esse trabalho obteve resultados incríveis em três anos e meio dentro da comunidade, porque, depois do primeiro prêmio, eu me afastei da sala de aula, mas o projeto permanece até hoje como uma política pública. No início, eles não viam sentido, mas, com o tempo, começaram a perceber os resultados e a aderir. Eu tive muito cuidado para não interferir negativamente na vida das pessoas, porque muitas delas, na comunidade, vivem do lixo, sobrevivem dele. Então, o que fizemos foi criar a escola como um polo de material reciclável, sem interferir, em um primeiro momento, na dinâmica da comunidade. Depois, passamos a firmar parcerias com ONGs justamente para empregar essas famílias inscritas no CadÚnico, permitindo que trabalhassem com materiais recicláveis. Ao longo dos três anos e meio de trabalho, coletamos mais de uma tonelada de material, que foi transformada em protótipos. O restante, que não podia ser utilizado, era destinado corretamente. Dou um exemplo: latas de alumínio, que são cortantes e não adequadas para os estudantes manusearem sem estrutura específica. Esse tipo de material era revendido para essas ONGs, gerando uma verba via APM da escola, que permitia a compra de motores, fios e placas, tornando o projeto autossustentável. Assim, moradores, comunidade e familiares — e eu digo familiares porque muitos estudantes não tinham os pais presentes, alguns estavam no sistema prisional — passaram a enxergar a importância do trabalho. Os próprios alunos se tornaram protagonistas dentro de casa, ajudando a reeducar a comunidade para a reciclagem e o uso consciente dos materiais.
R7: O prêmio que a senhora ganhou fala da questão de utilizar as redes sociais na educação, mas há uma resistência de alguns pais e professores. É possível aliar a rede social com a educação?
Débora Garofalo: Eu acho totalmente possível. A minha história ocorre de maneira muito natural. Comecei nas redes sociais por volta de 2014 e 2015, quando passei a ver os resultados desse trabalho e pensei: “Eu não posso guardar isso só para mim. Acho que, de alguma forma, preciso tentar democratizar o acesso ao que está acontecendo aqui”, com esses estudantes e com essa troca. Depois, com a minha saída da sala de aula em 2019 e a ida para as políticas públicas, continuei movimentando essas redes sociais, mas com outros objetivos: dar visibilidade à educação. Passamos a trocar ideias sobre democratização do acesso à tecnologia e inovação, debater problemas relacionados à formação docente, comentar políticas públicas e ações em nível federal. E eu vejo o quanto isso tem impacto.Eu nunca quis e nem me coloco nesse papel de influencer, mas eu coloco no papel da gente utilizar essas ferramentas para democratizar o acesso. E aí, quando a gente fala especificamente de redes sociais de ensino com estudante, eu vejo assim dois caminhos. Um, foi importante, sim, a gente ter a proibição dos celulares em sala de aula e esse é um tema bastante pertinente, porque há uma distração. Mas eu trago um ponto muito importante para o nosso país, que é a implementação de um currículo de tecnologia e inovação. Temos um documento, a BNCC (Base Nacional Comum Curricular) da Computação, já aprovado desde 2022, e, em 2026, ainda estamos em fase de implementação — que não é simples. Por quê? Porque não temos profissionais preparados, faltam recursos orçamentários, há problemas de infraestrutura e estamos falando de inovação nesse cenário. Ainda assim, isso é fundamental para que os nossos estudantes não sejam apenas consumidores de tecnologia, mas também produtores. Então, eu não acredito, enquanto professora, que apenas uma proibição vá resolver o problema. Por quê? Porque o estudante pode não acessar na escola, mas e na residência dele? Como esse trabalho é feito em paralelo com a família? E eu vou te dizer: é um trabalho cultural, até pela experiência que eu tive. Eu precisei de três anos e meio para mobilizar uma comunidade em torno de um problema que era deles, no qual estavam inseridos, para que também tomassem uma ação de sensibilização. Então, a mesma coisa ocorre com o aparelho celular. Hoje, precisamos formar um estudante para ser curador de informação. Eu acho que nesse quesito ainda falta muito para a gente evoluir. Eu apoio a limitação do uso de celular em escolas, mas faço uma ressalva muito importante: nós, enquanto país, estamos perdendo a oportunidade de educar esses estudantes. O papel da família precisa entrar nessa discussão, que deve começar na escola, já que ela também é uma grande formadora de opinião nesse tema. Eu me lembro de uma pesquisa da PwC, de 2022, que aponta que 70% dos estudantes da rede pública não têm acesso à conectividade em suas casas. Ao proibir o uso em sala de aula — ainda que ele seja permitido para fins pedagógicos —, muitos professores ainda têm receio de lidar com essa tecnologia; há um paradigma muito grande. Com isso, acabamos restringindo ainda mais esse estudante, aprofundando a desigualdade. Por isso, reforço: apenas proibir não resolve o problema. Também é preciso educar e, para isso, devemos levar um currículo de tecnologia e inovação para dentro da sala de aula.
R7: A senhora vislumbra novos projetos e ações para desenvolver a partir dessa visibilidade que ganhou com o prêmio?
Débora Garofalo: Então, eu tenho aproveitado, sim, como fiz em 2019, para dar visibilidade à educação, mas acho que, desta vez, o prêmio vem com um recado muito claro: é preciso investir em educação. Eu ainda tenho uma luta pela nossa educação, porque vi o meu projeto — o trabalho de robótica com sucata — se tornar uma política pública no Estado de São Paulo. Isso aconteceu porque tive a oportunidade de ser convidada a integrar a Secretaria Estadual de Educação e levar esse trabalho para 3,7 milhões de estudantes, em 5.400 escolas. Eu sonho com o dia em que um projeto de um professor se torne uma política pública nacional. Hoje, sinto que sou mais reconhecida fora do país do que dentro dele. Vou te dar um exemplo claro. Eu recebi um convite do presidente Zelensky para ir para Ucrânia no meio da guerra, em setembro do ano passado, para levar esse trabalho de robótica com sucata para educação ucraniana. E eu fui. Com medo, mas fui. A gente não vê o inverso acontecendo dentro do nosso país. Então, acho que o prêmio traz uma resposta muito clara: é preciso continuar investindo em educação. E o meu papel hoje, a minha responsabilidade, inclusive com o prêmio, é continuar militando em prol disso. Sigo apoiando diferentes secretarias. Atualmente, estou afastada do meu cargo — sou professora de carreira do município de São Paulo —, sem vencimentos desde junho do ano passado, justamente porque estou trabalhando com formação docente pelo país, por meio de consultorias para apoiar secretarias municipais e estaduais de educação, especialmente na implementação da BNCC da Computação. Pretendo continuar seguindo com esse trabalho, porque vejo que o prêmio também traz um recado claro: “Você está no caminho certo, então continue”. Mas eu gostaria muito de ter um apoio interno que ainda não temos. Fico muito feliz em representar tantos outros professores, tantos colegas que talvez não tenham a mesma oportunidade que eu tive de ser reconhecida por esse prêmio — e isso aumenta ainda mais a minha responsabilidade. Ao mesmo tempo, como professora, me sinto frustrada ao ver tanto reconhecimento lá fora. Ver as pessoas dizendo: “Nossa, que trabalho maravilhoso, isso precisa estar aqui”, enquanto, no nosso país, ainda não vemos esse mesmo movimento acontecer.
R7: Como é que foi essa experiência na Ucrânia?
Débora Garofalo: Então, eu fui convidada para participar de um summit em prol da educação, organizado pelo governo ucraniano. A esposa do presidente, Olena Zelenska, que lidera parte dessa iniciativa, também esteve envolvida, e havia representantes de vários países da Europa comigo. A viagem foi bastante cansativa por conta do espaço aéreo fechado. Tive que ir para a França, de lá pegar um voo até a Polônia, depois viajar quatro horas de carro até a fronteira com a Ucrânia e, já dentro do país, pegar um trem de 12 horas até Kiev. Foi uma aventura e tanto, mas valeu muito a pena. Mesmo diante de um país em guerra, ver o sofrimento das crianças que passaram pela pandemia e que hoje ainda vivem com sirenes tocando a cada cinco minutos, tendo que ir para abrigos e interromper suas rotinas, mostra a realidade dura que elas enfrentam diariamente. Eu tive a minha vida interrompida lá na Ucrânia, tendo que dormir em abrigo por conta dos bombardeios, e eu nunca tinha passado por isso. É muito forte ver a força dos professores ucranianos, que, muitas vezes, passam por situações que não conhecemos, inclusive tortura. Porque, cada vez que uma cidade é tomada pelos russos, aquela origem ucraniana se perde, assim como a cultura e a educação do país. Ainda assim, muitos tentam manter suas atividades de alguma forma e, quando são descobertos, acabam sendo torturados ou presos. Isso mostra a força da educação na preservação da cultura e da identidade de um povo. Eu fui convidada para levar o trabalho de robótica com sucata a um país que, em termos de infraestrutura educacional, é muito mais desenvolvido que o Brasil, mas que, naquele contexto, enfrentava dificuldades para realizar ações mais simples. Eu ensinei jovens de uma escola pública ucraniana a criar lanternas para que pudessem enfrentar o inverno, que é extremamente rigoroso, com neve, e durante o qual ficam sem luz por causa dos apagões de energia, já que o sistema elétrico está totalmente comprometido no país. Então, levei um pouco desse trabalho como forma de apoio, para que eles também pudessem ensinar a própria comunidade a produzir lanternas sustentáveis, evitando ficar completamente no escuro e possibilitando, por exemplo, ler um livro. Mas o que mais me marcou foi ver a força do povo ucraniano e como a força da educação é algo realmente bonito.
R7: Qual é o principal desafio da educação pública brasileira hoje?
Débora Garofalo: Eu vou te responder essa pergunta com dados. Hoje, 82,9% dos nossos estudantes estudam em escolas públicas. São mais de 577 mil escolas, segundo o censo do IBGE, e quase 49% não têm infraestrutura básica, como saneamento, para funcionar. Quando olhamos para esse cenário, estamos falando de inteligência artificial, uso de robótica, mas também de professores que não estão preparados — e eu me incluo nisso. A minha formação não me deu suporte para trabalhar com tecnologia. Sempre digo que sou formada na área de humanas. Foi trabalhando na indústria que percebi o potencial da tecnologia, e isso começou a me gerar uma inquietação muito forte, porque os jovens colocavam no currículo, recém-saídos do ensino médio, que dominavam tecnologia, mas, na hora do teste prático, descobríamos que não sabiam nada. É a história de serem consumidores de tecnologia e não produtores. Quando eu olho para os problemas do nosso país, eu diria que são muitos. Ainda precisamos alfabetizar as crianças no tempo certo. Acho que utilizamos muito pouco das experiências de sucesso que temos aqui, como a de Sobral, que é reconhecida internacionalmente. Vou te dar um exemplo: no summit na Ucrânia, a única referência ao Brasil foi justamente a experiência de Sobral na alfabetização na idade certa. E veja, ainda enfrentamos sérios problemas de alfabetização no nosso país. Nós temos sérios problemas de formação inicial e continuada dos nossos professores. Os nossos professores não saem preparados para lidar com a docência. Eu falo isso por experiência própria: fiz magistério e digo, sem medo algum, que ele foi melhor do que as duas universidades que cursei. Isso porque o magistério me preparava pela manhã com teorias e discussões sobre o que eu enfrentaria na escola e, à tarde, passei quatro anos fazendo residência pedagógica. Hoje, não temos mais isso. Se compararmos com a profissão médica, o médico não sai da formação e já vai clinicar. Ele passa por uma residência, em que é orientado. O mesmo deveria acontecer na educação. Mas, para isso, precisamos de investimento, garantir bolsas para que as pessoas consigam se manter. Eu adoraria dedicar mais tempo aos estudos, mas preciso trabalhar — como muitos colegas que já tiveram que atuar em duas ou três escolas ao mesmo tempo. É muito difícil conciliar tudo isso com os estudos, ainda mais na vida de professor, em que nunca se para de aprender. Temos um problema sério de infraestrutura, mas também de políticas de formação e valorização docente. E não estou falando apenas de salário, mas, principalmente, de condições de trabalho. Hoje a gente sabe que os nossos estudantes estão doentes e nós, professores, também estamos. Então, como lidar com todos esses vieses dentro da sala de aula e da educação? Eu diria que precisamos fazer muito bem o básico para poder avançar. Quando olhamos para o resultado do trabalho com robótica, colocamos a educação brasileira no centro do debate mundial. Hoje, temos a imprensa brasileira acompanhando e contando essa história de diferentes formas, mas também vemos a imprensa internacional dando visibilidade a esse trabalho. E eu fico sempre pensando: qual é o legado que esse prêmio pode trazer? Acredito que o maior legado seja o investimento em educação.














