A ‘diarreia explosiva’ matou a salada?
Crescente número de infecções por parasita reduz consumo de verduras e frutas frescas e preocupa setor de alimentação
Internacional|Zoe Sottile e Leah Asmelash, da CNN Internacional
LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA
Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Com o aumento dos casos de 'diarreia explosiva' em todo o país, restaurantes tiveram que fazer algumas mudanças.
O Street Beet, restaurante vegano em Detroit (EUA), passou a remover a primeira camada dos pés de alface e a lavá-los duas vezes. Cerca de um quarto dos clientes tem pedido pratos sem alface, enquanto outros solicitam a retirada de pico de gallo, coentro e outros ingredientes ricos em folhas verdes.
O wrap Caesar de “frango” — feito com tofu e molho de missô — é um dos itens mais populares da casa, mas os pedidos diminuíram.
No geral, as vendas caíram US$ 3 mil (cerca de R$ 15,2 mil) na última semana em comparação com o mesmo período de anos anteriores.
“Estamos atribuindo isso à preocupação da comunidade em comer fora e consumir produtos agrícolas comerciais”, afirmou Danae Florias, diretora de operações do restaurante. “Foi uma queda perceptível, e esperamos que continue assim até que o surto diminua ou seja contido, e a fonte seja identificada.”
A salada, como a conhecemos, acabou? Nenhum alimento específico, produtor ou fornecedor foi identificado como origem do surto de ciclosporíase deste verão. A doença é causada pela Cyclospora, um parasita microscópico associado a casos de diarreia explosiva em todo o país, especialmente nos estados de Michigan e Ohio.
No entanto, folhas verdes e frutas vermelhas frescas, que já foram associadas a surtos anteriores, podem ser um caminho rápido para vários dias de desconforto digestivo.
Hannah Hargrove, nutricionista pediátrica em Detroit, diz que sua família mudou a alimentação, principalmente depois que alguns amigos contraíram o parasita (todos se recuperaram em poucos dias).
A família passou a consumir frutas e vegetais congelados, frutas com casca grossa e frutas enlatadas em vez de produtos frescos. Embora continue lavando os alimentos apenas com água, ela afirma estar prestando “atenção extra” à forma como faz a higienização, em vez de apenas dar uma enxaguada rápida.
Veja Também
Ela também teme que a confusão em torno do surto leve as pessoas a adotarem escolhas alimentares pouco saudáveis, observando que a maioria já não consome fibras suficientes.
“Como nutricionista, a última coisa que quero ver é as pessoas deixarem de comer frutas e vegetais por causa do surto”, afirmou Hargrove.
“É horrível porque é verão, quando você quer coisas geladas e refrescantes”, disse Denise, arquivista de Nova York, que reduziu drasticamente o consumo de vegetais e frutas frescas à medida que os casos aumentaram.
Como as autoridades de saúde recomendaram cozinhar vegetais e frutas até atingirem temperatura interna de 70°C (158°F) para eliminar o parasita, ela considera escaldar frutas para continuar consumindo-as. Também tem preferido alimentos que podem ser descascados, como abacates, bananas e limões.
Os wraps Caesar — normalmente seus favoritos — saíram do cardápio temporariamente. O mesmo aconteceu com cerejas, que estão no auge da safra, e com gyros recheados de alface fresca.
É um pesadelo para amantes de frutas e verduras em todo o país — e restaurantes à base de vegetais, que dependem de produtos frescos em grande parte de seus cardápios, estão sentindo os efeitos.
Parasita? Que parasita?
Nem todos parecem tão preocupados.
Em Nova York — onde centenas de pessoas adoeceram por causa da Cyclospora —, restaurantes focados em vegetais continuavam movimentados normalmente na tarde de terça-feira.
Funcionários da unidade do Sweetgreen em Williamsburg, no Brooklyn, disseram que alguns clientes perguntaram sobre os protocolos de limpeza da cozinha antes de fazer seus pedidos. Mas a unidade não registrou queda nas vendas na última semana.
O mesmo ocorreu em restaurantes da rede mediterrânea Cava, que serve tigelas de salada carregadas de vegetais frescos, e na rede Dig Inn.
O Portia’s Café, restaurante vegano em Columbus, Ohio — estado que registrou mais de 360 casos confirmados desde 1º de junho — afirmou que a terça-feira foi mais lenta do que o normal, mas não houve diferença significativa nas vendas.
Enquanto segue os protocolos sanitários estaduais, parte dos vegetais usados é cultivada pelo próprio restaurante, e outra parte vem de produtores locais.
Na internet, porém, é impossível escapar do assunto. Até o dicionário Merriam-Webster entrou na onda e publicou uma brincadeira: “Por favor, evite todas as saladas, inclusive a de palavras.”
Uma publicação do Sweetgreen na rede X, promovendo uma tigela inspirada nos vencedores do reality “Love Island”, foi inundada por comentários fazendo piadas sobre parasitas. A empresa não respondeu ao pedido de comentário da CNN.
Um representante do Taco Bell afirmou que a rede “removeu voluntária e temporariamente alguns ingredientes em restaurantes selecionados como medida de precaução”, embora as autoridades não tenham confirmado qualquer ligação entre o surto e a rede ou com algum ingrediente, fornecedor, restaurante ou varejista específico.
Laurie Schalow, diretora de assuntos corporativos e segurança alimentar da Chipotle, afirmou que a empresa está “ciente da investigação sobre a Cyclospora e, neste momento, não acredita que os ingredientes que utiliza estejam associados ao surto”.
“Surtos como este — e talvez piores — voltarão a acontecer”
Não é surpresa que as pessoas estejam assustadas.
Depois de contraído, o parasita pode transformar a vida da pessoa em um pesadelo no banheiro. Diarreia aquosa, cólicas e inchaço podem durar semanas, e algumas pessoas relataram passar dias praticamente ao lado do vaso sanitário.
“Os dias 1 a 5 foram os piores”, escreveu um usuário do Reddit no sudeste de Michigan, que enfrentava mais de duas semanas de problemas digestivos. “Estou muito fraco, cansado, estressado, desconfortável e, sinceramente, com dor.”
“Nunca tive um cocô assim na minha vida”, comentou outro usuário.
Embora a causa exata ou a origem específica do surto ainda estejam sendo investigadas, o parasita se espalha quando pessoas consomem alimentos ou água contaminados por fezes, segundo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC).
A contaminação pode atingir grandes fazendas comerciais por diversos meios: condições precárias de trabalho, fertilizantes, escoamento de resíduos de indústrias de carne e aves ou cursos d’água poluídos.
Alguns políticos associaram o surto ao desmonte da infraestrutura de saúde promovido pelo governo Trump. Em 2025, o CDC tornou opcional o monitoramento da Cyclospora e de outras doenças transmitidas por alimentos, exigindo apenas a vigilância obrigatória de salmonela e E. coli.
“Surtos como este — e possivelmente piores — acontecerão repetidamente até mudarmos de rumo”, afirmou a deputada democrata Rosa DeLauro, de Connecticut.
Nem todos os produtos frescos podem estar em risco. A Gotham Greens, empresa de agricultura indoor com operações em vários estados dos EUA, afirmou no Instagram que seus produtos permanecem seguros porque verduras e ervas são cultivadas em estufas controladas, protegidas de muitas das condições externas que afetam plantações convencionais.
Influenciadores da área de alimentação e bem-estar têm incentivado consumidores a abandonar grandes supermercados e comprar alimentos em feiras de produtores locais e pequenas propriedades rurais.
Jeff Stainthorp, proprietário de uma pequena fazenda no estado de Washington, disse ter ouvido relatos de clientes preocupados, mesmo sem a existência de um surto relevante na região.
Segundo ele, o número reduzido de etapas entre o campo e o consumidor final — já que acompanha pessoalmente toda a colheita — lhe dá confiança na segurança dos produtos.
Embora pequenas fazendas também possam enfrentar surtos, por exemplo, devido à contaminação da água, seu tamanho facilita o monitoramento das práticas sanitárias.
Em grandes fazendas comerciais, afirmou ele, “práticas trabalhistas exploratórias” podem favorecer a contaminação. Como muitos trabalhadores recebem por quantidade colhida, acabam evitando pausas para ir ao banheiro ou faltar ao trabalho quando estão doentes.
Para Stainthorp, o pânico em torno da Cyclospora pode ter um lado positivo: ajudar as pessoas a compreenderem as falhas do sistema alimentar dos Estados Unidos.
“Espero apenas que isso desperte algumas pessoas para refletirem sobre como nosso sistema alimentar está estruturado atualmente”, disse. “Ele não é necessariamente bom para o planeta, não é bom para nossa saúde e não é bom para as pessoas que precisam trabalhar nele.”
Fique por dentro das principais notícias do dia no Brasil e no mundo. Siga o canal do R7, o portal de notícias da RECORD, no WhatsApp















