Civis e rebeldes feridos na Síria recebem tratamento em Israel
Internacional|Do R7
Nuha Musleh e Elías L. Benarroch. Safed (Israel), 18 set (EFE).- Os hospitais do norte de Israel não deixam de receber feridos da guerra civil na Síria, em sua maioria milicianos de grupos rebeldes e civis que cruzam a fronteira na busca de assistência médica. "Nós não sabemos de onde vêm e nem para onde vão", disse à Agência Efe Yeal Shavit, porta-voz do hospital Ziv de Safed, na Galileia Superior, que atendeu nos últimos cinco meses mais de 100 vítimas. Trata-se do principal centro civil de assistência médica para onde são transferidas as vítimas que conseguem atravessar a outrora infranqueável fronteira das Colinas de Golã, que Israel ocupou em 1967 e que ficou durante 40 anos completamente fechada. Ao lado da fronteira, na parte norte do planalto, o Exército israelense conta desde o início do ano com um hospital de campanha e sua atividade é realizada na mais absoluta discrição. Consultados pela Efe, porta-vozes e altos comandantes militares não quiseram fazer comentários e deixaram implícito que "a ordem vem de cima", apesar de transferirem os casos mais graves ao hospital Ziv, onde os feridos ingressam sem restrições. "O Exército os traz. Não sabemos se chegam primeiro ao hospital de campanha ou não. Claro que passa por algum tipo de classificação médica porque muitos vêm com diagnósticos escritos", explicou Shavit, que destacou que os médicos não fazem perguntas sobre a identidade nem origem dos pacientes. Israel e Síria estão em estado de não beligerâncias desde os acordos de 1974 que puseram fim à guerra do Yom Kippur, mas a calma de quatro décadas se vê enfraquecida de tanto em tanto por choques esporádicos colaterais ao conflito sírio. A fronteira era aberta uma vez por ano para permitir que noivas drusas atravessassem para o lado sírio com mediação da ONU, e em anos recentes para exportação de maçãs do Golã à Síria. Aviões israelenses atacaram alvos na Síria em várias ocasiões para impedir o tráfico de armas à milícia xiita libanesa Hezbollah, segundo informações dos meios de comunicações internacionais, que o governo israelense não confirma e nem desmente. O presidente sírio, Bashar al Assad, advertiu sobre uma "guerra regional", em aparente alusão a Israel, caso seu país seja atacado pelos EUA, opção ainda aberta se não houver acordo para a destruição do arsenal químico de Damasco. Os hospitais israelenses de Nahariya, próximo à fronteira com o Líbano, e o Rambam de Haifa, também receberam feridos sírios. No de Safed, a maioria dos internados são homens com ferimentos típicos de guerra -traumatismos por disparos, bombas e, em muitos casos, com extremidades destroçadas- que requerem cirurgia avançada. Um deles, de 22 anos e cujo avô nasceu em Safed, disse à Agência Efe que é "irônico" retornar ao lugar de seus antepassados, "embora seja como ferido". O jovem, dos arredores de Damasco e que não quis revelar sua identidade, contou que um projétil de artilharia caiu no meio de uma multidão em um mercado e causou ferimentos graves. Embora não seja seu caso, a maioria dos internados está sob vigilância dos organismos de segurança, aparentemente porque se tratam de milicianos. Em Safed, o tratamento que os feridos recebem vai além do aspecto médico, e os responsáveis se mobilizaram para conseguir roupa, remédios e artigos de primeira necessidade, antes de serem devolvidos ao Exército. "Eles os levam e não sabemos para onde e nem com a ajuda de quem", destacou uma porta-voz do hospital. Os feridos também não parecem interessados demais em que se saiba onde estiveram. "Não posso retornar para minha aldeia e dizer que os israelenses me trataram. Com todo meu agradecimento, não poderei falar disso porque o regime me mataria", disse Fares, de 21 anos e natural de uma aldeia na periferia de Damasco. Fares disse que foi transferido a Israel inconsciente com ferimentos de bala em uma perna, e a maioria se recusa a revelar como chega à fronteira no meio dos combates na zona do planalto sob controle sírio. De Dara, a apenas algumas dezenas de quilômetros do Golã, é oriundo um ferido de 28 anos que ingressou em Safed após ter perdido um olho. "A situação ali era caótica, estava sendo bombardeada severamente", relatou sobre o cenário que deixou para trás. Da mesma zona são uma mulher e sua filha de 8 anos, internada com ferimentos nas pernas. "Estou muito agradecida aos israelenses, mas quando retornar, não poderei falar onde estive, nem da amabilidade dos médicos e enfermeiros", assinalou a mulher. No meio do contínuo gotejamento de feridos, as únicas queixas são as do hospital, obrigado a financiar os tratamentos com seu próprio orçamento porque o governo israelense ainda não decidiu como abordar esta crise humanitária. EFE nm-elb/ff/rsd












