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Conheça o homem que aprendeu a ler e escrever no horror de um campo de concentração

Thomas Venetianer sobreviveu aos nazistas e chegou ao Brasil com os pais, para uma nova vida

Internacional|Eugenio Goussinsky, do R7

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Venetianer quase morreu como prisioneiro do regime nazista
Venetianer quase morreu como prisioneiro do regime nazista

Não espere que o sr. Thomas Venetianer, 78 anos, sobrevivente de um campo de concentração, relacione as suas conquistas profissionais à superação. Não. Ele até ri com a analogia. Hoje, com seu sorriso expansivo, ele olha para trás e diz para si mesmo: o passado foi triste, mas passou.

Seu segredo é se lembrar. E se esquecer. É a memória seletiva que lhe permitiu sobreviver. E viver. Por exemplo, diz ao R7 que se lembra de momentos no campo de concentração, brincando à esmo mesmo em meio ao horror da fome e do frio brutal, e de algumas aulas que teve com professores que, corajosamente, formaram um grupo escolar em um espaço acanhado.


E que o ajudaram a posteriormente conseguir algumas proezas, como a de falar oito idiomas e escrever livros sobre marketing na internet e a história da guerra em seu país natal. 

Engenheiro formado pela Universidade de São Paulo e administrador diplomado pela Fundação Getúlio Vargas, ele também dá palestras sobre seu drama antes de chegar ao Brasil.


— Foi lá (no campo de concentração) que aprendi a ler e escrever. Nos tempos em que morava na minha cidade, não pude ir à escola. Meus pais evitavam que eu tivesse amigos, para não me expor a perseguições. Eu brincava na rua com uma bolinha de pano. Não estava tão preocupado com os acontecimentos, até ir para o campo de concentração.

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Venetianer, conhecido como Tom, se esquece, por outro lado, de como eram os nazistas. E nem precisa se lembrar de seus rostos, de seus olhares, de seus métodos cruéis.

— Nunca sequer conversei com um soldado naquele tempo. Nem lembro de conversas deles. Eles ficavam ao redor do campo de concentração.


Fuga para a floresta

Nascido na cidade de Kosice, leste da atual Eslováquia, em 1937, Venetianer cresceu em um lugar que passou em poucos anos pelo controle de vários países. Primeiro era parte da Tchecoslováquia. Depois, a partir de 1938, após um acordo, a Alemanha o integrou à Hungria, cujo governo apoiava o regime nazista. 

Ele se lembra de seu pai, Alexander, um homem simples e amoroso, que sempre o protegeu. E também da mãe, Lizbeta (Elizabeth), sempre ao seu lado, nos bons e maus momentos. Alexander trabalhava como químico-farmacêutico. Analisava o contexto histórico com astúcia.

Esperou o momento oportuno para fugir com a família. Isso ocorreu quando os judeus, após um período de proteção, começaram a ser perseguidos na Hungria e enviados para o campo de concentração local.

A família, então, se refugiou nas montanhas dos Cárpatos, que, em toda a sua extensão, abrigou em suas florestas judeus que eram perseguidos em vários países. Da selva urbana, eles escapavam para a selva natural.

Na região próxima à Lituânia, os Cárpatos foram palco da luta do jovem Tuvia e seus irmãos, cuja história é relatada no livro Os Irmãos Bielski, de Peter Duffy.

Por meses, Venetianer - filho único - e os seus pais moraram em uma cabana, de uma proprietária que pensava que eles eram cristãos. Eles se comportavam tentando disfarçar a origem judaica, para não serem capturados.

— Meus pais evitavam parecer que eram judeus e logo aprendi a importância daquilo para a nossa sobrevivência. Mesmo menino, nunca revelei minha origem naquele tempo.

Acontece que os alemães, que comandaram uma revolução na Tchecoslováquia, contrariando o pacto que fizeram com os governos da França, do Reino Unido e da Rússia, foram atrás de todos os judeus locais.

— Eles tinham o know-how de perceber quem era judeu. E nos descobriram. Acho que fomos denunciados, sei lá. Nem adianta saber agora.

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Os três então foram enviados a uma prisão eslovaca, depois ao campo de concentração de Sered e, por fim, ao de Theresienstadt. Naquele momento seu pai foi encaminhado ao campo de concentração de Sachsenhausen, num subúrbio de Berlim, informação que ele soube depois.

Venetianer tinha sete anos. Era setembro de 1944. Não sabia que a guerra estava acabando. Vem nova lembrança: para ele, estava apenas começando. E a memória, então, ressurge com a torrente de emoções.

— Quando meu pai foi embora, então fiquei realmente com medo. Pela primeira vez. Não sabia para onde ele foi, quando iria voltar. A partir de então, quando via à distância qualquer policial tcheco, sentia terror. Para mim eram eles os culpados de tudo que acontecia em minha vida.

O menino Tom e seus pais, no que hoje é a Eslováquia
O menino Tom e seus pais, no que hoje é a Eslováquia

O campo da morte

O campo de Theresienstadt era um antigo quartel militar e abrigou a elite intelectual judaica da época, que montou a "escolinha". Os nazistas tentavam apresentá-lo como um "campo modelo", inclusive maquiando mulheres e vestindo crianças em determinadas ocasiões, para mostrar à Cruz Vermelha como não havia maus tratos por lá. Mas as condições reais eram precárias e degradantes. 

O local tinha capacidade para abrigar sete mil pessoas. No entanto, naquele momento estavam encarcerados, em espécie de celas, 60 mil judeus.

Um total de 140 mil judeus foi enviado a Theresienstadt. Destes, 88 mil morreram em Auschwitz (Polônia), enquanto 33 mil pereceram por lá mesmo.

Venetianer e sua mãe dormiam na mesma cama. Só não foram enviados para as câmaras de gás ou fornos de Auschwitz porque, já perdendo a guerra, os alemães não tinham a mesma logística de transporte.

— Minha mãe trabalhava 12 horas, 14 horas na cozinha, limpando verduras, fazendo tarefas banais. Ela me disse depois que tinha certeza absoluta de que iríamos morrer. Não falava para mim para não me deixar preocupado. Eu ficava andando pelo campo de concentração, com comida muito racionada e sem agasalhos, sem bota, sem cobertores, em um frio muito intenso. Quase morri de caxumba, cheguei a ficar com 42º de febre.

Então a recordação o conduz a uma médica, colega de sua mãe na cozinha, que lhe deu um remédio salvador. E que lhe permitiu testemunhar a chegada dos russos para libertar o campo, em 8 de maio de 1945. Sem transporte, eles ainda ficaram mais três meses por lá.

Só voltaram a Kosice quase em setembro. Não tinham ideia de onde estava seu pai. Ficaram com a cunhada da mãe (o irmão do pai morrera no campo de extermínio) e resolveram, com intuição, esperar. E três meses depois, Alexander reapareceu, pesando 42 kg. Ele sobreviveu após ter sido baleado por um soldado, por cair de cansaço durante uma extenuante marcha para deixar a cidade.

Foi deixado estendido na rua, parecendo morto, mas a Cruz Vermelha o salvou. Curioso é que Venetianer apagou o reencontro de sua mente. 

— Sabe que eu não me lembro do momento em que nos reencontramos? Sei que a emoção foi muito grande. Choramos durante horas por causa dos familiares que foram exterminados. Em 1948 meu pai decidiu que sairíamos de lá. Fomos para o Brasil porque foi o único país que nos deu visto. Cheguei aqui com 10 anos de idade, fomos recebidos por uma prima.

Vida nova

Em terra brasileira, Venetianer sempre morou na cidade de São Paulo. Estudou em escolas laicas, sem ligação com judaísmo. Isso, porém, não o fez deixar a religião de lado. 

— A questão é que meu pai era um cosmopolita, tinha uma visão muito à frente de sua época, queria que eu tivesse uma noção ampla do mundo.

Surge então novo turbilhão de lembranças. Ele conta que se formou. Fala do casamento com uma moça húngara (como ele, naturalizada brasileira), com quem vive há mais de 50 anos.

E continua: teve duas filhas e cinco netos. Escreveu livros. Um, acadêmico, está para ser lançado em inglês, sobre sua história na infância. Ou melhor, daquilo que se lembra. E explica, enfim, porque não considera tudo isso um exemplo de superação.

— Cada um nasce com um dom. É algo que não cabe a nós, acredito que nos é dado por uma entidade superior. Sempre gostei de estudar e pesquisar e obtive sucesso por causa disso.

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O sobrevivente vê toda essa trajetória como uma estrada de tijolos. De sonhos concretos. Calcada na lembrança da solidariedade. Na convicção de que calamidades como a que testemunhou não podem mais ocorrer.

— Dou palestras para ressaltar a importância do respeito aos direitos humanos.

Primo Levi, o escritor italiano, autor da obra É isso um homem?, carregou lembranças pesadas do campo de concentração e especula-se que se suicidou em 1987. Venetianer entende essa angústia.

— Carrego o trauma, a perda dos meus familiares é uma dor que nunca vai passar. Mas consegui fazer com que isso não influenciasse minha vida. 

A solidariedade humana, o calor dos pais - que morreram no Brasil -, a sua missão posterior, o vigor falaram mais alto.

— Se eu não continuasse a acreditar no ser humano, não seguiria em frente.

De Belo Horizonte, na última quarta-feira (27), onde estava para uma conferência, relativa ao Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, Venetianer tinha de desligar o telefone.

O repórter, angustiado e chato, ainda insistia. E a crueldade? E a atrocidade? E a raiva? E a dúvida de Primo Levi? Tu tu tu... Desligou. Mas não precisava responder. Ficou mais do que claro. De tudo isso, o menino Tom se esqueceu.

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