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Desencanto com a democracia explica recorde de abstenções no mundo inteiro, diz especialista

“Fuga da responsabilidade” pode fazer com que decisões sejam tomadas pela força

Internacional|Do R7*

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Plebiscito que encerraria guerra com as Farc e pleito municipal em SP e no Rio tiveram alto número de abstenções
Plebiscito que encerraria guerra com as Farc e pleito municipal em SP e no Rio tiveram alto número de abstenções

Pelo menos três grandes processos político-eleitorais que aconteceram ao redor do mundo neste domingo (2) tiveram números impressionantes de abstenções. Na Colômbia, 67% dos aptos a votar optaram por não participar do histórico plebiscito que encerraria o mais longo conflito armado da América Latina, com a anistia às Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). Em São Paulo e no Rio de Janeiro, o número de faltas, nulos e brancos nas eleições municipais foi maior do que os votos nos candidatos que lideraram a disputa.

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Do outro lado do Oceano Atlântico — onde uma grave crise de refugiados afeta negativamente a economia e o tecido social do continente europeu — um plebiscito sobre fechar as fronteiras da Hungria para os deslocados não chegou a 50% de participação popular. Com isso, a consulta popular se tornou inválida, mesmo que mais de 98% dos participantes tenham reforçado a posição anti-imigração do premiê Viktor Orbán.

Para o professor de filosofia política Aldo Fornazieri, existe um fenômeno global de desencanto com a democracia — sistema que “não consegue entregar um resultado para a população”, o que se expressa por meio das abstenções na hora de votar. De acordo com o especialista, a “fuga da responsabilidade” nas decisões pode fazer com que a disputa ideológica se torne violenta.


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— Isso é altamente perigoso, porque se você não resolve os problemas via processo político, a tendência é que as decisões sejam tomadas por quem é mais forte.


De acordo com Fornazieri, uma eventual saída para a encruzilhada política atual implicaria em uma reestruturação do próprio sistema político — o que “não é uma coisa que se faça da noite para o dia”. Ele lembra que o número de novos eleitores entre 16 e 18 anos que tiraram o título de eleitor para votar mesmo sem a obrigatoriedade diminuiu em relação ao pleito anterior, o que demonstra um “grande desencanto da juventude” com a política.

— Se você olhar para a juventude de hoje, poucos se dispõe a participar dos partidos, porque são pouco atrativos e têm um comando burocrático que não permite a participação direta. Quando a juventude se desencanta com a política, você tem que temer pelo futuro.


Crise democrática

Cientista política e professora titular da Universidade Federal de São Carlos, Maria do Socorro Braga acredita que o contrato social entre os vários grupos que compõem as sociedades está sendo questionado, o que leva a uma reflexão mais ampla em relação ao próprio regime democrático em que vivemos.

— Tem tudo a ver sobre como esse regime funciona e as opções que ele dá para as pessoas. A abstenção é muito mais uma rejeição ao que está sendo votado, como se as pessoas nesses diferentes países não estão aceitando as questões que a classe política está colocando para elas, como é o caso Hungria e da Colômbia, ou mesmo a própria classe política, como é o caso do Brasil.

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Ainda assim, ela ressalta que os contextos regionais também devem ser considerados na análise, já que, segundo ela, “as Farc têm um histórico de rejeição muito grande” na Colômbia.

Segundo o professor de relações internacionais da UFABC, Igor Fuser, o próprio sistema político na Colômbia costuma apresentar altos índices de abstenções, mas o referendo sobre as Farc teve participação ainda menor. Ele lembra, no entanto, que as faltas foram mais numerosas nas zonas rurais — justamente as mais afetadas pela guerra, onde há uma atuação forte de grupos paramilitares, o que faz com que "as pessoas tenham medo de sair de casa para votar".

Já o professor Fornazieri avalia que os temas votados no país latino-americano e na Hungria — a paz após a guerra e a rejeição aos imigrantes, respectivamente — são temas altamente polarizadores, o que traz o pressuposto que haja uma adesão maior à votação.

— Isso de certa forma chama muita atenção para esse fenômeno de desencanto. As pessoas não acreditam mais nas instituições.

De acordo com o especialista, no caso da eleição para cargos executivos e legislativos, as abstenções enfraquecem os candidatos eleitos, que têm menos apoio da sociedade e iniciam seus mandatos já fragilizados.

— O próprio Dória entra enfraquecido. Mesmo tendo vencido no primeiro turno, ele teve menos votos do que nulos, brancos e abstenções. Isso em um País onde o voto é obrigatório.

* Por Luis Felipe Segura

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