Há um ano, fantasma de Khashoggi assombra príncipe herdeiro saudita

Jornalista foi assassinado dentro do consulado da Arábia Saudita em Istambul em 2018. Mohammed Bin Salman assumiu ser responsável

Jamal Khashoggi era crítico ao príncipe herdeiro saudita, Mohammed Bin Salman

Jamal Khashoggi era crítico ao príncipe herdeiro saudita, Mohammed Bin Salman

Fotos EFE/Montagem R7

Um ano após o grotesco assassinato de Jamal Khashoggi no consulado da Arábia Saudita em Istambul, na Turquia, o fantasma do jornalista ainda persegue Mohammed bin Salman e a sombra da morte de Khashoggi obscureceu a imagem internacional do príncipe herdeiro e da monarquia da Casa dos Saud.

MBS, acrônimo com o qual o futuro rei saudita geralmente é chamado, repete quando entrevistado, nas vésperas do dia 2 de outubro, data que marca o assassinato do dissidente, uma frase que já se transformou na linha argumental sobre sua atuação: "é minha responsabilidade porque eu estava no comando, mas não sabia de nada".

Khashoggi, um jornalista crítico moderado do governo saudita que colaborava com o jornal The Washington Post, entrou no dia 2 de outubro de 2018 no consulado de seu país em Istambul e nunca voltou a sair... pelo menos vivo.

Um ano depois, seu corpo — ou o que restou dele pois, de acordo com as hipóteses tratadas na Turquia, ele foi desmembrado após o assassinato — ainda não apareceu.

O tratamento da crise por parte de Riad, que chegou a mudar em várias vezes a versão do que aconteceu, causou um grande prejuízo na sua imagem e credibilidade, o que teve consequências.

A relatora da ONU para execuções extrajudiciais apontou diretamente para MBS em junho pelo crime, e o Senado dos Estados Unidos acusou por unanimidade o príncipe herdeiro em dezembro pelo assassinato.

Até hoje, apesar de um caso aberto pelo crime na Arábia Saudita contra 11 pessoas em que o Ministério Público solicitou pena de morte a cinco acusados, o caso está longe de terminar.

"O caso Khashoggi não está encerrado. O caso Khashoggi está suspenso em troca de uma conta econômica volumosa, enquanto a Casa Branca e seu atual inquilino (presidente Donald Trump) seguem considerando que há benefício econômico que extrair mantendo o caso em suspenso", disse Haizam Amirah-Fernández, do Real Instituto Elcano, à agência EFE.

Morte de jornalista afetou popularidade saudita

Morte de jornalista afetou popularidade saudita

ERDEM SAHIN/EFE-EPA - 25.10.2018

O desgaste

O caso Khashoggi afetou o governo saudita de diferentes maneiras.

A aquisição de investimentos para o desenvolvimento de projetos sofreu, especialmente para a Visão 2030, o programa faraônico de mudanças econômicas com o qual a Arábia Saudita pretende revolucionar setores como tecnologia, turismo, desenvolvimento urbano e, acima de tudo, reduzir a dependência da comercialização de hidrocarbonetos.

Os efeitos não demoraram a chegar: o fórum de investimentos saudita, conhecido como Davos do Deserto, vivia o "medo" de representantes de países, empresas e organizações internacionais.

A isso se soma o aumento da tensão no Golfo Pérsico, a guerra no Iêmen e a tensa relação com o Irã, que levou esta semana a agência de classificação de risco Fitch a reduzir a nota da Arábia Saudita de A + para A.

Para Gerd Nonneman, professor da Universidade de Georgetown, no Catar, é verdade que, por razões econômicas e pragmáticas do "estado", algumas empresas e governos mantiveram e reconstruíram as relações com Riad.

"Mas também é verdade que esses relacionamentos, pelo menos com o Ocidente e parte da comunidade empresarial global, ainda estão danificados e desacelerados", disse ele.

Na opinião de Nonneman, vários fatores influenciam essa posição: por um lado, "MBS e o regime saudita são vistos como culpados de crime", por outro, o incidente é um sintoma de um "clima problemático" e, em terceiro lugar, as reformas econômicas eles são limitados pela política regional e nacional "muito imprevisível" do príncipe herdeiro.

MBS mudou o país saudita

MBS mudou o país saudita

Charles Platiau/Reuters - 9.4.2018

Dúvidas sobre Bin Salman

Desde sua nomeação em janeiro de 2015, o príncipe herdeiro impulsionou mudanças para abrir a ultra-conservadora Arábia Saudita. As mulheres foram autorizadas a dirigir ou viajar sem a permissão do marido ou pai, abriram espaços para abertura de espaços para investimento e, mais recentemente, os vistos de turista foram aprovados pela primeira vez.

Em paralelo, MBS acumulou poder que um príncipe herdeiro nunca teve na Arábia Saudita, permitindo apresentar uma agressiva forma de fazer política, com uma guerra no cara no Iêmen, inflexibilidade com os ativistas de direitos humanos e como lidou com o caso Khashoggi.

"O caso Khashoggi demonstra o custo de permitir a impunidade em aventuras arriscadas dos líderes neófitos", disse Amirah-Fernández.

Para o analista, a abordagem de muitos no Ocidente e em Washington "é que as políticas desse jovem estadista podem colocá-los em longo prazo em uma boa confusão", e há "temor da confiabilidade desta figura se chegar ao trono e permanecer nele durante décadas".

"O fantasma de Khashoggi perseguirá ao príncipe herdeiro para sempre, independente de sua responsabilidade futura", afirmou.