Inundação acaba com sonho de milhares de imigrantes rurais em Assunção
Internacional|Do R7
Santi Carneri. Assunção, 11 jun (EFE).- A cheia do Rio Paraguai está provocando o deslocamento da população mais vulnerável de Assunção, os imigrantes rurais que durante uma década se instalaram à beira de riachos na busca de uma vida melhor na capital. Os "Bañados", como são conhecidos os bairros de casas pobres nas regiões baixas da cidade, crescem sem parar à beira do Rio Paraguai e é comum que sofram inundações na época de chuvas. É quando isso acontece que as pessoas ficam sem água potável e luz elétrica, e os moradores não podem ir ao trabalho, porém a situação atual é a pior em quase 20 anos, diz María Eloida Mareco, de 71 anos, uma das moradoras mais antigas, que chegou ao local há 30 anos. "Minha casa é bonita, custou muitos anos de trabalho. Eu e meu marido viemos do campo, Capiatá. Eu vendo minha casa e meu quiosque, mas ninguém quer comprar", disse María Eloida à Agência Efe. Na frente do caminhão da Secretaria de Emergência Nacional (SEN), que percorre as ruas inundadas do bairro de Cateura, ela se queixa do fato de ninguém ter prestado ajuda para que ela retirasse seus pertencentes, e que agora a água está entrando pelo quintal. "Não víamos isso desde 1996, mas naquela época eu era mais jovem e podia mexer nas minhas coisas, agora estou doente dos rins", explicou. Não resta mais alternativa: ela terá que se mudar, com outras 40 mil pessoas, para um dos campos improvisados de refugiados instalados na cidade. As inundações já afetam 129 mil cidadãos em todo o Paraguai, e é previsto que o número aumente, segundo a SEN. O órgão estima que o Rio Paraguai suba entre cinco e oito centímetros na próxima semana em Assunção, atingindo outras 15 mil famílias nos próximos seis dias, e o número de desabrigados apenas na capital chegará a 75 mil. Na última década, 900 mil pessoas abandonaram a zona rural do país e se instalaram em assentamentos precários na capital devido à expansão das grandes plantações de soja e milho, altamente mecanizadas e com pouca demanda de mão de obra, segundo a Federação Nacional Camponesa (FNC), que pede uma reforma agrária. O Paraguai tem, pelo menos, três milhões de hectares de cultivos de soja transgênica, sendo o quarto exportador mundial. A cheia do Rio Paraguai deixou debaixo d'água os bairros de imigrantes, onde se misturam casas modestas bem construídas com milhares de casinhas de madeira e lona das pessoas com menos recursos. Mas nessa semana não é o estilo das casas que diferencia os moradores. Agora, ter ou não ter um cavalo para tirar os pertences marca a diferença entre os vizinhos, dado que a maioria das ruas, coberta por pedras, se transformou em riachos que desembocam no Rio Paraguai. Sapatos, eletrodomésticos, móveis e todo tipo de lixos se acumulam em torno das casas, a apenas três quilômetros do centro da cidade. Entre as águas fétidas está a casa de Ulpiano Vega, de 40 anos, construída com tijolos e teto de zinco perto do lixão de Cateura. Ele se instalou com sua mulher e seu filho recém-nascido em Cateura, há nove anos, onde conseguiu um emprego como catador no lixão municipal. Se não conseguir voltar a trabalhar, sua família perderá a única fonte de renda, lamentou, enquanto se instalava em um abrigo de madeira junto a outros milhares de desabrigados que ocupam as praças e calçadas das avenidas periféricas da cidade. Para Francisca Fernández, funcionária da ONG Plan International, que junto com a Oxfam ajuda as vítimas das inundações, os mais prejudicados pela situação são as crianças, que "perdem a rotina escolar e seu entorno social drasticamente". "Para as crianças é desesperador. Elas perdem a base, a escola, e ficam em lugares onde podem pegar doenças", destacou. EFE sct/cdr-rsd (foto)











