Logo R7.com
Logo do PlayPlus
Publicidade

O clube do século XIX que mudou o mundo, mas sobre o qual você nunca ouviu falar

Os Wide Awakes atuaram nos EUA e estiveram ligados a campanhas a favor da liberdade de expressão e contra a escravidão

Internacional|Jon Grinspan, do The New York Times


Os Wide Awakes eram um grupo de guarda-costas munido de tochas e roupas pretas Connecticut Museum of Culture and History via The New York Times

George Kimball estava pronto para a guerra assim que o primeiro tijolo lhe atingiu a cabeça.

O tipógrafo de 20 anos assistia a uma palestra abolicionista na Bowdoin Square, em Boston, durante a campanha de 1860 para a presidência dos Estados Unidos, quando uma multidão pró-escravatura tentou encerrá-la. Kimball estava preparado, pois fazia parte de um grupo de guarda-costas munido de tochas e roupas pretas, chamado Wide Awakes (Totalmente despertos), que espancou os atiradores de tijolos usando suas tochas como porretes.

Veja também

No caminho de volta para casa, com sangue nos olhos, Kimball queria que “a guerra fosse declarada imediatamente”. Anos mais tarde, depois de ter lutado em batalhas como Bull Run, Gettysburg e Petersburg, ele ainda considerava aquela troca de tijoladas em Boston “um casus belli tanto quanto o disparo contra o Forte Sumter”. Para ele, foi o direito de protestar publicamente contra a escravidão que desencadeou o conflito – uma luta pela liberdade de expressão provocou a guerra.

Hoje em dia, nossos debates políticos mais acirrados geralmente se baseiam em questões semelhantes de discurso público e violência pública. Em diversos conflitos, travados em campi universitários e até nos degraus do Capitólio, continuamos a nos questionar onde está o limite entre palavras acaloradas e ações agressivas. Embora enquadrada como uma questão de ordem legal relativa à Primeira Emenda, na maioria das vezes é um enigma para nossa cultura política.

Publicidade

Qual o limite a ser respeitado em uma democracia?

Essa é uma questão que alimentou a guerra mais sangrenta dos Estados Unidos. A Guerra Civil foi travada por causa da escravidão (qualquer um que diga que não foi está simplesmente errado). Mas como foi que a escravidão americana, que começou em 1619, desencadeou um conflito em 1861? Como um debate de longa data se transformou em uma guerra de tiros? Qual, exatamente, foi o momento dinâmico em que uma discussão se tornou uma briga?

O Wide Awakes de George Kimball ajuda a dar sentido a tudo isso. Esse movimento quase esquecido fornece um elo perdido entre a eleição e a guerra. Na campanha presidencial de 1860, centenas de milhares de jovens americanos se juntaram a grupos de Wide Awakes, marchando em uniforme militarista, acompanhando oradores republicanos e lutando em defesa do discurso antiescravagista. Sua ascensão popular ajudou a eleger Abraham Lincoln como presidente, mas também deu início à espiral da guerra.

Publicidade

Com a aproximação do conflito, Frederick Douglass advertia que “a escravidão não tolera a liberdade de expressão”. Nas décadas anteriores à Guerra Civil, muitos americanos se curvaram a essa máxima, permanecendo calados em relação ao assunto. Com o passar dos anos, isso exigiu uma coerção cada vez maior. Os estados proibiram a crítica pública, os abolicionistas eram regularmente perseguidos. No Congresso, líderes antiescravagistas eram intimidados e derrotados. Nas cidades do Norte, o discurso abolicionista era possível, mas o terrorismo racista também. Lincoln reclamou que a maioria dos nortistas “crucificava seus sentimentos” sobre o assunto, mas não o fariam para sempre.

A reação veio de um lugar surpreendente: Hartford, Connecticut. Até mesmo nessa cidade ordeira da Nova Inglaterra houve confrontos brutais. Na campanha presidencial de 1856, os democratas locais explodiram um comício republicano com fogos de artifício apontados como canhões para multidões de homens, mulheres e crianças. Assim, para dar início à campanha de 1860, os republicanos locais convidaram Cassius M. Clay, abolicionista do Kentucky. “Cash” subiu ao palco em uma noite fria de fevereiro, atacando a maneira como as forças escravagistas “suprimem a voz do púlpito, a liberdade de imprensa e de expressão” e alertando para uma iminente insurreição, que teve início naquela mesma noite.

Publicidade

Quando se dispersou, o público de Clay deparou uma estranha cena: cinco jovens funcionários do setor têxtil usando capa preta, brilhante e improvisada. Embora projetada para evitar que o óleo da tocha pingasse em suas roupas, a vestimenta incorporava a mesma verve agressiva que Clay acabara de expressar. Quando os cinco funcionários encapuzados lideraram uma marcha com tochas pela cidade, capangas democratas os atacaram. Com o revide dos jovens republicanos, nasceu um novo movimento.

Em uma semana, o novo clube tinha dezenas de associados, dirigentes eleitos e um nome – Wide Awakes – em alusão ao despertar de toda uma geração contra a escravidão.

Em sua primeira marcha oficial, o grupo teve a sorte de acompanhar Lincoln pelas ruas escuras de Hartford. Seus clubes começaram a se espalhar por Connecticut naquela primavera, usando o discurso antiescravagista como ferramenta de recrutamento. Quando um comício do Wide Awakes foi atacado em New Haven, o movimento colocou companheiros ensanguentados no palco como prova da repressão que enfrentavam.

O movimento era como uma bandeira negra que tremulava no Norte. Os jovens de Chicago que organizavam a Convenção Nacional Republicana adotaram o movimento, equipando milhares de Wide Awakes em poucas semanas. A partir de então, houve uma proliferação dos grupos locais do Maine à Califórnia, liderados por radicais alemães em Milwaukee, escravos fugitivos em Boston, aristocratas Knickerbocker na Broadway, sulistas antiescravagistas em Washington e até mesmo jovens mulheres em Mount Holyoke, Massachusetts.

No fim daquele verão, os americanos acreditavam que havia meio milhão de Wide Awakes em uma nação de 31 milhões de habitantes. O número real pode ter sido menor, mas mesmo esse exagero mostra a dimensão do movimento.

Alguns membros do Wide Awakes eram abolicionistas radicais, outros advertiam sobre a moderação, mas todos compartilhavam a sensação de que as forças pró-escravidão estavam reprimindo suas opiniões. A liberdade de expressão proporcionou uma causa conveniente sob a qual todos poderiam marchar. Era vaga nos tópicos mais polêmicos, unia convenientemente seus inimigos (juntando os escravocratas do sul com os mafiosos democratas do Norte) e sugeria que o primordial direito democrático dos Wide Awakes estava sendo deturpado.

Os protestos republicanos em defesa do direito de protestar acabaram gerando protestos próprios. Os democratas do norte perguntaram quando havia se tornado aceitável que partidos políticos marchassem como exércitos. Uma resposta mais incisiva veio do extremo Sul. A desinformação e a informação errônea se alastraram como pânico. O senador Louis Wigfall, do Texas, disse ao Congresso que o movimento Wide Awakes estava planejando “varrer o país em que vivo com fogo e espada”.

Os jovens democratas sulistas enfurecidos agora sentiam que eram eles que estavam sendo reprimidos. Muitos criaram o próprio clube uniformizado para “contrabalançar” os Wide Awakes. Em Charleston, na Carolina do Sul, e em St. Louis, o Partido Democrata do Sul organizou os clubes “Minutemen”. Em Washington e Baltimore, formaram os sombrios Voluntários Nacionais, que incluíam um número preocupante da Polícia do Capitólio. Repetidas vezes, alertaram sobre a “coerção” de uma maioria nortista. No auge da campanha de 1860, centenas de milhares de jovens uniformizados – tanto os Wide Awakes quanto suas “contrapartes” – estavam marchando pelo direito de protestar uns contra os outros.

Quando ganhou a eleição, Lincoln estava pronto para acabar com os Wide Awakes. Mas os secessionistas radicais não estavam tão dispostos a isso, uma vez que usavam o movimento como um bicho-papão em sua campanha pela desunião. Os habitantes da Carolina do Sul invocaram os Wide Awakes na noite em que deixaram a União. O ex-governador da Virgínia disse a seu estado que, se não se separassem, seriam “cortados em pedaços pelos Wide Awakes”. Essa minoria de extremistas planejava se separar de qualquer maneira, mas os Wide Awakes lhes forneceram um símbolo potente para espantar os sulistas mais moderados da União.

Guerra civil

Os líderes do Wide Awakes também começaram a usar seus manifestantes como combatentes. Alguns escreveram a Lincoln, oferecendo-se para enviar milhares de Wide Awakes armados para sua posse. Em St. Louis, os Wide Awakes usavam rifle e treinavam secretamente em cervejarias, enquanto os Southern Democratic Minutemen evoluíram, passando de um clube político para uma milícia paramilitar. Logo, sua antiga sede de campanha estava repleta de espingardas, canhões e bandeiras confederadas.

Quando os confederados dispararam contra o Forte Sumter, deram início à Guerra Civil, mas a luta não matou ninguém. O primeiro derramamento de sangue foi causado por um tipo de tumulto de rua que se intensificou ao longo de décadas. Quando as tropas de Massachusetts passaram por Baltimore, alguns dias depois do Forte Sumter, os Voluntários Nacionais dos Wide Awakes lideraram uma força contra eles. Cinco soldados e 12 civis foram mortos. Algumas semanas depois, os Wide Awakes militarizados de St. Louis revidaram, com cerca de 30 mortos em uma terrível briga de rua.

Os membros do Wide Awakes, que haviam começado como manifestantes, agora eram combatentes. O que era uma organização política com toques militaristas se tornou uma organização militar com motivação política.

Nas gerações seguintes, esquecemos deliberadamente os Wide Awakes e, com eles, a luta pelo discurso democrático que precipitou o conflito. Os americanos se acostumaram com um relato estranhamente cômodo de sua Guerra Civil, saltando de oradores gentis debatendo a “instituição peculiar” da escravatura para soldados azuis e cinzentos dispostos nos milharais da Virgínia, tudo isso ao som de um violino triste.

Os livros didáticos usam a frase passiva “A chegada da Guerra Civil”. Mas a guerra não chegou: os americanos a provocaram, discutiram e protestaram contra sua existência. O livro ajuda a repolitizar essa história, como um cabo de guerra incerto e em andamento entre discurso e ação, igualmente inspirador e preocupante. Marchando pela melhor das causas, eles ajudaram a trazer a pior das consequências.

(Jon Grinspan, curador de história política no Museu Nacional de História Americana do Smithsonian, é autor de “Wide Awake: The Forgotten Force That Elected Lincoln and Spurred the Civil War” e “The Age of Acrimony: How Americans Fought to Fix Their Democracy, 1865-1915″.)

c. 2024 The New York Times Company

Últimas

Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.