Prisioneiros dos EUA começam greve contra 'escravidão moderna'
Pessoas encarceradas estão dispostas até a fazer greves de fome e boicotes, mesmo sabendo que as consequências podem ser drásticas
Internacional|Beatriz Sanz, do R7

Milhares de presidiários em 17 estados dos EUA estão dispostos a cruzar os braços nos próximos 20 dias para chamar a atenção para as condições a que são submetidos. Um dos principais temas é o que os grevistas chamam de "escravidão moderna", o aproveitamento da mão de obra dos encarcerados em troca de salários irrisórios.
Na Louisiana, por exemplo, uma pessoa presa recebe 0,16 centavos por uma hora de trabalho.
Os grevistas exigem pagamentos iguais aos que são pagos para as pessoas não presas.
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Em muitos dos presídios privados existentes nos EUA, os prisioneiros precisam trabalhar para pagar produtos de subsistência.
Quando a escravidão foi extinta nos Estados Unidos, em 1865, houve uma regra que decretava que as pessoas poderiam continuar no regime de servidão se fossem condenadas por algum crime.
Diversos especialistas atribuem a imensa população carcerária dos EUA a forma como a liberdade da população negra foi conquistada.
Os Estados Unidos têm a maior população carcerária do mundo, com cerca de 2,3 milhões de pessoas.
Morte de prisioneiros incentivou greve
A greve prisional, que pode ser a maior da história do país, começa nesta terça-feira (21) e deve durar até o dia 9 de setembro com protestos pacíficos dentro das cadeias e penitenciárias.
O movimento começou a ser planejado dentro dos muros que os encarceram em abril, quando houve uma grande rebelião em um presídio na Carolina do Sul.
Na ocasião, sete pessoas morreram em meio a uma briga de gangues. Os carcereiros, policiais e outras autoridades não interviram na situação.
O grupo Jailhouse Lawyers Speak (Advogados da Prisão Falam, em tradução livre) está organizando a greve. Para o JLS, a manifestação acontece porque "fundamentalmente, é uma questão de direitos humanos".
A organização é composta por prisioneiros que prestam auxílio legal para outras pessoas em situação de cárcere.
O grupo divulgou um manifesto, onde esclarece quais são as dez principais demandas dos grevistas.
Elas incluem melhores condições carcerárias, o aumento do financiamento para serviços de reabilitação, a criação de prisões específicas para reabilitação e o direito de voto para os quase 6 milhões de norte-americanos com condenações criminais que são impedidos de votar no país.
O comunicado é enfático: "Os presos entendem que estão sendo tratados como animais. Prisões nos EUA são uma zona de guerra. Todos os dias, os prisioneiros são prejudicados devido a condições de confinamento. Para alguns de nós é como se já estivéssemos mortos, então o que temos a perder?"
Greve em datas signifcativas
As datas para o início e o término da greve também foram escolhidas a dedo.
No dia 21 de agosto de 1971, George Jackson um membro do partido dos Panteras Negras foi morto ao tentar fugir da prisão enquanto no dia 9 de setembro do mesmo ano, aconteceu o motim de Attica. Os prisioneiros fizeram 42 trabalhadores do presídio de reféns.
O governador de Nova York na época, Nelson Rockefeller, ordenou a entrada de policiais estaduais armados com espingardas e gás lacrimogêneo. O banho de sangue resultou na morte de 29 detentos e 10 de seus reféns.

Boicote
Além da greve de trabalho, os prisioneiros estão planejando outras movimentações como greve de fome e protestos pacíficos.
Acontece ao mesmo tempo um boicote aos produtos que são vendidos dentro das cadeias, para que essas empresas parem de ganhar dinheiro com os prisioneiros.
Os encarcerados estão economizando esse dinheiro para comprar, entre outras coisas, um livro chamado "Prise Profiteers: Who Make Money from Mass Incarceration" (Aproveitadores: Quem ganha dinheiro com o encarceramento em massa, em tradução livre) e outras obras que tratam sobre essa questão nos EUA.
Os prisioneiros que participam da greve e do boicote sabem que podem enfrentar graves consequências como passar um tempo nas solitárias.
O grupo que coordena a greve acredita que nos próximos dias, as autoridades carcerárias farão de tudo para abafar o resultado da paralisação e podem até mesmo cortar a comunicação dos prisioneiros com o mundo exterior.
Representantes das admnistrações de presídios não se manifestaram ainda sobre a greve.












