Senado vai cobrar governo britânico sobre detenção de brasileiro em Londres
Presidente da Comissão de Relações Exteriores diz que indícios apontam para “retaliação”
Internacional|Kamilla Dourado, do R7, em Brasília

A Comissão de Relações Exteriores do Senado vai enviar nesta terça-feira (20) uma correspondência oficial à Embaixada do Reino Unido em Brasília, exigindo explicações ao tratamento dado ao brasileiro David Miranda, que ficou detido por nove horas no aeroporto de Londres no último domingo (18).
O brasileiro é companheiro do jornalista americano Glenn Greenwald, para quem o ex-prestador de serviços da CIA Edward Snowden divulgou detalhes sobre a espionagem global dos Estados Unidos nos meios eletrônicos (internet e telefonia).
Miranda ficou detido no aeroporto de Heathrow quando fazia conexão de sua viagem entre Berlim e o Rio de Janeiro. Segundo autoridades britânicas, ele foi retido com base na lei antiterrorismo do país.
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Para o presidente da CRE, Ricardo Ferraço, (PMDB-ES), a explicação dada pelo embaixador britânico Alex Ellis de que a detenção é “uma questão operacional da polícia” não se justifica.
— Os ingleses poderão ser tratados assim também pela nossa polícia? Eu acho que eles deveriam tratar isso com mais seriedade. Não é comum esse tipo de atitude na nossa relação com o governo inglês.
Após se encontrar com o companheiro no Rio de Janeiro, na manhã de segunda-feira (19), Greenwald disse que a detenção de Miranda “foi uma tentativa frustrada de intimidação”.
Em artigo publicado no diário britânico The Guardian, para o qual trabalha, Greenwald afirmou que as circunstâncias da detenção não foram normais. Citando um documento publicado pelo governo do Reino Unido sobre a Lei de Terrorismo, o jornalista afirmou que, a cada mil pessoas que passam pelas fronteiras do país, menos de três são analisadas. Além disso, quando uma pessoa é detida nessas circunstâncias, o interrogatório dura menos de uma hora em mais de 97% dos casos. Apenas 0,06% de todas as pessoas detidas são mantidas por mais de seis horas, como aconteceu com o brasileiro.
Para o senador brasileiro, todas as evidências apontam para retaliação ao trabalho do jornalista do The Guardian.
— Se o governo [britânico] não der resposta, vai ficar evidente que se tratou de uma retaliação por causa da relação dele [David Miranda] com o jornalista do The Guardian. (...) Todos os indícios são nessa direção, mas não posso tratar nesse momento como fato oficial, mas os indícios são todos nessa natureza porque os fatos foram muito estranhos, não são normais, isso é um absurdo.
Segundo a assessoria do senador, ele conversou com o jornalista britânico e colocou a comissão à disposição dele.
O assunto também deve dominar as discussões da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados, marcada para esta terça-feira (20).
Críticas
Segundo o Ministério de Relações Exteriores (Itamaraty), o titular da pasta, Antonio Patriota, conversou sobre o tema por telefone com o chanceler britânico, William Hague. Segundo o Itamaraty, Patriota reiterou a “grave preocupação” do governo brasileiro com o episódio, classificado como injustificável.
Em nota, o Ministério do Exterior da Grã-Bretanha disse que a detenção “é uma questão operacional da Polícia Metropolitana de Londres”.
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A Anistia Internacional também criticou o ocorrido e informou que a detenção de Miranda “foi fora da lei e indesculpável”.
Greenwald é autor de diversas reportagens sobre os programas de ciberespionagem promovidos pela NSA (agência de segurança americana), com base em documentos fornecidos por Snowden, atualmente asilado na Rússia.
O jornalista afirma ter recebido de Snowden entre 15 mil e 20 mil documentos que revelariam violações do programa de espionagem norte-americano, entre elas o acesso a informações particulares de usuários de e-mails e redes sociais.
Atualmente, Snowden está na Rússia, onde lhe foi concedido asilo por um ano, mas o governo de Barack Obama tem buscado maneiras para levá-lo de volta aos Estados Unidos para responder a acusações de espionagem.
