Uma década de desespero
Após a invasão americana, o Iraque teve chance de se reconstruir diante do passado sangrento deixado por Saddam Hussein
Internacional|Do R7

Segundo um ditado iraquiano, quem suporta dois dias exatamente iguais foi maltratado pela vida. Durante a década de 1990, quando eu tinha 20 e poucos anos, esse provérbio vivia sendo citado. Naquela época estagnada parecia que nada mudava – o negócio era tão feio que, em retrospecto, mal consigo diferenciar entre 1997 e 1998.
Essa época terminou dez anos atrás, quando as forças dos Estados Unidos invadiram o Iraque. As contradições que eram contidas sob o governo de Saddam Hussein vieram à tona. Vidas foram ceifadas no processo. Não surpreende que, passada uma década, algumas pessoas se veem ansiando pela década de 1990.
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Enquanto tento relembrar de momentos importantes da década passada, um me vem à mente: o aniversário de 80 anos da rainha Elizabeth. Em 2006, meu chefe na sucursal da BBC no Iraque, onde eu trabalhava como repórter, pediu que eu fosse à Zona Verde participar dos festejos na embaixada britânica. Enquanto cruzava a Rua Saadoun, eu ouvi de um alto-falante montado sobre um táxi que uma série de carros-bomba havia explodido pela cidade.
A ladainha de mortos e feridos se tornara uma rotina. Afinal, acontecia todo dia: os explosivos, os assassinatos, as chamas das bombas das milícias extremistas. Muitos norte-americanos pensavam que haviam libertado Bagdá do medo três anos antes. Em vez disso, abriram os portais do inferno, liberando terrores antes desconhecidos.
Dentro do saguão para eventos especiais, estava fresco graças ao ar-condicionado. Alguém tocava piano. Os garçons corriam entre os convidados – do presidente Jalal Talabani aos membros da nova elite sunita, xiita e curda – oferecendo aperitivos. A cena não tinha nada em comum com o que acontecia a poucas centenas de metros dali, onde, apesar do caos e da insegurança, protestos organizados aconteciam para exigir serviços básicos e eletricidade. Dentro, os políticos elevavam as taças para brindar à rainha.
Um operador de câmera me contou uma história parecida. Em 2005, ele estava filmando uma figura influente do Iraque, homem que fora consultor dos EUA enquanto a invasão era preparada, quando a tela da televisão na sala se encheu com a notícia de uma tragédia na ponte Aimmam, que separa um bairro sunita num lado do rio Tigre dos xiitas na outra margem. Boatos de um homem-bomba provocaram um tumulto entre os peregrinos cruzando a ponte e quase mil pessoas foram pisoteadas ou se afogaram. O consultor levava uma xícara de café aos lábios quando viu a notícia. Ele parou a mão e falou: "Coitados!". Depois, deu uma bebericada.
O pensamento que me ocorreu então, e que permanece comigo até hoje, é o de que a nova elite política não se importa com o que acontece ao povo. Ela investe no povo, mas não se parece em nada com a população. A elite sempre teve um Plano B, enquanto o povo não tinha escapatória.
Aquele consultor, a exemplo de muitas figuras iraquianas importantes, terminou se mudando para os Estados Unidos. Os norte-americanos tornaram possíveis muitas dessas partidas, até mesmo para quem fora acusado de corrupção. Em resultado, agora os iraquianos esperam que a maioria dos políticos passe a duração de seus mandatos garantindo indicações de prestígio e fechando acordos corruptos para acumular dinheiro suficiente visando uma aposentadoria confortável fora do país.
Não causa surpresa que os iraquianos vão embora, levando em consideração o abismo entre as expectativas das mudanças que a ocupação traria e a realidade dez anos depois. O pior da carnificina de 2006 e 2007, quando a Al Qaeda atacou civis xiitas e as milícias xiitas retaliaram, já passou, mas a violência continua a ser um lembrete da incompetência do aparato de segurança iraquiano e da fraqueza de suas agências de inteligência.
Ultimamente, as tensões sectárias foram exacerbadas pelas repercussões da Síria. Teme-se um confronto entre o governo central, sob o controle da coalizão do primeiro-ministro Nuri Kamal al-Maliki, e sunitas arrebatados pela Primavera Árabe. Somente nesta semana, às vésperas do aniversário da ocupação, cerca de uma dúzia de bombas explodiu em bairros de maioria xiita dentro ou nos arredores de Bagdá, deixando quase 60 mortos.
Durante todo esse tempo, a elite iraquiana não conseguiu forjar um sistema político capaz de se opor e resolver as diferenças sectárias dentro de um arcabouço democrático. Ela fracassou em fortificar o Estado e suas instituições contra a corrupção desenfreada que se tornou uma especialidade iraquiana.
Durante esta última década, apertei as mãos de muita gente pela última vez. Muitas outras pessoas foram embora. Um terceiro grupo, como meu amigo poeta Ahmad Adam, foi assassinado.
Costumam me perguntar por que também não vou embora. Não tenho uma resposta simples. Certamente não tenho curtido ser uma testemunha. Eu sofri, como outros, com as lutas diárias e os eventos violentos. O pior tem sido observar a destruição gradual da esperança e a usurpação do desespero.
Porém, eu acredito que, se permanecer aqui, posso ajudar a construir algo para mim e o meu país. Apesar de tudo, acredito que isto seja possível.
Posso escrever este texto agora graças à eletricidade que recebo de um gerador no meu bairro, que funciona oito horas por dia. O Iraque não tem tido eletricidade adequada desde que os aviões norte-americanos bombardearam nossas usinas elétricas em 1991.
A maioria das pessoas atribui os fracassos do nosso "Novo Iraque" aos norte-americanos, que o estabeleceram e definiram as regras básicas. Contudo, poucos sabem o que fazer com essa culpa. Recentemente, foram vistas muitas questões no Facebook e Twitter sobre o significado do que aconteceu na última década.
Algumas delas: Por que os EUA não fortaleceram melhor os leigos da sociedade civil para conter a ascensão do fundamentalismo? Por que os norte-americanos foram cúmplices da corrupção, perdendo rapidamente sua legitimidade aos olhos do povo iraquiano? O que os EUA ganharam gastando mais de US$ 2 trilhões nesta guerra? Se realmente foi por causa do petróleo, por que parece que a China vai ganhar mais com a exploração dos lucrativos contratos petrolíferos do Iraque? Será que os norte-americanos, que se retiraram em dezembro de 2011, tiraram o Iraque das mãos de Saddam somente para lançá-lo ao Irã?
Acima de tudo, por que o tempo iraquiano se reduziu tão rapidamente após seu poderoso avanço? Por que voltamos a nos estagnar, desta vez com um cenário político dominado por um punhado de partidos fundamentalistas que não parecem nem um pouco agradecidos com que os EUA fizeram por eles?
De repente, a energia cai e tudo ao meu redor se desliga, menos esse fluxo de questões intermináveis.
(Ahmad Saadawi é um escritor de Bagdá cuja obra foi publicada na coletânea "Beirut 39: New Writing From the Arab World" – "Beirute 39: novos escritos do mundo árabe", em tradução livre, Bloomsbury USA, 2010.)
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