Logo R7.com
RecordPlus

Vivendo o terror no Paquistão e em Boston

Cenas de guerra vivida ao fim da maratona na semana passada lembraram regiões de conflitos religiosos e políticos

Internacional|Do R7

  • Google News
Americanos fizeram um minuto de silêncio em homenagem às vítimas do atentado em Boston na última segunda-feira (22)
Americanos fizeram um minuto de silêncio em homenagem às vítimas do atentado em Boston na última segunda-feira (22)

Eu estava comendo comida chinesa com minha esposa e amigos na semana passada, quando ouvimos o eco surdo e mortal. A água nos copos de plástico ondulou. Nós nos olhamos e fizeram uma piada sobre a famosa cena em "Jurassic Park – O Parque dos Dinossauros". Tentamos abafar o momento com humor, mas, então, uma torrente humana desceu sobre o Prudential Center, na rua Boylston, bem na frente de onde a segunda bomba tinha acabado de explodir, perto da linha de chegada da maratona.

Pessoas surgiram aos borbotões pelo corredor feito peixe em corredeira. Houve um borrão de roupas brancas e tênis brilhantes, todos vestidos para o fim de semana do Dia dos Patriotas, durante o que, até então, era um dia lindo de primavera. De forma instantânea, imagens do tiroteio em Aurora, Colorado, Newtown, Connecticut, e Tucson, Arizona, vieram à mente. Parecia que meus pensamentos se reduziram a flashes únicos. Minha vida, toda ela, foi o primeiro. Minha esposa, sentada diante de mim, foi o segundo. Eu gritei para ela correr e nós corremos, sem saber o que havia acontecido, só que fora algo horrível.


Suspeito de Boston enfrentará pena de morte se for condenado

Atentado de Boston agrava racha no debate migratório nos EUA


Canadá desarticula grupo terrorista ligado à Al Qaeda que planejava atacar trem na região de Toronto

Saímos correndo da praça de alimentação para o terraço diante da rua Boylston. Nós víamos as pessoas fugindo da linha de chegada mesmo enquanto, a distância, outros maratonistas cansados, ignorantes da situação, continuavam correndo para a devastação. O que sobrou da praça de alimentação foi uma terra congelada num tempo inocente, garfos ainda presos em pedaços de carne comidos pela metade, pertences abandonados. Eu senti medo de maneira indescritível.


Essa não era minha primeira experiência com o terror, pois cresci no Paquistão. Contudo, por algum motivo, eu não pensava naquelas experiências. Olhando para a rua Boylston, caótica e cheia de fumaça, eu me esqueci de quando me agachava no meu quarto de criança enquanto bombas e tiros choviam sobre o quartel-general do exército em Rawalpindi, ao lado de nossa casa. Minha mente não se lembrou de quando subi no telhado do meu dormitório em Karachi enquanto as ruas eram tomadas por ônibus em chamas e manifestantes com raiva após o assassinato de Benazir Bhutto. Nenhuma das infelizes experiências de crescer em meio a milhares de vítimas do terror, conhecendo pessoalmente algumas delas, me ajudou naquela hora. Nada tornou aquilo mais fácil.

Talvez, se eu estivesse pensando com maior clareza e não estivesse acompanhado pela minha esposa, eu poderia ter descido para tentar ajudar os feridos. Porém, naquele momento eu só conseguia pensar em nos tirar dali. Nós perdemos nossos amigos e voltamos a encontrá-los. Os celulares não funcionavam. E, então, enquanto avançávamos pela multidão estupefata em Back Bay, percebi que não apenas era vítima do terror como também um suspeito potencial.


Sendo um paquistanês de 20 e poucos anos com barba escura e sempre por fazer (que tem mais a ver com minha rotina frenética como residente na unidade de tratamento intensivo do que com estética ou ideologia), eu não preenchia os requisitos? Eu sei que me pareço com o vilão favorito dos filmes de Hollywood após o fim da Guerra Fria. Tenho muita experiência com revistas íntimas em aeroportos. Seria aconselhável voltar e pegar a máquina fotográfica que meu amigo esquecera no carrinho de bebê do filho no shopping? Eu me lembro de me sentir feliz por não estar de mochila, o que imaginei que poderia parecer suspeito. Minha mente vagou para quando eu estaria trabalhando na UTI no dia seguinte, talvez cuidando de vítimas da explosão. O que lhes diria quando me perguntassem de onde eu sou – uma questão ouvida com frequência. Não seria mais fácil contar que vim da Índia ou de Bangladesh?

Enquanto caminhava pela avenida Commonwealth, comecei a receber telefonemas de familiares em casa. Eles contaram o que estava passando nas telas de televisão do mundo inteiro. Eu estava tremendamente consciente do que falava ao telefone, como se alguém respirasse sobre meu ombro, ouvindo cada palavra dita por mim. Tomando cuidado para não falar urdu (um dos idiomas do Paquistão), eu falei somente em inglês, relatando estar seguro e tudo que eu vira. Eu continuava mantendo a ingênua esperança de que fora uma explosão de gás, um acidente no metrô, não o que mais e mais parecia ser: um ato de brutalidade visando a alta densidade de pessoas e câmeras.

O próximo passo seria esperar que o criminoso não fosse um lunático que viria a se tornar o novo rosto de um bilhão de pessoas. Não um assassino que alimentasse ainda mais as chamas da islamofobia. Não um animal que obstruísse a possibilidade de milhares de alunos completarem os estudos nos Estados Unidos. Não um extremista que mutilaria e machucaria as próprias pessoas que ainda estavam se recuperando da dor do 11 de setembro. O presidente norte-americano, Barack Obama, e o governador de Massachusetts, Deval L. Patrick, escolheram muito bem as palavras e tomaram o cuidado de não acusar um povo inteiro pelo que um louco pode ter feito. Porém, outros talvez não sejam tão gentis.

(Haider Javed Warraich é residente de medicina interna no Centro Médico Beth Israel Deaconess, Boston.)

O que acontece no mundo passa por aqui

Moda, esportes, política, TV: as notícias mais quentes do dia

Últimas


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.