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Por que a BR-381, onde ocorreu acidente que matou equipe da Band Minas, é conhecida como ‘rodovia da morte’

Trecho da batida é considerado um dos mais críticos, com pista simples, curvas acentuadas e tráfego intenso

Minas Gerais|Cler Santos, do R7

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Alice Ribeiro, repórter da Band Minas, teve morte cerebral confirmada Divulgação/Redes Sociais

O início das obras de duplicação da BR-381, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, reacendeu o debate sobre a segurança em uma das rodovias mais perigosas do país — e também sobre o tempo que essa intervenção levou para sair do papel.


Considerada um dos principais corredores logísticos do Sudeste, a estrada acumula um histórico de acidentes graves que, na avaliação de especialistas, poderia ter sido menor caso as melhorias estruturais tivessem sido feitas antes.

Foi nela que morreram, na semana passada, a repórter Alice Ribeiro e o cinegrafista Rodrigo Lapa, da Band Minas. Eles estavam em um carro da emissora quando colidiram com um caminhão.


Alice, que atuava na emissora desde agosto de 2023, deixou um filho de nove meses.

A BR-381 é uma das principais rodovias federais do Brasil e tem cerca de 1.180 quilômetros de extensão, ligando o município de São Mateus, no Espírito Santo, até a cidade de São Paulo, onde se conecta à BR-116.


Ao longo do trajeto, a estrada atravessa três estados — Espírito Santo, Minas Gerais e São Paulo — e corta dezenas de cidades, incluindo importantes polos como Belo Horizonte, Contagem, Betim, Ipatinga, Governador Valadares, Pouso Alegre, Atibaia e Guarulhos.

Somente em 2025, foram registrados 369 acidentes com vítimas na BR-381, sendo 15 fatais. Já em 2026, até fevereiro, o número chega a 95 ocorrências, com 7 mortes.


Os dados refletem um cenário que especialistas classificam como crítico e previsível diante das características da rodovia.

“A BR-381 reúne uma combinação de fatores que potencializam o risco: alto fluxo de veículos, presença intensa de caminhões e um traçado com curvas acentuadas e declives. Isso, somado às condições dos condutores e dos veículos, cria um cenário de risco elevado”, explica a especialista em trânsito, psicóloga com foco em mobilidade urbana e segurança viária, Cinthia Almeida.

‘Rodovia da morte’

Para o diretor da Associação Mineira de Medicina do Tráfego (AMMETRA), Alysson Coimbra, o problema é estrutural e vai além do comportamento dos motoristas.

“O nome ‘rodovia da morte’ não surgiu por acaso. É resultado de uma soma de vulnerabilidades: pista simples em longos trechos, baixa visibilidade, fluxo intenso e infraestrutura que não acompanhou a demanda”, afirma.

Esse descompasso entre crescimento do tráfego e falta de intervenção é apontado como um dos principais fatores para o alto número de acidentes.

Na engenharia de tráfego, esse cenário é descrito como saturação do nível de serviço — quando a rodovia deixa de operar de forma previsível e passa a funcionar em regime de risco constante.

“Quando a via opera próxima da saturação, aumentam as ultrapassagens forçadas, os conflitos frontais e o efeito cascata de acidentes. O atraso na duplicação não é neutro — ele contribui diretamente para a manutenção de um cenário de alta letalidade”, aponta a análise técnica.

A duplicação, nesse contexto, é vista como uma medida essencial para reduzir mortes.

Segundo os especialistas, a separação física entre os sentidos da via elimina o principal tipo de acidente fatal: a colisão frontal. Além disso, melhora a previsibilidade do tráfego, reduz ultrapassagens indevidas e permite a implantação de dispositivos de segurança.

“Mesmo que haja imprudência ou um mal súbito do condutor, uma rodovia duplicada consegue absorver melhor o impacto e reduzir o risco de morte”, explica Cinthia Almeida.

De acordo com Coimbra, estudos indicam que a duplicação pode reduzir entre 30% e 60% os acidentes fatais, dependendo das condições do trecho.

“Ela é uma das intervenções mais eficazes, mas precisa vir acompanhada de fiscalização, controle de velocidade e educação no trânsito. Caso contrário, o risco apenas muda de forma”, completa.

As obras começaram no dia 15 de abril, no trecho entre Caeté e Ravena, em Sabará, considerado um dos mais críticos da rodovia.

Máquinas já atuam na terraplanagem do lote 8A, com investimento previsto de mais de R$ 405 milhões e conclusão estimada até 2028. O projeto inclui ainda viadutos, passarelas, áreas de escape e melhorias no traçado.

Como foi o acidente

O debate ganhou ainda mais força após o acidente envolvendo a equipe de reportagem, justamente no primeiro dia de movimentação das obras no trecho.

A colisão aconteceu por volta de 12h45, no km 441 da rodovia, nas proximidades do Posto Fumaça e da praça de pedágio, no sentido Belo Horizonte.

Segundo a Polícia Rodoviária Federal, o carro da emissora seguia em direção ao Espírito Santo quando bateu de frente com uma carreta. Com o impacto, o veículo ficou completamente destruído na parte dianteira.

Rodrigo Lapa, o cinegrafista de 49 anos que dirigia o carro, morreu ainda no local.

Já Alice, que estava no veículo, foi socorrida em estado grave, inicialmente atendida pela concessionária da rodovia, com apoio do Corpo de Bombeiros e do helicóptero Arcanjo. Ela foi encaminhada ao Hospital João 23, na capital, mas não resistiu aos ferimentos e teve a morte confirmada na noite desta quinta-feira (16/4).

A rodovia precisou ser totalmente interditada nos dois sentidos durante o atendimento da ocorrência, o que provocou um longo congestionamento na região.

O trecho onde ocorreu a batida é considerado um dos mais críticos da BR-381, com pista simples, curvas acentuadas e tráfego intenso, especialmente de veículos pesados — características que ajudam a explicar a gravidade do impacto.

Apesar do avanço das obras, o histórico de atrasos chama a atenção. A duplicação da BR-381 se arrasta há mais de uma década, marcada por entraves como falta de recursos, questões ambientais e dificuldades em desapropriações.

Para especialistas, esse tempo perdido deixou um passivo de acidentes e mortes que poderia ter sido significativamente menor.

Agora, com o início efetivo das intervenções, a expectativa é que a BR-381 comece, aos poucos, a deixar para trás o estigma de rodovia perigosa. Mas, para especialistas, a correção chega tarde e o desafio será reduzir um problema que se acumulou ao longo de anos.

O que diz a Nova 381

Em nota, a Nova 381, concessionária responsável pelo trecho Caeté - Governador Valadares, informou que “não há atraso no cronograma das obras de duplicação no trecho sob sua responsabilidade, entre Caeté e Governador Valadares. No trecho administrado pela Nova 381, é realizado um trabalho contínuo, com operação de inspeção de tráfego 24 horas por dia, atendimento operacional aos usuários, suporte com atendimento pré-hospitalar e manutenção constante da rodovia. Essas ações têm como objetivo assegurar condições de tráfego cada vez mais seguras e fluidas para os usuários da BR-381.”

O que diz o DNIT

Já o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) informou que o início dos serviços no Lote 8A aconteceu em 04/11/2024, e, no Lote 8B, em 16/06/2025. O cronograma da obra tem duração total de três anos, sendo dois somente de execução de obra. Veja nota:

“Ressaltamos que, além de ter sanado o problema dos buracos, o DNIT está fazendo uma revitalização no pavimento no momento, até que a obra da duplicação possa fazer uma restauração total do pavimento existente, onde os trechos serão coincidentes. É importante ressaltar que alguns segmentos da rodovia serão alterados, ou seja, não será o mesmo segmento.

Sobre o percentual da BR-381 de Belo Horizonte a Caeté, os trechos em sua maioria são de pista simples. A partir de Caeté, o trecho é de responsabilidade da Concessionária Nova 381.

A pista simples é mais propensa a acidentes, visto que, muitas vezes, o motorista pode sair da pista ou colidir frontalmente. Quando o motorista perde o controle do veículo na pista simples, ele está mais propenso a sofrer um acidente grave, como o desta semana, que resultou na morte de duas pessoas que estavam num carro de reportagem. É bom ressaltar que, conforme dados da Polícia Rodoviária Federal, uma parte considerável dos acidentes é causada por imprudência dos motoristas.

O perigo da BR-381 pode ser explicado pelo grande fluxo de caminhões e veículos pequenos associado à pista simples. Outro fator é que a rodovia, em vários segmentos, tem muitas curvas, aclives e declives, característicos de uma região montanhosa. Isso propicia que qualquer desatenção ao volante, erro, problema mecânico ou algum defeito da pista, como uma ondulação ou um afundamento, aumente a possibilidade de um acidente. Regiões onde a rodovia é mais plana, como a BR-365 no Triângulo Mineiro, por exemplo, têm acidentes menores, mesmo com a pista simples.

Um dos principais objetivos do DNIT com a obra é melhorar a trafegabilidade e a segurança dos usuários. Com a duplicação da pista, acidentes graves diminuirão consideravelmente, pois não haverá batidas frontais. Além da duplicação da pista, a obra que o DNIT irá promover espera melhorar a geometria em vários pontos, diminuindo raios de curva, aclives, subidas e descidas, preservando a segurança dos motoristas.

O DNIT ressalta que o motorista, antes de sair para uma viagem rodoviária, como no feriado que se aproxima, deve fazer a revisão mecânica do seu veículo, respeitar a sinalização da via e os limites de velocidade da rodovia que, muitas vezes, varia em determinados segmentos. Além disso, deve estar descansado e atento ao volante."

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